Ao longo dos tempos, várias crianças foram encontradas, depois de terem vivido isoladas nas florestas, abandonadas pela família, perdidas durante conflitos armados, ou porque fugiram de casa, ou, ainda, porque foram raptadas.
As crianças sempre foram um dos elos mais fracos da sociedade, são descartáveis.
Quando nasciam deficientes, eram deitadas fora, se fossem meninas eram abandonadas ou mortas, por razões de contratos sociais, por questões culturais e económicas
Diz a lenda que os gémeos Rómulo e Remo, filhos de uma mulher e do Deus Marte foram abandonados num cesto junto ao rio Tibre.
Foram recolhidos por uma loba que os protegeu e alimentou, e quando ficaram autónomos fundaram a cidade Roma. A lenda teve um final feliz.
Mas a realidade é bem diferente.
As crianças encontradas nas florestas, nas estradas, nos campos, em cavernas andavam nuas, não falavam, emitiam sons, andavam todas curvadas para a frente, com os pés e as mãos no chão. Gostavam de carne crua, frutos silvestres…
O registo da primeira criança selvagem, segundo Jean-Jaques Rousseau, data de 1344, na Alemanha. Era um menino lobo.
J.J. Rousseau relata em “Discurso sobre a Origem” e os “Fundamentos da Desigualdade entre os Homens” a vida de um menino russo Andrei Tolstyk que aos três meses foi adoptado por cães. Este menino andava com os pés e as mãos no chão, cheirava tudo o que via e ladrava.
Será que o Homem nasce com Natureza Humana?
Os Homens nascem com capacidade para se tornarem humanos.
As crianças aprendem a falar porque outros humanos falam com ela, as crianças ladram quando são criadas por cães.
Nas histórias de vida destas crianças, há comportamentos que são comuns: a capacidade de sobreviver nas condições mais adversas enfrentando o frio, o calor , a fome e muitas vezes, o ataque de outros animais; a capacidade de aprender a viver como os demais.
Têm de aprender uma outra língua, outros gestos, outras comidas, outras crenças, saber o significado do que nunca tinham ouvido, sentido ou visto.
Quando crescem sem contacto com outras pessoas e quando crescem como filhos adopados por animais, ficam com marcas profundas, algumas irreversíveis.
E se em vez de meninos selvagens falássemos de meninos de outras culturas, de culturas que não conhecem e que lhes são estranhas, que não as reconhecem como iguais, como as reconheceram os animais?
E se falássemos de meninos pobres, e se falássemos de meninos, sós, perdidos de guerra?
Que oportunidade lhes dão para desenvolverem a capacidade, com que nascem, para se tornarem humanos.
Quando é que as comunidades, todas, começam a reconhecer-se nas outras, sabendo que são diferentes, mas que todas apresentam as mesmas capacidades como os meninos selvagens: a sobrevivência e a aprendizagem