19. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Fantasmas e fantasias II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão Flávio Nunes

(continuação)

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Éric Toussaint diante da árvore de Dimítris Christoúlas. Atenas, 4 Abril

 

Em Atenas no dia 4 de Abril de 2012, foi a partir de meio-dia que o suicídio da manhã, tomou uma enorme amplitude no silogismo coletivo. Recordo-me deste jovem num bar do centro cidade, muito incomodado porque “o infeliz teria podido suicidar-se dentro de casa ”. Imediatamente, uma mulher replicou recordando “que este ato, é primeiro que tudo um ato político, para além do seu aspeto trágico, porque este homem suicidou-se também ou sobretudo por nós, para nós e para nos fazer reagir, sobre este esta mesma Praça das manifestações dos Indignados, em frente ao Parlamento”. Este mesmo jovem agarrou então o inagarrável. E aqui eu próprio senti o alcance deste ato, que se transforma de facto num grande facto político à medida que as horas passavam.
Ao meio-dia já, a multidão marcava passo, seguidamente, depois do meio-dia e para a noite, eram centenas de pessoas que tornavam a ser testemunhas ativas do tempo presente. Manifestações dos alunos dos liceus e de estudantes mais avançados tiveram lugar em frente do monumento do Soldado desconhecido (entre a Praça e o Parlamento); e ao pé do cipreste, anónimos imediatamente tinham depositado numerosos ramos de flores e havia também massagens manuscritas extremamente explícitas: “Ao levantamento do povo” “Revoltem-se, o seu destino será o destino de todos nós ”, “Porcos governantes, um dia sereis vós a suicidar-vos ”, “o sangue do povo vai afogar-vos ”, “a liberdade ou a morte”, “Vingança”, podia-se ler sobre estas mensagens escritas, a palavra-chave já não era “a indignação” mas “a vingança”.
Três anos depois, os factos aí estão ou como se diz às vezes na Grécia, graves, hesitantes e um tanto incertos. Um coletivo (próximo de) SYRIZA, bem como a família Christoúlas, apelaram ao recolhimento em frente da árvore. A multidão dos basbaques, ocupada e relativamente indiferente passava e seguia o seu caminho. Alguns no entanto, homens e mulheres sobretudo idosos, recolheram-se em frente da árvore, de lágrimas nos olhos.

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Emmy Christoúla et Zoé Konstantopoúlou, le 4 avril 2015

 

Três anos depois, os factos aí estão ou como se diz às vezes na Grécia, graves, hesitantes e um tanto incertos.

Três anos após, os factos aí estão, graves, hesitantes e incertos e no entanto. o Parlamento grego erigirá um pequeno monumento neste lugar, enfim. A sua presidente, Zoé Konstantopoúlou, anunciou na terça-feira 17 de Março de 2015 aquando de uma conferência de imprensa a constituição de uma Comissão de auditoria da dívida pública grega. Esta comissão será coordenada sobre o plano científico por Éric Toussaint, porta-voz do CADTM Internacional e antigo membro da comissão de auditoria da dívida equatoriana em 2007-2008.
“O objetivo é de determinar o eventual carácter odioso, ilegal ou ilegítimo das dívidas públicas contraídas pelo governo grego, o povo tem o direito de pedir que a parte da dívida que seja ilegal – se isso for provado no quadro desta Comissão – que seja então apagada”, declarou a presidente do Parlamento grego.
Por um certo acaso (?) de calendário, o lançamento oficial desta Comissão de auditoria da dívida pública grega teve precisamente lugar neste 4 de Abril, Zoé Konstantopoúlou, Éric Toussaint e alguns outros membros da Comissão, recolheram-se em frente à árvore de Dimitri. Resumidamente troquei algumas palavras com Éric Toussaint (tinha-o já encontrado em Maio de 2011, no âmbito de uma conferência organizada em Atenas aquando do lançamento da estrutura que precede esta Comissão oficial), e ele considera que serão publicados resultados convincentes a partir de próximo mês de Junho.

 

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Atenas, Abril 2015

 

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Atenas, Abril 2015

Seja como for, sabe-se que o papel da comissão de auditoria da dívida grega não será o de substituir ao governo grego para decidir que dívidas devem ser reembolsadas e quais as dívidas que devem ser anuladas. E isto é bem uma precisão importante que levanta o jornalista Adéa Guillot (Le Monde): “Uma vez os resultados desta comissão sejam conhecidos, e por pouco que concluam à ilegitimidade de uma parte da dívida grega, nada obrigará contudo os credores do país a aceitar o princípio de um apagamento puro e simples dos seus créditos. Mas o governo grego poderá então tomar a decisão soberana de não pagar”, assegura Éric Toussaint. “A nossa comissão tem como objetivo dar argumentos sólidos e científicos para apoiar, seguidamente, uma decisão política que pertence ao governo grego”, acrescenta.
Enfim, Nótis Marias, jurista, universitário, membro em 2011 da primeira estrutura que precede a Comissão oficial sobre a dívida grega (ele não pertence à nova Comissão de 2015), e o eurodeputado ANEL (o partido de Panos Kamménos, ministro da defesa), considerou (Real-FM, a 5 de Abril), que “curiosamente, esta comissão não é constituída sobre uma base processual de um artigo no entanto bem preciso do regulamento da zona euro em que se prevê para os países que se encontram sob tutela de tipo Troika, que uma auditoria da sua dívida seja subsequentemente possível. Em caso semelhante, os resultados do procedimento de auditoria não poderão ser ignorados dos credores (FMI, UE, BCE), contrariamente ao que provavelmente se irá passar em Junho próximo”.

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Taberna, Atenas, Abril 2015

 

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Taberna, Atenas, Abril 2015

 

 

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Páscoa em Atenas. Cartaz municipal. Abril 2015
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Atenas, Abril 2015

Antes de e sem dúvida depois da política e da dívida, Emmy Christoúla, a filha de Dimítris que reencontrámos na Praça da Constituição, muito comovida, contou-me então, que o ato do seu pai foi primeiro e sobretudo político, e que tinha tudo preparado, aquando do jantar familiar da véspera, nada no seu comportamento deixava detetar fosse o que fosse, muito menos este seu último gesto.
E os transeuntes passaram ainda. Na Grécia, preparam-se já para celebrar a Páscoa (a 12 de Abril) e assim marcar se possível, uma pausa em tudo isto. Em todo caso, na falta de um esclarecimento da situação (e sem a esperança de uma melhoria quanto às realidades económicas quotidianas), a Comissão de auditoria sobre a dívida grega não provoca nenhuma emoção.
Os Gregos apoiam o seu governo com os olhos abertos e os ouvidos tapados! Ninguém é estúpido, toda a gente se sente esgotada e a longa vida dos encerramentos das lojas em Atenas prossegue.

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Encerramento, Atenas, Abril 2015

 

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Atenas, Abril 2015

 

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Espetáculos em Atenas, Abril 2015

 

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Imóvel para venda ou para arrendar. Atenas, Abril 2015.

Na capital, os homens das unidades da polícia, MAT (Polícia de choque) incluídos, retomam gradualmente o seu lugar habitual, mesmo que menos numerosos que durante o tempo “da gestão” de Antónis Samarás. Todo se alterou depois e, num certo sentido, tudo continua como dantes, donde, todo o paradoxo das “Lagides” e outros epigonos de SYRIZA e Alexis, o Poliorcète1!
A amargura que nos domina é por uma vez consentida, porque promete ainda as futuras doçuras, mas não por muito tempo. O meu primo Kóstas, o professor muito mal pago do privado, verifica que a última reforma dos liceus carimbada SYRIZA “é desastrosa porque mal-arranjada”. Pensa também, que o tumor que atinge a nossa prima Voúla a farmacêutica, não é estranho à sua luta desesperada desde há três anos, contra a falência que ameaça a existência da sua farmácia. Operada esta semana, a nossa prima vai melhor, “sair-se-á sem problema” de acordo com os médicos…

(continua)

 

Reproduzido do sítio greek crisis

Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

19. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- Fantasmas e fantasias I

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