EDITORIAL – A ARMADILHA

logo editorial

Ontem, na televisão, salvo erro na SIC Notícias, alguém deu a entender que Cavaco Silva terá passado a António Costa a responsabilidade da formação de governo.  Obviamente que foi uma afirmação irónica, mas que terá um fundo de verdade. Não houve, claro, uma transmissão de poderes declarada, o que seria ilegal, e totalmente inconstitucional. Contudo, não será excessivo assinalar que, consciente ou inconscientemente, se está a tentar criar uma situação em que António Costa e o PS ficarão expostos a um desgaste bastante maior do que se Passos Coelho estivesse expressamente encarregado de formar governo, e tivesse de avançar para a votação do seu programa na assembleia da república apenas em maioria relativa.

Poderá haver uma tentativa de compor um governo à esquerda, se o presidente da república chegar à conclusão de que a força política mais votada não  conseguirá formar governo, ou o programa desta for derrotado na assembleia da república. Poderia ainda haver a alternativa de Cavaco Silva querer lançar um governo de sua iniciativa (será que ele quererá aí chegar?). Mas neste momento, está-se suspenso dos contactos de António Costa à sua direita e à sua esquerda. A direita, que parece contente com o avanço da candidatura à presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, quer fazer passar a ideia de que a iniciativa cabe a Costa, de fazer propostas que ela, a direita, possa aceitar. À esquerda, as concessões não poderão ultrapassar certas “linhas vermelhas” (a expressão está na moda), caso contrário custarão caro, às forças políticas que as fizerem e ao país, que já suporta tantas transgressões.

Leave a Reply