14. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015 I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia : uma análise social diária da crise grega

 

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Domingo 8 Março 2015

 

15. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Europeísmo e nazismo… Das Jahr 2015

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Os nossos analistas e escritores de ontem, às vezes previam com bastante clareza as fendas do tempo humano que é o nosso. “Recordo-me da casa sob a Ocupação, sempre fechada. Durante a Guerra civil, a mesma coisa. Mais tarde, tive que me afastar por muito tempo. O regimento, os barcos, os amores intermináveis e pilhas de preocupações, que pessoalmente considerava como únicas e penosas entre todos nós. Até que um dia os lutos me levaram a estar em família. Tinha-me tornado o chefe de família. Eu, chefe de alguma coisa”.

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Yórgos Ioánnou (1927-1985)

 

“Quanto à casa sempre fechada, não somente esta já não existia mas mesmo que existisse nem se saberia onde se encontraria a rua de outrora. O plano de urbanismo, que desenham habitualmente as pessoas que nos ignoram e são e estão indiferentes aos nossos pontos de vista, tinham tudo apagado com um simples traço de lápis ou de caneta. ”, escrevia Yórgos Ioánnou nas colectâneas (“os Gritos”, “o Sarcófago”, tradução de Michel Volkovitch. Vinte e seis histórias autobiográficas, onde se revivem os anos sombrios da Ocupação alemã e “os anos da desmesura” que se lhes seguiram). Yórgos Ioánnou (1927-1985) cuja obra é reconhecida como uma dos mais originais da literatura contemporânea grega, nasceu em Salónica em 1927 numa família de refugiados de Trácia oriental. Ainda jovem, quando rebenta a Segunda Guerra mundial, não tirará mais nenhum proveito dos seus vinte anos na tormenta da Guerra civil que se segue (1944-1949). Uma juventude mortificada pela fome e pelas exacções, e que contém em gestação os elementos essenciais da sua obra através desta consciência de uma geração vencida, a sua, daí a obsessão de uma morte súbita e prematura. No conto “a única herança”, descreve a morte prematura dos membros da sua família. Um texto então premonitório dado que Yórgos Ioánnou morre a 16 de Fevereiro de 1985 com a idade de 57 anos, na sequência de um erro médico. Greek Crisis presta-lhe por conseguinte homenagem, trinta anos depois do seu desaparecimento..

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Atenas, Fevereiro 2015

Ioánnou, introduziu na Grécia um género novo, onde a realidade a mais quotidiana e mais íntima se encontra transposta em textos curtos, a meio caminho entre o conto e a confissão, escritos sempre na primeira pessoa. Porque Ioánnou mais que romancista era um observador lúcido do seu tempo e talvez bem, da pré-história e das raízes do nosso tempo apocalíptico. Não o conheci directamente (só o conheci através dos seus textos), salvo que o meu amigo Théodoros teve a rara ocasião de conviver com Ioánnou, alguns anos antes do desaparecimento do escritor. “Muito humilde face à vida e nas relações … contadas, como se diz às vezes, tudo nele era o contrário de um escritor pretensioso e de grandes hipocrisias”, lembra-se este meu amigo. Se evoco Yórgos Ioánnou e a sua obra neste momento tão crucial na geopolítica da Ordem… novinha em folha e tão dramaticamente europeísta é para conseguir apreender certas filiações de época com certas histórias e com certos negócios, na verdade ignoradas intencionalmente pelos jornalistas e pelos analistas do mainstream.

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“ To Fylládio” de Yórgos Ioánnou. .

 

A sua obra traduzida em francês, as biografias disponíveis, notam entre outras coisas, que Yórgos Ioánnou foi igualmente o fundador de uma revista literária (“To Phylládio”), ele traduziu Tácito e a Antologia Palatina, traduções estas que nesta revista foram publicadas por fragmentos. Porque Yórgos Ioánnou iniciou então em 1978, a redacção desta brochura literária, precisamente intitulada “A Brochura” (To Phylládio), a meio caminho entre a crónica e a auto-antologia selectiva e variada, alguns dos seus textos que de acordo com o parecer do autor não podiam ser publicados pelos jornais nem pelas revistas da época, encontraram então aqui o seu refúgio e todo o seu devido lugar nesta Brochura de periodicidade incerta e assumida como tal, pelo seu inventor.

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Yórgos Ioánnou, Praça Omónia, 1980.

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Mesmo local, Place Omónia, Atenas 2013

 

Assim, e à parte os seus próprios (e curtos) contos e poemas, estas brochuras (nunca traduzidas em francês que eu saiba ), (elas) constituem a única ocasião e a possibilidade para Ioánnou, de publicar os seus “Touffes” (“Thyssanoi”), textos muito curtos, abundantes e sucessivos, à maneira de uma verdadeira recolha de “micro-contos, crónicas, panfletos, obituários, controvérsias, reflexões políticas em suma, ou episódios, resumidamente relatados, da sua infância durante a Guerra e a guerra civil (1940-1940). Um primeiro… blog sem dúvida. Quereria então, pelas necessidades da minha análise, precisar um certo ângulo manifesto quanto à leitura dos textos e… para assim dizer ignorado dos leitores de Ioánnou para além da Grécia. A época onde esta brochura literária nasceu, era a do debate, muito violento na Grécia, opondo os artesões (e partidários) da integração do país no conjunto que constituía então a CEE (tornada efectiva em 1981), e os … eurocépticos do momento. Yórgos Ioánnou era pois ferozmente contra esta sombria perspectiva, e isso desde o início. É necessário precisar que reservas muito fortes que vão neste mesmo sentido eurocéptico tinham sido expressas, designadamente, pelo poeta Odysséas Elýtis, (Prémio Nobel de literatura em 1979), e pelos compositores, Mános Hadjidákis e Míkis Theodorákis.

(continua)

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