12. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Tratados das periferias

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Uma análise social diária da crise grega

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Sábado, 21 de Fevereiro 2015

 

12. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia-Tratados das periferias

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Um acordo foi concluído no Eurogrupo, na  sexta-feira à noite. Por conseguinte satisfação. Durante os primeiros minutos da sua conferência (em grego), Yanis Varoufákis perdia-se ligeiramente nas suas palavras, “é cansaço”, explicou-se ele a partir de Bruxelas. “A Grécia vira a página”, afirma depois,  num comunicado oficial o governo grego. A página é certamente virada, o capítulo é hesitante e o livro não muda. Pelo menos de momento, é o que parece.

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Cartaz para uma cura natural de emagrecimento. Atenas, Fevereiro 2015

 

“Este acordo refere-se apenas a um período de quatro meses, enquanto que a nossa legislatura se estende por quatro anos, não o esqueçamos” quis contudo precisar Yanis. O memorando morreu, viva “a reestruturação inteligente”, termo novo, aparecido esta noite. Compreender-se-á que as negociações retomarão realmente dentro de quatro meses; ou antes, as decisões tornar-se-ão então urgentes. E é então assim que desde o Eurogrupo, as novas medidas gregas e bem modernas serão esperadas para validação. “Não retomaremos mais medidas impostas, relativas às reformas, ao IVA, à Saúde, por exemplo, muito simplesmente, as nossas medidas não afetarão o equilíbrio orçamental durante este período. A Grécia sai assim do isolamento causado por cinco anos de memorando”, declarou ainda seguidamente o nosso Yanis um pouco menos hesitante. Por último tem-se considerado que “ nós podemos conciliar o respeito das regras do Eurogrupo com o respeito pela Democracia, e isso significa que um grande passo foi realizado na Europa. A Grécia deixa o memorando por detrás dela e torna-se coautora das reformas e do seu destino” para assim terminar num muito elevado tecnicismo: “Pensamos reduzir a dívida por swaps”, contratos de troca de fluxos financeiros entre duas partes, que são geralmente bancos ou instituições financeiras como se sabe.

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Atenas, Fevereiro 2015

 

Retenho que os outros, Christine Lagarde, Jeroen Dijsselbloem e Pierre Moscovici, estão sobretudo sorridentes e mais descontraídos que os nossos. “Esta noite era um momento importante no processo de negociação com Atenas. Foi um momento importante para se voltar a ganhar a confiança. A saída é realmente positiva”, felicitou-se Jeroen Dijsselbloem, Grande Escudeiro do Eurogrupo. “Este acordo põe fim ao período de incerteza para a Grécia. Um acordo era possível se todos tivessem uma abordagem razoável. Era necessário fazer prova de lógica, não de ideologia. O acordo alcançado é equilibrado”, disse Pierre Moscovici, Comissário (político) europeu para a economia. Por conseguinte fez-se certamente prova de ideologia liberal mortífera e de lógica europeísta! Quatro meses são um tempo bem curto e, contudo, tão longo. Realmente, a Grécia Tsipriota comprou caro um pouco de tempo. O problema será pôr este tempo em perda e sobretudo para proveito realmente de mudança de direção. Fá-lo-á? Seguidamente, tudo será posto em prática pelas aves de rapina de Atenas e pelos procônsules do europeísmo metropolitano para enfraquecer o governo SYRIZA/ANEL e assim, até à sua queda se necessário e se possível. Esperemos, por conseguinte, por Junho talvez, dado que “ alcançámos, enfim, um acordo que não nos obriga a praticar mais austeridade”, diz-nos o comunicado oficial do governo grego. Salvo que duas mulheres morreram, uma em Atenas e a segunda no norte da Grécia, , sexta-feira 20 de Fevereiro, na sequência do funcionamento errático dos seus meios de aquecimento e das emanações, como se diz desde que o memorando do Eurogrupo de 2010 e de 2012 fez desaparecer o aquecimento central para muitos dos lares na Grécia (jornal radiofónico de 105,5, no dia 21 de Fevereiro). Estas mulheres não conhecerão outro Eurogrupo e não esperarão por Junho próximo.

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Atenas, Fevereiro de 2015

 

O meu amigo “Th.”, desempregado e despeitado, vê as coisas de um modo ligeiramente diferente: “Desde esta noite, temos um novo governo. Uma coligação SYRIZA/ANEL/Dijsselbloem! Esperemos que em Junho Dijsselbloem já não faça parte do governo”. E para Pablo Iglesias de Podemos, “na falta de um acordo com a Grécia, talvez dentro de alguns meses, estarão a negociar com Marine Le Pen”, entrevista concedida à cadeia de televisão CNBC dos Estados Unidos. Primeira grande fissura, em todo caso, aparece, doravante, no muro europeísta. Noutros tempos também hesitantes, os acordos de Locarno, em 1925, tinham suscitado uma imensa esperança. De acordo com um artigo da época publicado no “Times”: “Austen Chamberlain, o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, tremia e chorava de alegria, assim como o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Aristide Briand. Benito Mussolini beijou a mão da Sra. Chamberlain. A fanfarra tocava. Toda a multidão junta na praça dançava”. Para Aristide Briand, estes acordos deviam trazer à Europa de pós-guerra uma nova era: “Se os acordos de Locarno não corresponderem a um espírito novo, se não marcarem o início de uma era de confiança e de colaboração, não produzirão este grande efeito que esperamos. É necessário que de Locarno, uma Europa nova se levante. O acordo de Locarno que consagramos pelas nossas assinaturas tem isto de animador: procede de um outro espírito; o espírito de precaução, de suspeita, é agora substituído pelo espírito de solidariedade.”. A sequência é conhecida mas a história não se repete [dizem]. Logo (…) satisfação. Greek Crisis atribui-se (enfim) três dias de descanso. A segunda-feira (23 de Fevereiro este ano), marca o início da grande quaresma ortodoxa. Quarenta dias como quatro meses!

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Atenas, 2015

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