PRAÇA DA REVOLTA – UM SÃO MARTINHO DE HÁ 54 ANOS – por Carlos Loures

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Revoltas e rebeliões – de Fernão Lopes a Ortega y Gasset – por Carlos Loures

À memória de João Soares Louro

Já contei esta história noutro blogue, mas vou recordar de novo o  São Martinho de 1961. Foi num sábado e com colegas da RTP fui celebrar a data num restaurante perto de Lisboa – menu tradicional, castanhas e água pé. Ao meu lado sentou-se um rapaz um pouco mais velho. Trabalhava no Lumiar; eu na rua de São Domingos à Lapa; não nos conhecíamos e falámos muito durante o almoço. Chamava-se João Soares Louro. Gracejámos com a semelhança dos nomes – Louro, Loures. Um colega, discretamente, segredou-me: «é dos nossos». Anos depois, viria a ser administrador da empresa. Nesse São Martinho de 1961, no regresso, a Lisboa, fomo-nos despedindo e o Soares Louro recomendou, a mim e a outros três colegas de esquerda, que passássemos pela sede da candidatura da oposição democrática – perto do Martim Moniz, na rua do Socorro. As eleições legislativas, eram no dia seguinte. A Oposição retirara-se pois cozinhava-se a fraude do costume, mas havia trabalho político a fazer. Numa sala pequena cheia de gente, uma senhora franzina, muito enérgica, atendeu-nos. Encarregou-nos de dinamizar na empresa uma subscrição nacional a favor da compra de uma nova rotativa para o jornal “República”. Chamava-se Maria Eugénia Varela Gomes e era a esposa do então capitão, homem que pusera em risco a sua carreira, ao aceitar ser candidato pela Oposição. Após o assalto ao quartel de Beja em que o marido foi gravemente ferido, seria presa pela PIDE e barbaramente torturada.

Durante a campanha, no Teatro da Trindade, assistira a uma sessão de esclarecimento em que falavam os candidatos pelo círculo de Lisboa. Entre eles o capitão Varela Gomes. Começara por ler a sua intervenção, mas depois, enervado, pôs os papéis de parte e fez um discurso de improviso de uma acutilância que era rara por aquela época. Atacou o ditador tacanho, a influência da Igreja Católica, a polícia política, a Guerra Colonial que começara nesse ano, a Censura, em suma pôs em causa os fundamentos da ditadura. A sala irrompia em frequentes e vibrantes aplausos.

Nós começámos na segunda-feira a nossa tarefa. Na hora do almoço, percorremos as secções. Da Alameda das Linhas de Torres chegou-nos um grande contributo. Conseguimos uma importância elevada, E fomos os quatro um fim de tarde levar o dinheiro ao jornal em nome dos «Democratas da RTP».O jornal, pela importância da doação e por vir do pessoal de uma empresa do Estado, logo na edição seguinte nos meteu na lista que, diariamente, era publicada. O presidente do Conselho de Administração andou aos gritos pelos corredores: «Onde é que estão os democratas da RTP?» e agitava um exemplar do República. Todos sabiam que a recolha dos donativo era obra dos quatro do costume. Ninguém nos denunciou. E havia gente de direita, legionários, inclusive. O meu chefe de secção, que não se metia em política, mas contribuíra com um donativo, ameaçou quem falasse de passar a ser desprezado «como um cão», foi a expressão que utilizou. O director de serviços apoiou-o de forma discreta, mas firme.A camaradagem, e também o medo do desprezo geral, sobrepuseram-se às convicções políticas. Nenhum dos salazaristas assumidos nos denunciou. Se os oposicionistas activos eram conhecidos, os salazaristas também e se houvesse denúncia, mesmo que estivessem inocentes, seriam acusados.

Não me recordo se a rotativa foi comprada nessa altura ou se isso só aconteceu quando o jornal foi reformulado no começo da década seguinte. Quero chegar é à seguinte questão – que jornal era este pelo qual nos arriscámos a ser presos e a perder o emprego? Era um vespertino que eu não apreciava (embora tenha, uma ou outra vez, publicado colaboração minha), apegado aos republicanos históricos e, na sua última fase, disputado por pecepistas e «socialistas». Mau aspecto gráfico, artigos geralmente respeitáveis, mas enfadonhos. Era um jornal importante, fundado em 1911, por António José de Almeida. Durante a ditadura o “República” manteve-se sempre na oposição. Carvalhão Duarte, José Magalhães Godinho e Raul Rêgo, personalidades importantes na área republicana, maçónica e socialista, foram os últimos directores. Pouco antes da nossa tarefa política, estivera em evidência durante a campanha para a eleição presidencial de 8 de Junho de 1958, em que dera grande cobertura à candidatura de Humberto Delgado. Mas, no final da década de 60, o “República” viveu um período de decadência, comentando-se a inevitabilidade da extinção, pois rondava os 10 mil exemplares de tiragem diária. Mas, em 1972, foi reanimado por um aumento do capital social. Renovado o equipamento, para os seus quadros entraram militantes da Acção Socialista Portuguesa, fundada em Genebra, em Novembro de 1964: Mário Soares, Raul Rêgo (que substituiu Carvalhão Duarte na direcção), Gustavo Soromenho… A equipa foi rejuvenescida com gente da mesma área: Mesquita, Arons de Carvalho, Jaime Gama, António Reis e Álvaro Guerra e outros. As tiragens subiram e o jornal assumiu maior visibilidade. Como sabemos, resistiu à Ditadura, mas não aguentou as lutas «democráticas».

Não vou contar como acabou uma história tão polémica, com versões tão diversas, num momento que a esquerda tenta puxar para o mesmo lado. Só quis recordar o meu São Martinho de 1961, num tempo em que acreditávamos que bastava derrubar o salazarismo para acabar com as injustiças sociais. E alguns de nós, acreditávamos na unidade da esquerda.

Não o conto como presságio, mas como aviso.

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