Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

O relatório sobre o avião MH-17 das linhas aéreas da Malásia
Paul Craig Roberts, The MH-17 ‘Report’
http://www.paulcraigroberts.org, 13 de Outubro de 2015
Quando li que o relatório sobre o abatimento do avião de passageiros malaio ao sobrevoar o espaço aéreo da Ucrânia estava a ser posto nas mãos dos holandeses, pensei imediatamente que não haveria nenhuma investigação e nenhuma atenção seria dada aos factos.
E não deram.
Eu não pretendi escrever sobre o relatório, porque a propaganda de Washington já terá conseguido, pelo menos no mundo ocidental, alcançar o seu objectivo que era o de culpabilizar a Rússia. Contudo, a informação falsa ou enganadora do relatório holandês apresentada pelos media ocidentais, tais como o NPR[1], é de tal forma ultrajante como serem os media a contar a história e não o relatório.
Por exemplo, acabo de ouvir o correspondente em Moscovo de NPR, Corey Flintoff, dizer que o míssil que abateu o avião da companhia da Malásia teria sido disparado pelos separatistas a quem falta a capacidade técnica para explorar o sistema. Consequentemente, o míssil teria sido disparado por um russo.
Não há nada, mesmo nada no relatório holandês que possa levar a essa conclusão. Flintoff é, ou incompetente ou mentiroso, ou exprime o seu ponto de vista e não a conclusão do relatório.
A única conclusão a que o relatório chega é aquela que já todos sabíamos: que um míssil Buk derrubou o avião e que era um míssil de fabrico russo. O relatório holandês não diz quem atirou.
De facto, o relatório não coloca nenhuma culpa sobre a Rússia, mas por outro lado lança a culpa à Ucrânia por não ter fechado o espaço aéreo sobre a área de guerra. Os advogados afirmaram, em resposta ao relatório, que as famílias daqueles que morreram e a companhia aérea malaia em si são susceptíveis de intentarem processos contra a Ucrânia por negligência.
Claro, não havia nada disso no relato feito por Flintoff.
Como eu escrevi na altura em que foi destruído o avião de passageiros, os media ocidentais já tinham a sua posição, a sua história, “foram os russos que fizeram isto” quando se soube que o avião tinha sido abatido. Esta história foi muito útil para Washington forçar a que os seus estados europeus vassalos endurecessem as suas sanções contra a Rússia, até porque havia alguma discordância quanto a isto. O que Washington nunca explicou e os meios de comunicação ocidentais nunca lhe perguntaram é o seguinte: que motivo tinham os separatistas e a Rússia para abater um avião de passageiros da Malásia?
Absolutamente nenhuma. O governo russo nunca permitiria tal coisa. Putin teria imediatamente enforcado os responsáveis.
A história de Washington não faz qualquer sentido. Só um idiota podia acreditar nela.
Que motivo é que tem Washington? Muitos. A diabolização da Rússia tornou impossível para os governos europeus resistirem ou abandonarem as sanções económicas que Washington está a utilizar para quebrar as relações económicas e políticas entre a Europa e a Rússia.
O fabricante russo de mísseis Buk provou que, se foi utilizado um míssil Buk, era uma versão antiga que existe apenas nas forças armadas da Ucrânia. Durante alguns anos, os militares russos foram equipados com uma versão de substituição que tem uma assinatura diferente no seu impacto destrutivo. O dano ao avião de passageiros da Malásia é inconsistente com a força destrutiva do míssil Buk no serviço russo. A elaboração do relatório foi dada aos holandeses, mas nenhum esforço foi feito para replicar e verificar a validade dos ensaios efectuados pelo fabricante do míssil. Na verdade, o relatório holandês nem sequer considerou a hipótese de o avião ter sido derrubado por caças ucranianos. O relatório é tão inútil quanto o relatório da Comissão 9/11.
Não espere qualquer reconhecimento disto pelos media ocidentais, uma colecção de pessoas que mentem para ganhar a vida.
A razão pela qual o Ocidente não tem futuro é a de que o Ocidente não tem nenhuns media, apenas propagandistas ao serviço de agendas governamentais ou das grandes multinacionais e apologistas dos seus crimes. Todos os dias se compra e se paga para os media sustentarem a matriz que faz os povos ocidentais serem politicamente impotentes.
Os media ocidentais não tem nenhuma independência. Um editor de um importante jornal alemão escreveu [recentemente] um livro, um best-seller publicado na Alemanha, no qual ele mesmo afirma que não só ele próprio trabalhou para a CIA como foi um editor confiável das mentiras de Washington, mas que todo jornalista significativo na Europa faz isso também.
Obviamente, o seu livro não foi traduzido e publicado nos Estados Unidos.
NPR, como todos os meios de comunicação ocidentais, perdeu a sua integridade. NPR afirma ser suportado pelos leitores. Na verdade, ele é suportado pelas grandes empresas. Preste atenção para os anúncios: “NPR é apoiado pela multinacional xyz em que trabalha para lhe vender este ou aquele produto ou serviço.”
O regime de George W. Bush destruiu NPR através da nomeação de dois ideólogos republicanos femininos para supervisionar a função pública do NPR. As duas ideólogas republicanas tiveram sucesso em conseguiram sim segurar o seu emprego, não em fazer relatórios sobre a integridade da informação, sobre a motivação dos jornalistas NPR.
Como uma pessoa que trabalhou com o presidente Reagan [é o caso de Paul Craigs Robert] para acabar com a Guerra Fria e a ameaça nuclear associada, estou consternado em ver que os media ocidentais falham a vida na terra ressuscitando a perspectiva do Armagedão nuclear.
The MH-17 ‘Report’ — Paul Craig Roberts. Texto disponível em:
http://www.paulcraigroberts.org/2015/10/13/the-mh-17-report-paul-craig-roberts/
[1]Nota de Tradução. NPR-National Public Radio.

