Falo muito em escritores e gosto também de falar de poetas e de poesia, cujo mistério me encanta e fascina desde quando, menina ainda, adolescia sob a parreira e lia, lia muito: Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Mário Quintana… Drummond e Cabral vieram mais tarde.
Da França, maravilhei-me com o gênio de Rimbaud e com as sonoridades de Verlaine (“de la musique avant toute chose”); depois, com Valéry e, há poucos anos, com o deslumbrante Yves Bonnefoy; mas foi o Anjo alemão nascido em Praga, o imenso Rainer Maria Rilke quem, para mim, encarnou sempre a própria essência da poesia desde que aos 16 anos o descobri. Contudo, no coração de quem percorre esse reino encantado, há um grande espaço para os jardins da poesia inglesa, nos quais cintila a luz de William Butler Yeats (1865-1939), da verde Irlanda, onde quero estender o meu passeio de hoje.
Estive em Dublin duas vezes. Na primeira, para um Congresso de Mulheres e a organização do evento hospedou-me, com uma amiga, em casa de família de um encantador casal de jornalistas – Jean Tansey e Bob Collins – com seus dois filhos adolescentes, Oisin e Aengus, nomes sonoros da mitologia irlandesa que reaparecem com frequência na poesia de Yeats. No ano seguinte, (em 1988), voltei a Dublin porque estando perto, para um curso de Women Studies na Universidade de Londres, quis revisitar os amigos que, por seu lado, fizeram questão de me hospedar mais uma vez. Houve troca de presentes: dei-lhes um álbum com reproduções de obras de artistas plásticos do Brasil e recebi (dedicado with love, from Jean & Bob), a obra poética completa do divino Yeats, que desde então me acompanha. Dessas duas visitas resultaram dois Poemas Irlandeses que, para minha própria surpresa, me aconteceram em inglês. E a nossa Viagem dos Argonautas publicou, no ano passado meu mais recente Imitation of Yeats, além de uma tradução, assaz canhestra, que fiz de um de seus poemas mais populares, aquele em que o poeta pede à amada que ”pise com cuidado porque ela pisa nos seus sonhos”.
1865-1939
E eis outro poema também famoso, no qual Yeats atinge a grandeza de um soneto shakespeareano, que começa com When you areold and grey (“Quando fores velha, e grisalha…”) e que nos comove com estes versos: (…) How many loved your moments of glad grace, /And loved your beauty with love false or true,/ But one man loved the pilgrim soul in you. And loved the sorrows of your changing face; (…) (Muitos amaram-te horas de alegria e graça,/ Com amor sincero ou falso, amaram-te a beleza,/ Só um amando-te a alma peregrina em ti, / De teu rosto a mudar amou cada tristeza.) – A bela tradução é de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Nos últimos versos, esta maravilha: (…) how Love fled / And paced upon the mountains overhead/ And hid his face amid a crowd of stars. (… como o Amor fugiu / E caminhou montanha acima, a subir sempre/ E o rosto em multidão de estrelas encobriu. Como ressoa esse hid his face amid a crowd of stars. ! … multidão de estrelas!
Um dos mistérios da ressonância da palavra poética tem a ver com a sua atemporalidade. Os poetas podem ter pertencido a determinado tempo, sua poesia não. Lemos hoje Sappho como se ela tivesse acabado de escrever diante de nós. Como diz Gaston Bachelard, um de meus filósofos mais queridos, “A poesia é uma metafísica instantânea.” E é, para sempre, uma epifania, uma revelação. Os poetas unem palavras aparentemente distantes, mas o ritmo e os sons as unificam e sintetizam. É um encontro que floresce.
Outros versos de Yeats que me comovem são os dois últimos do flanar ou da Canção da Flanância de Aengus (The song of wandering Aengus). No bosque de avelaneiras, o narrador arranca o galho de uma árvore, e com a vara pesca uma truta no riacho. Acende um fogo e nas labaredas vê, esvoaçante, a figura de uma moça com flores de macieira no cabelo que logo foge, se esvai. Então ele diz que mesmo velho vai encontrá-la, onde quer que ela tenha ido, vai beijar seus lábios e tomar as mãos dela nas suas. Depois, caminhando pelos prados coloridos, vai colher pelos tempos afora The silver apples of the moon/ The golden apples of the sun. (As maçãs prateadas da lua/ e As maçãs dourados do sol.!) De repente, o universo nos chega inteiro pelas maçãs do sol e da lua. De algum modo ecoa um paraíso… “Ser poeta significa ser na alegria”, disse Heidegger. E Bachelard diz que “num curto poema, {a poesia} deve dar uma visão do universo e o segredo de uma alma, um ser e objetos, tudo ao mesmo tempo.” E diz que a poesia “não pode ser mais do que a vida senão quando imobiliza a vida, vivendo num instante a dialética das alegrias e das dores.” Por isso é síntese que inclui o silêncio e o invisível, ou o “indizível” a que tanto se referia Rilke. O tempo da poesia é extático, uma suspensão. Diz Bachelard: “em cada poema verdadeiro podemos encontrar os elementos de um tempo parado, (…) um tempo que chamaríamos de vertical …”
Outro filósofo que muito se aproxima da poesia é Lévinas, para quem, o real inclui necessariamente o invisível, o mistério, o “indizível”. Lévinas considera que “as fontes do ser são o que está oculto e não o que está a descoberto.” Daí sua filosofia apresentar-se como um constante questionamento, uma aproximação amorosa da vida, do Outro e de todas as coisas, uma “filosofia da carícia”. Judeu místico, seu pensamento, como o Talmud, tem mais perguntas do que respostas. E o poeta Rilke não nos ensinou a “amar as perguntas”?
1875-1926
A poesia contemporânea, porém, tem muito pouco do lirismo e da metafísica que hoje tanto nos fazem falta. Quando Yeats morreu, num dia frio de janeiro de 1939, outro grande poeta de língua inglesa, W.H.Auden, (1907- 1973), escreveu versos dilacerantes: (…) III – Earth, receive an honoured guest:/ William Yeats is laid to rest./ Let the Irish vessel lie/ Emptied of its poetry, (Terra, acolhe um hóspede famoso:/ William Yeats, e dá-lhe repouso./Fique a taça da Irlanda vazia/ Do que continha de poesia.
In the nightmare of the dark/ All the dogs of Europe bark,/ And the living nations wait,/ Each sequestered in its hate. (…) (Num pesadelo cor de breu,/ Latem todos os cães europeus,/ E as nações vivas estão à espera,/ Cada qual no ódio que as encarcera. – Na excelente tradução de José Paulo Paes.
E a magnífica Marina Tsvetaeva (1892-1941), poeta russa, que o totalitarismo stalinista levou ao suicídio, havia escrito: “Rilke não tem nada a ver com a nossa época, ele é o seu contrapeso. Guerras, massacres, carne dilacerada de discórdias – e Rilke. Em seu nome, a terra será redimida dos pecados do nosso tempo. Porque ele lhe é contrário, quer dizer, indispensável, porque ele é o seu antídoto, Rilke só poderia ter nascido em nossa época. É nisso que ele é atual. A época não o encomendou, rezou para que ele viesse.”