Caríssimo amigo, espero que esta mensagem o vá encontrar em bem. E que não leve a mal o meu longo silêncio. Espero também que o seu Verão tenha corrido bem, pelo menos tão bem como o meu. Sabe que concluí finalmente o meu curso e, enquanto não arranjo trabalho, tenho estado a gozar umas férias que, ouso dizer, não serão imerecidas. Dirá, naquele seu estilo um pouco severo, que por vezes usa para falar comigo: já não era sem tempo! Ou então, mais vale tarde do que nunca! Acredite que não lhe guardo rancor, e que, agora, até compreendo as suas intervenções. Reconheço que me apercebo finalmente do importante que é alcançarmos uma coisa com o nosso esforço, e não porque nos caiu do céu. Ou então, porque a Heloísa a fez para mim.
Estou aqui na Costa Bela, comodamente sentado à janela do meu quarto (meu e da Maria da Luz!), ela saiu para ir fazer umas compras, e deixou-me aqui a dormitar. Ela já saiu há um bocado, e eu aproveitei para lhe vir escrever. Viemos para aqui já lá vai quase um mês, depois de a Maria da Luz ter resolvido uma série de assuntos, muito importantes, segundo ela me contou, até para o trabalho que vamos começar depois de férias. Estou ansioso para começar, acredite. Entretanto, aqui estamos, nesta casa que nos emprestou um parente da Maria da Luz, do lado do pai, e que passa sempre as férias em Espanha, em Marbella. Parece que tem lá muitos negócios. A Maria da Luz ainda quis convencer a minha mãe a vir connosco (fiquei muito contente por ela o ter feito), mas a Heloísa recusou. Disse que vinha estar a mais. Fiquei um pouco chocado por ela ter dito aquilo, mas não me pronunciei. E é verdade que temos estado aqui muito bem. Vamos á praia todos os dias, comemos em casa, dormimos a sesta, enfim fazemos tudo o que nos apetece. Pode crer! Depois do jantar damos longos passeios, sentamo-nos numa esplanada e bebemos um café (deixe-me dizer-lhe que deixei de beber álcool!). Ou então damos longos passeios pela povoação, vamos até à parte alta que fica mesmo junto ao mar, e ficamos ali a olhar. Sinto-me muito bem, acredite.
Julgo que já lhe contei uma ida à praia, quando era novo, com a minha mãe. De outra vez, teria eu aí uns doze anos, num dia muito quente, ela resolveu que íamos a Carcavelos, ao banho. Aliás, ela tinha tomado a resolução na véspera. Foi buscar um saco que guardava na nossa despensa do corredor, meteu-lhe dentro toalhas, sabão, cremes, protector solar, uma revista da TV, e outras coisas que não me mostrou. Quando me acordou de manhã, mostrou-me uns calções de banho que eu nunca tinha visto, e disse-me:
– Comprei isto para ti. Vê se te estão bem.
Experimentei-os e ficavam-me bem, efectivamente. Ela ficou muito contente. Tomámos o pequeno almoço e saímos para ir apanhar o comboio. Devo-lhe dizer que a achei muito bem disposta, nesse dia. Acredite que ela não estava assim todos os dias. Aliás, na maior parte dos dias, logo pela manhã tinha normalmente um ar muito carregado. Às vezes, dava-me a impressão de ter estado a chorar. Uma vez que acordei muito cedo, ela ainda estava deitada, fui à cozinha beber água, e pareceu-me ouvi-la chorar. Nunca soube a razão. Também não tive coragem para lhe perguntar. Mas nesse dia em que fomos à praia ela estava muito bem. E vou-lhe dizer uma coisa, estava muito bonita. É verdade, meu amigo, recordo-me muito bem dela nesse dia. Sorria, e que linda estava. Na altura, tinha uma bela silhueta. E usava o cabelo enrolado Meu amigo, será assim tão terrível um homem achara que a sua mãe tinha uma bela silhueta e um penteado que lhe ficava bem? Espero que não ache isso. Sabe que sempre tratei a minha mãe com muito respeito. Mas deixe-me que lhe diga, naquele dia achei-a tão bonita! E com um ar contente.
Bem, lá fomos apanhar o comboio ao Cais do Sodré. Era cedo e fomos a pé, embora seja longe do nosso bairro. Mas, como ainda estava fresco, foi agradável. Em Carcavelos, no caminho até à praia já tivemos calor. Mas chegámos bem à praia. A minha mãe devia estar com algum dinheiro, porque imagine que alugou um toldo. Fomos à água logo a seguir. Explicou-me a Heloísa que era melhor assim, ir ao banho quando ainda não se está quente com o sol. Depois estendemo-nos a enxugar durante um grande bocado. Almoçámos o farnel que ela tinha preparado. Um franguinho de caril, calcule. Ainda me lembro de agarrar numa perna e de a comer à mão. E de reparar nuns sujeitos a admirarem a Heloísa, no seu fato de banho azul escuro. Ela fingia não reparar em nada. Sempre com um ar muito sério, como sempre põe quando sai à rua. Ainda hoje.
O resto do passeio correu muito bem. Ao chegarmos a casa encontrámos a D. Gertrudes Acabadinho, que, permita-me que lhe diga, na altura (já lá vão quase quarenta anos!) era uma senhora muito jeitosa. A minha mãe fez-lhe uma narrativa completa da nossa ida à praia. Pareceu que tínhamos tido uma grande aventura. Não sou capaz de lhe descrever o ar admirativo da D. Gertrudes. Até abria a boca, a ouvir a minha mãe.
Meu caro amigo, vou despedir-me por hoje. Vem aí a Maria da Luz. Ela não sabe desta minha correspondência consigo. Nunca lhe contei nada a seu respeito. Acha que lhe devia dizer?