CARTA DE VENEZA – CARTA EXTRAVIADA – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Carta extraviada

Esta carta vai um pouco extraviada, passando por Veneza mas partindo idealmente de Lecce, a pérola barroca da região Apúlia, lá no fundo da “bota”. Na linda cidade de Lecce decorreu entre 8 e 11 de outubro a quinta edição do SIMELP (Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa), realizado pela primeira vez num país que não pertence à lusofonia (www.simelp.it).

Foram quatro dias intensos de simpósios, mesas redondas, apresentação de livros e sessões de autógrafos, regidos por uma organização fabulosa junto da Università del Salento, sob a direção do Prof. Gian Luigi De Rosa e da Prof.ª Katia de Abreu Chulata.

A língua portuguesa animou as ruas da cidade e centenas de estudiosos reuniram-se nas inúmeras salas que acolheram o evento para compartilhar as suas pesquisas no âmbito da linguística, da lexicografia, dos estudos de tradução, da literatura, do ensino do português quer como língua materna, quer como língua estrangeira ou de herança, e de outras áreas de estudo pertinentes. Dos muitos especialistas de renome, podem-se mencionar Esperança Cardeira, Marcos Bagno, Maria Marta Pereira Scherre, Maria Teresa Lino, Maria Helena Moura Neves, só para dar uma ideia e sem prejuízo dos outros. Dos lusitanistas italianos não podemos deixar de recordar os professores Giuseppe Tavani e Giulia Lanciani, dentre os fundadores dos estudos portugueses neste país.

O sotaque brasileiro foi o predominante, apesar de muitas desistências por parte de académicos naturais do Brasil devido à crise que está a afetar o país, ao corte das verbas que permitiam a mobilidade de professores e investigadores e a um câmbio muito pouco favorável. Contudo, a variedade dentro da mesma língua foi um dos grandes temas de debate, além de uma evidência constante no diálogo entre os participantes.

As comunicações apresentadas serão disponibilizadas brevemente online, divulgando a um público mais amplo de interessados a riqueza dos temas tratados, a vastidão de abordagens e a profundeza do discurso teórico, em vários níveis, em volta da língua portuguesa.

Bem descrevem o sentimento difuso durante o V SIMELP as palavras proferidas pela Prof. Kátia de Abreu Chulata durante a sessão de abertura: “Somos como sobreviventes de um naufrágio que conseguiram salvar a única coisa que não ocupava espaço porque nos ocupa por inteiro: a língua”. A nossa língua, cada vez mais multicêntrica, a evoluir em rede, saberá conservar as suas pontes fortes, com oceanos que ainda unem em vez de separar?

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