Carta do Rio – 74 por Rachel Gutiérrez

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Eis que hoje eu tenho uma história para encantar a menininha Esperança, aquela “que nos diz bom-dia todas as manhãs” e que costuma sair do poema de Charles Péguy para me consolar.  Inverteram-se os papéis e acredito que agora sou eu quem vai reanimá-la. Trata-se da história do empresário Henrique Prata, o “caubói magnata”, uma das grandes fortunas do país, cujas fazendas se estendem por 15 mil hectares nos estados do Mato Grosso, em Goiás e em São Paulo e abrigam 20 mil cabeças de gado. O fazendeiro também organiza e participa da Festa do Peão de Boiadeiros que acontece anualmente em Barretos, pequena cidade situada a 428 quilômetros da capital paulista. A arena foi projetada por Oscar Niemeyer e o evento costuma incluir shows de artistas populares. Tudo o que acontece ali, porém, está a serviço de uma causa nobre: a do Hospital de Barretos, conhecido como “polo de referência nacional na luta contra o câncer”.

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Henrique Prata é o terceiro filho de um casal de médicos de sólida formação católica: o pai, Paulo Prata, dedicado especialmente à pesquisa e ao tratamento do câncer, e a mãe, Scylla Duarte Prata, ginecologista e obstetra, que após a formatura em São Paulo decidiram se mudar e fundaram, em 1962, um pequeno hospital na cidade interiorana de Barretos para atender gratuitamente os pobres.

Em livro publicado em 2012, resultante de gravações realizadas durante uma peregrinação que fez a Santiago de Compostela, Henrique narra sua trajetória e seu envolvimento com a obra iniciada por seus pais. Tanto o livro quanto a vida do fazendeiro foram louvados e comentados recentemente, em entrevista do programa Roda Viva, da TV Cultura. Não resisti e fui comprá-lo. A capa, que reproduz uma foto de Henrique, com chapéu de vaqueiro, abraçado ao pai, tem como título e subtítulo: Acima de tudo o AMOR / Como a fé e a solidariedade construíram o maior polo de referência nacional na luta contra o câncer.

 A história tem algo de fábula, é absolutamente fascinante: o rapaz que não quis estudar e muito cedo preferiu trabalhar com o avô para ganhar dinheiro, para ser fazendeiro e administrador, revelou grande talento para os negócios e tornou-se, a partir dos vinte anos, um empresário muito bem-sucedido.

Mas um dia a sua vida iria mudar para sempre. Ele diz: “enquanto eu ganhava o meu dinheiro, papai” (recuperado de um infarto) “continuava a perder o dele, não só por não ser um bom gestor – afinal ele era um cientista -, mas principalmente por falta de ajuda governamental.” E a situação dos balanços financeiros do hospital era desastrosa. Foi então que Dom Antonio Mucciolo,  bispo e “diretor espiritual” de Henrique, disse-lhe que estava na hora dele acudir seu pai. A partir desse momento, fatos extraordinários começaram a acontecer. Com a habilidade adquirida, o fazendeiro pôs as contas de seu pai em ordem trabalhando apenas durante alguns meses, na intenção de convencê-lo a vender tudo, pois, a única coisa que encontrara em dia era o salário dos funcionários. “Meu pai pegava dinheiro com agiota para honrar isso.”

Para surpresa do filho, o médico triste, mas cansado, admitiu renunciar ao sonho de sua vida, apesar de todos os planos e projetos de reformas e de ampliação do hospital que guardara ao longo de anos, no fundo de uma gaveta.

Mas a consciência de Henrique não ficou tranquila, principalmente depois de ter conversado com um dos mais chegados colegas cirurgiões de seu pai, o Dr. Elias Abraão Miziara que, sem saber das decisões que estavam sendo tomadas, quis mostrar-lhe algo na sala de curativos. Vale a pena citar este trecho do relato:

“Ele, então, abriu o livro preto com a agenda das cirurgias, e de dentro tirou o catálogo de um foco cirúrgico de luz que, (…) tinha um carimbo de 5,5mil dólares – (…) e disse ‘Sua habilidade foi tão grande, organizando as finanças rapidamente que penso ser fácil para você comprar esse foco e substituir essa luz,’… ‘Você será capaz de salvar mais vidas do que eu ou seu pai como médicos.’” Em resumo, o que o médico mostrou, numa longa conversa,  foi a falta que a aparelhagem adequada fazia para que o trabalho se tornasse mais rápido e eficaz no atendimento das diversas formas de câncer ali tratados.

A sensibilidade do até então apenas fazendeiro  foi fortemente abalada. Já não tinha mais certeza se devia fechar o hospital. E naquela noite sonhou “com um hospital gigante, não vertical de vários andares como se imagina. Era um hospital comprido, horizontal, com longos corredores e muitas pessoas sendo ali atendidas. (…) Sonhei muito nitidamente com esse hospital que se espalhava pelo terreno…”

No dia seguinte, correu para pedir ao pai que lhe mostrasse o projeto tanto tempo guardado. Quando viu os desenhos, Henrique tremeu, ficou muito emocionado e acredita que aquilo tenha sido “obra do Espírito Santo”!, pois: “ era exatamente como eu o vira no sonho!” E naquele momento teve a certeza de que “construir aquele Hospital seria o meu destino, a  minha missão.” A missão de curar milhares de pessoas com câncer, gratuitamente, e com as técnicas e recursos mais avançados, gerindo e captando doações principalmente de fazendeiros, de artistas famosos, de gente humilde  e às vezes até mesmo do governo.

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Incansável, Henrique Prata que, sem ser médico,  dirige o Hospital do Câncer com admirável determinação, já percorreu 21 países para trazer as melhores técnicas da medicina, o que tornou a cidade de Barretos famosa e  respeitada no país e no mundo.

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1 Comment

  1. Assisti a entrevista de Henrique Prata, citado no texto de Rachel Gutiérrez e fiquei comovida com a história deste homem, aquí resumida com sensibilidade e clareza pela escritora. A obra realizada em Berreto reanima a esperança nos corações dos brasileiros no momento em que atravessamos tantas decepções e angústia com o desgoverno do Brasil. Obrigada, Edda

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