O discurso de Cavaco Silva, ontem à noite, foi coerente com o que tem sido a sua actuação ao longo da sua vida política. Mesmo até com o que tem sido ao longo da sua vida. Autoritário, com tiques ditatoriais, tem sido um dos principais obstáculos a que no nosso país progridam os valores democráticos. Dirão: mas ele tem vencido eleições. É um facto, mas uma reflexão sobre o assunto, mesmo não muito profunda, dá-nos uma resposta clara. Os portugueses têm vivido secularmente sob o jugo de governantes abusivos, muitas vezes incompetentes. Têm sido induzidos a aceitar manifestações de autoritarismo como um sinal de competência. Por outro lado, foram sujeitos a ideologias passadistas e alienantes, que têm rejeitado com demonstrações de coragem e iniciativa inequívocas, mas nunca lhes foi possibilitado acreditar em cenários de vida política mais justos e generosos e, ao mesmo tempo viáveis. O papel dos partidos e das outras organizações políticas, após o 25 de Abril de 1974, deveria ter sido sobretudo possibilitar a demonstração da viabilidade desses cenários, mas têm fracassado. As razões são muito diversas, evidentemente. A desastrosa adesão àquilo que se tornou na União Europeia esmagou a vida nacional e reduziu as opções de futuro, em vez de as alargar. Por isso, vamos estando cada vez mais sujeitos a quem a soube usar em proveito próprio. Por isso, temos vivido sob Cavaco Silva e outras personalidades da mesma extracção.
Não é por legalismo ou espírito de disciplina que Cavaco Silva e os seus pares invocam os mercados e os tratados europeus. Sabem que estes têm jogado a seu favor. A direita nacional está cada vez mais alheada dos interesses dos portugueses. Sabe disso perfeitamente. E que os votos que vai obtendo têm um valor muito relativo. A sufocação das alternativas à linha que tem imposto é vital para a sua sobrevivência. Passa em primeiro lugar por fazer crer que essas alternativas não existem ou são inviáveis. E que só ela pode governar. Nisso se resume o discurso de Cavaco Silva.