Quem se interessa minimamente por política, mesmo a um mínimo muito limitado, tem presente que uma das ideias mais repisadas da política à portuguesa, praticamente desde o 25 de Abril de 1974 é a ideia de que a esquerda portuguesa é incapaz de se reunir e conciliar esforços. Seria como se sofresse de um atavismo congénito que afectaria as forças políticas habitualmente consideradas como dela fazendo parte. Tentativas de explicar os caminhos diferentes seguidos pelas várias forças, análises históricas, referências às experiências vividas noutros países, não terão conseguido atenuar a crença generalizada naquela incapacidade, aceite praticamente como um dogma, mesmo por ideólogos e comentadores abalizados, ou tidos como tal. Tem sido como se a direita merecesse mais votos só por ser unida (ou pelo menos conseguir passar por tal) e a esquerda, por discutir entre si, ser “afectada” por ideologias, expressão que, na boca de quem as emprega, equivale muitas vezes a causas fracturantes (esta a expressão mais suave), perversões, seitas fanáticas ou até cultos satânicos. O mais curioso contudo é o ar de lamentação que põe a maior dos tais ideólogos (que o são, melhores ou piores) e comentadores quando se referem à tal incapacidade da esquerda. Nem perdem tempo a discutir eventuais medidas propostas por ambos os lados. Entretanto, é verdade que tivemos o problema de vários governos, classificados como de esquerda (pela direita, claro), terem, à maneira de Marcelo Caetano, feito sinal para a esquerda e virado o carro à direita.
Sucede entretanto que, há poucos dias (não há ainda um mês), quatro partidos, tidos como de esquerda (a direita diz que três deles são da esquerda radical) resolveram encetar conversações para formarem governo. Numa eleição para o parlamento somaram mais votos que a coligação de direita, formada só por dois partidos, um que no nome tem qualquer coisa como social-democrata, o outro parece que em tempos dizia ser democrata-cristão, não se sabe se a título irrevogável. Sem querer enveredar pelo caminho de dizer que talvez fosse bom haver uma experiência política nova (razões não faltam e já têm sido apontadas), limitando-nos a dizer que é estranho constatar que muitos que andaram tanto tempo a lamentar a incapacidade da esquerda em conciliar esforços, agora passem o tempo a dizer que essa conciliação é impossível e contra-natura, e perigosa para o país. Se calhar, o que se passa, é temerem que, se acontecer, seja perigosa para eles e para os seus privilégios.