Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Revisão de Maria Cardigos
(conclusão)
A Grécia desde a criação do seu novo governo, refaz um pouco da sua (geo) política e da sua anti-austeridade na ágora do triste mundo, onde as marionetes europeístas sempre se mostraram a fingir … Por conseguinte tudo está por reconstruir ou por desfazer … (e) então é também a guerra feita por outros meios. Às vezes contudo, os compromissos não são para excluir de uma parte e da outra.
Quinta-feira 5 de Fevereiro sempre, Yannis Dragasákis, o Vice-Presidente do governo grego, encontrou-se em Atenas com o vice-ministro americano da Economia, bem como com outros responsáveis vindos dos Estados Unidos, e sexta-feira 6 de Fevereiro é Yanis Varoufákis que se encontrará com os membros desta mesma delegação. Tudo vai pois tão depressa.
Deputados e jornalistas . Parlamento de Atenas, 5 Fevereiro
Desde a outra vertente… da geopolítica do mundo muito actual, Vladimir Putin acaba de convidar Alexis Tsípras a visitar Moscovo para o desfile do 9 de Maio, acontecimento que celebra, como se sabe, a vitória contra o nazismo. Convite imediatamente aceite, de acordo com a imprensa grega. Em antecipação, os ministros da Defesa e dos Negócios Estrangeiros da Grécia seguirão muito em breve para Moscovo. A situação torna-se por último bem grave, e no entanto aberta aos ventos. A Alemanha está consequentemente encostada à parede e, isso, nós sabemo-lo. “Não temos mais nada a perder, contamos já as nossas mortes por milhares, a mascarada deve cessar e com ela o Euro também, diz-me Vassílis, um jornalista… centrista, que encontrei na quinta-feira de manhã no centro da cidade. O ambiente que reina nestes momentos é etéreo, ou antes suspenso. Tiro fotografias às nossas antigas notas de mil dracmas… e do trovão de Zeus nos antiquários de Atenas, quando espontaneamente todos os transeuntes que se exprimem, o fazem defendendo um regresso à nossa moeda, se mais nada é possível e se um compromisso aceitável não for encontrado. A amostra não é certamente representativa, todavia …a qualidade da mutação aí está.
Mil dracmas, Atenas, 5 Fevereiro de 2015
Grécia, país da Democracia. Não ao fascismo. Atenas, Praça da Constituição no dia 5 de Fevereiro de 2015
Para Vassílis, a causa profunda do voto SYRIZA tem a ver com este atentado à dignidade, humana primeiro, nacional, em seguida. Vassilis considera que os efeitos catalisadores para a sociedade são extraordinariamente rápidos e que SYRIZA e ANEL, beneficiam doravante do apoio de uma larga parte da população. A nossa curta historicidade é inevitavelmente inédita. Para além dos interesses fortemente estrangeiros e dos encontros nas cimeiras, os barões internos do nepotismo e da corrupção Samaro-Pasokiana não se deixam facilmente apanhar na sua própria armadilha. É além disso, a primeira vez que um grande partido chega (mesmo com um aliado) ao poder governamental, sem o apoio da imprensa, da televisão, dos meios de comunicação social, ou mais geralmente, sem o apoio da rádio-televisão pública incluída. Estes meios de comunicação social já, retomam por sua própria conta a tocha da mecânica social do medo, e isso, porque certas magnatas e outras oligarcas de Atenas e arredores, sabem que a sua impunidade terminaria e/ou, eles devem então fazer contas. Este, parece ser de resto o único ponto concordante, entre as nossas posições… Tsipriotas e dos mecanos mundiais, europeístas ou cosmocratas. Pôr um fim na evasão fiscal, sobretudo e primeiro lugar nas grandes fortunas para começar.
Atenas no dia 5 de Fevereiro de 2015
Contudo, a esperança louca de Samaras e dos seus colaboradores mais próximos quanto ao seu regresso, depois de “um parêntesis SYRIZA-ANEL” faz parte da paisagem política. Tal é certamente o plano de Berlim e de Bruxelas: desfazer o mais rapidamente possível o governo grego SYRIZA-ANEL, quer pela humilhação, quer pela queda, o que vem a dar no mesmo. Angela Merkel perdeu certamente a batalha dos símbolos e das representações em menos de uma semana e ela utiliza então o euro e “as suas” regras, à maneira de uma arma de destruição massiva. Esta é, na minha opinião, a sua mais importante função… monetária desde o princípio, salvo que os diferentes artefactos, tal como a demissão (na sua maioria) dos intelectuais, dos “pensadores” e dos jornalistas propagandistas das riquezas dos seus proprietários impede que se veja este bombardeamento. E a contracorrente, até ontem de manhã, a muito rara imprensa alternativa… ou seja governamental desde o 25 de Janeiro, representa à sua maneira os chefes dos partidos da Troika, Samaras da Novo Democracia, Venizélos do PASOK e S. Theodorákis do partido dito “do Rio”. Este último de resto forçou um dos responsáveis do seu partido à demissão. E este grande nostálgico… da Troika tinha desejado publicamente ao chefe do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem… de se segurar bem contra Yanis Varoufákis. Vichyssitudes… à… grega.
Maneira de ver. Eu sou a Troika, Atenas, Fevereiro de 2015
Há no entanto uma certa cegueira grega também em não querer subestimar . De maneira inteligente (e de acordo com o que sei por amigos que pertencem… aos índios SYRIZA), e com sinceridade, o essencial quanto ao posicionamento do partido de Alexis Tsípras tem a ver com este “outro europeísmo… de esquerda”, possível, e subsequentemente construível. Fazendo assim, e tomando à letra as declarações e as instituições da UE, esta Grécia… Tsipriota, ouve falar muito em diálogo no âmbito de uma suposta (e) certa, igualdade formal, entre “parceiros na UE”, o que, de facto, parece impossível. Como diria Tucidides, ou o nosso lamentado Cornelius Castoriadis… é sobretudo uma questão da Força e (às vezes) do Direito. Ou se não, a menos que se faça então mais táctica e a mais profunda possível. . Daí a activação das alavancas geopolíticas possíveis ou impossíveis, da China e até dos Estados Unidos, passando pela Rússia. Belo jogo de póquer, de consequências imprevisíveis. É por esta mesma ocasião que Alexis Tsípras e os seus ministros, “descobriram” assim o quase vazio das posições francesas do momento, estas últimas provaram-se bastante inexistentes no que diz respeito à Grécia, ou seja, no que diz respeito à Alemanha. Só momentaneamente? É uma vista dos líderes franceses a curto prazo, o consenso acabará por explodir na UE, e “a crise grega” é apenas mais um catalisador. Porque para além “do efeito Charlie” tão bem organizado pelos meios de comunicação social e pela sua mecânica social eurocrata à maneira de uma experiência “meta-démica ” grandeza natural (de resto contrário ao espírito autêntico dos jornalistas e dos desenhadores assassinados), a Europa não existe (e também não pudesse ser de outro modo ). Assim, os povos terminarão por decidir a questão , ou se não, os seus dias (do ponto de vista da soberania e da democracia) os seus dias estarão contados.
Atenas, 5 de Fevereiro.
A meta-democracia está certamente na linha certa, o século XX já queimou todos os velhos móveis e contudo, o século XXI acabaria por queimar o resto… dos homens. A nossa tão bela gravidade não é inteiramente compreendida pelas pessoas, incluindo a dos povos. Todos os que me são próximos me dizem que o seu voto contra a austeridade e pela dignidade é irreversível, e que restaurar ligeiramente os salários, introduzir um mínimo de justiça social e fiscal, evitar as nossas próximas mortes nos hospitais e fora deles, deve ser a nossa única voz no momento e a partir de agora. É então exactamente este irreversível, que agora o BCE de Frankfurt nos exige pelo seu ultimato desta semana, em uníssono com as políticas que se estabelecem em Berlim. Todos compreenderão enquanto que a União europeu… é a guerra mais do que a paz . Contudo, ignoramos a amplitude das cristalizações e assim ignoramos igualmente as resistências que se estão a gerar. A rua ateniense aprende a agir, a mover-se, mas também se necessário, a viver diferentemente. E isto na urgência. Como o repetia frequentemente Cornelius Castoriadis, é necessário, seja descansarmos no nosso sofá – seja ser-se livre. E isto continua a ser o enigma por resolver e muito rapidamente. A não ser que se encontre um compromisso, entre as posições da metrópole de Berlim e os… índios Tsipriotas. O historiador do futuro observará sem dúvida e não sem um certo sorriso, que em 2015, o caso grego tinha questionado toda a gente, todos os países do mundo e pela mesma ocasião de uma forma dramaticamente inovadora… os estudos postcoloniais, ao mesmo tempo que a provincialização definitiva da Europa. Novo mundo?
Atenas, 5 Fevereiro
Caderno de notas de um etnólogo – Uma análise social diária da crise grega – Noites de Atenas I








