Carta do Rio – 72 por Rachel Gutiérrez

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Fernando Pessoa, o mais universal dos poetas da nossa língua, apesar de ter estudado numa escola irlandesa da África do Sul, que proporcionou aos seus verdes anos maior familiaridade com o idioma inglês do que com o nosso, afirmou, como é sabido, que “ a sua pátria era a língua portuguesa”.  Clarice Lispector, a brasileira nascida por acaso na Ucrânia, escreveu uma crônica recolhida no livro A Descoberta do Mundo intitulada Declaração de Amor:

“(…) amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes como um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de clareza.”

Manuel Bandeira, por sua vez, lembrando a sua infância no belo poema Evocação do Recife, disse:

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”

Hoje em dia, porém, tanto a fala quanto a escrita do “gostoso português do Brasil” andam muito maltratadas, desleixadas, abandonadas, como a nossa educação e a nossa cultura tão pobremente geridas ou estimuladas. E a língua vai se empobrecendo dominada por modismos ou adaptações equivocadas do inglês e do francês como é o caso, por exemplo, da palavra “cenário”, que o moderno jornalismo assimilou. Ora, cenário, que sempre pertenceu à linguagem teatral e depois, à cinematográfica, refere-se em bom português à decoração do palco ou do set (ambiente ou local) em que as cenas de teatro ou de cinema acontecem, ou ainda, metaforicamente, a uma paisagem ou ambiente especial. É em francês e inglês que cenário quer dizer roteiro ou sucessão de acontecimentos, sequência de cenas de uma peça ou de um filme. Acredito que nessas duas línguas possa significar também, metaforicamente, a perspectiva dos acontecimentos, o que se imagina que vai acontecer proximamente. Não sei se ocorre o mesmo em Portugal, em Angola, Cabo Verde ou Moçambique, mas no Brasil, de uns tempos para cá, todo mundo usa a palavra cenário com o sentido de roteiro ou de perspectiva.

Entre os verbos, aquele cujo uso moderno mais me incomoda é capturar. Dizem: “o fotógrafo capturou a imagem”. Por quê? A imagem por acaso estaria foragida, era uma fugitiva? Sempre entendi que foragidos, malfeitores, assaltantes ou assassinos é que são capturados. Imagens, ideias, pensamentos, argumentos são captados. Diz o meu precioso dicionário de sinônimos: capturar é prender um foragido usando de força; captar é aprender o sentido de alguma coisa. Acrescentem-se as formas e as cores, é claro, e as imagens ou instantâneos que as máquinas (ou os novos smartphones) de fotografar e de filmar registram, captam.

E também aparentado com as máquinas de fotografar ou de filmar, eis que nos chega, de forma insistente, o verbo focar com o qual implico ainda mais porque o julgo muito feio. Já tínhamos enfocar e focalizar no sentido de pôr em foco, visualizar com atenção. Agora, fala-se “foco, foquei, pretendo focar” no sentido de dar atenção a qualquer coisa. O som não é agradável, convenhamos. E há mais: pessoas supostamente sofisticadas usam, como no inglês, “realizar” no sentido de dar-se conta, perceber, reconhecer, conscientizar-se de algo.

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Uma das mais belas livrarias do mundo: Lello&Irmão  – Porto – Portugal.

Na verdade, nada disso é muito importante porque a língua é viva e evolui e se modifica constantemente. Mas fico triste só em pensar que o ensino de um idioma tão rico como o nosso não consiga estimular nos jovens o gosto pela leitura e a descoberta da exuberância verbal de um José Cândido de Carvalho, (1914-1989), por exemplo, autor de um romance magnífico: O Coronel e o Lobisomem. Qual!..dirão: é muito antigo, não tem nada a ver com o mundo de agora. E não sabem o que perdem.

Não esqueço uma observação feita pelo escritor mineiro Autran Dourado, grande amigo de Clarice, numa reunião da nossa saudosa ALACL (Associação de Amigos e Leitores de Clarice Lispector):

“Temos grandes escritores, inúmeros bons escritores, e temos três criadores de língua: Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector.”

Apesar de tudo isso, fala-se mal e escreve-se pior ainda. Basta ouvirmos nossos políticos. Penso, porém, nos jovens. As redações das provas de vestibulares (sem falar na ortografia!) são desoladoras: pobreza vocabular, erros primários de concordância e de regência, falta de clareza, ideias meramente justapostas sem conexão nem lógica. Como faz falta a Filosofia!

E se eu agora lembro que Joaquim Nabuco (1849-1910), em seu belo livro de memórias, Minha Formação, disse acreditar que o estilo de quem escreve se forma até os dezoito anos, portanto ler muito é indispensável, fico com pena dos nossos adolescentes, vítimas do descaso do país com a Cultura e a Educação.

 

3 Comments

  1. “Apesar de tudo isso, fala-se mal e escreve-se pior ainda. Basta ouvirmos nossos políticos. Penso, porém, nos jovens. As redações das provas de vestibulares (sem falar na ortografia!) são desoladoras: pobreza vocabular, erros primários de concordância e de regência, falta de clareza, ideias meramente justapostas sem conexão nem lógica. Como faz falta a Filosofia!
    E se eu agora lembro que Joaquim Nabuco (1849-1910), em seu belo livro de memórias, Minha Formação, disse acreditar que o estilo de quem escreve se forma até os dezoito anos, portanto ler muito é indispensável, fico com pena dos nossos adolescentes, vítimas do descaso do país com a Cultura e a Educação.”

    Uma visão assertiva que também se pode aplicar, com toda a propriedade, ao que se passa em Portugal.

  2. Rachel Gutiérrez,,independentemente de concordarmos mais ou menos com as temáticas, escreve num português impecável que, por si só,demonstra a inutilidade do Acordo Ortográfico – dizei-me que palavra ou expressão não compreendeis- Mas é de toda a justiça que, além do reconhecimento da excelência do seu estilo e da correcção do seu uso do nosso idioma, comum a todos os seus escritos, se refira a elevada qualidade deste texto , quanto a mim, um dos melhores entre os muitos que nos tem oferecido. Uma lição de Literatura- deliciosa e a denúncia da ignorância de muitos jornalistas brasileiros – a confusão entre «captar» e «capturar» uma imagem é compensada em Portugal com uma lista de parvoíces equivalentes – por exemplo, o adjectivo «viral» tornou-se viral… Parabéns a Rachel Gutiérrez…. Com textos como este. a «pessoana pátria consolida as suas fronteiras.

  3. Agradeço os generosos comentários de meus queridos amigos e companheiros nesta Viagem dos Argonautas.Bons ventos nos levem a dias melhores e de maior respeito à nossa língua pátria!.
    abraços

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