LIVRO & LIVROS – O FLUIR DO TEMPO, de Manuel Simões – por Carlos Loures

 

livrolivros22Falar sobre Manuel Simões é, para mim, difícil. Não por não conhecer a sua obra, mas porque conhecendo-a bem, abordar a análise dos seus livros é quase como falar dos meus livros. O tema «Manuel Simões» é do foro da autobiografia, elogiar Manuel Simões, sabe-me a autoelogio.

Quando comecei a escrever notas, recensões críticas, sobretudo no Jornal de Notícias, em cuja página literária Nuno Teixeira Neves me confiou a crítica de poesia, pertencia a uma geração que abominava as «capelinhas», os grupos de poetas que se elogiavam mutuamente. Por isso, entre as muitas dezenas (mais de uma centena) de textos de crítica que publiquei no JN e noutros locais, dificilmente se encontrará um que se refira ao livro de um amigo – e que bons poetas tive o privilégio de ter como amigos – cito como exemplos Herberto Helder, António José Forte, António Cabral, Egito Gonçalves, Eduardo Guerra Carneiro… Manuel Simões.

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A geração anterior pecara por esse critério de pôr a amizade (ou a hostilidade) à frente da justiça, distorcendo a verdade literária, pois de uma tribuna como a que Teixeira Neves me proporcionou podia falar-se de poetastros como se de génios se tratasse e atacar génios como se fossem estreantes inábeis. Sem citar nomes, direi que o crítico mais famoso de finais da década de 50, num intervalo de uma peça representada no D. Maria II, num camarote, provocou uma gargalhada ao dizer sobre a crítica (desfavorável) que fizera a um poemário de um estreante – «O quê? Ler o livro? Era o que mais faltava! – o texto das badanas foi mais do que suficiente». Porém no camarote ao lado estava um modesto fiscal da Inspeccão Geral de Espectáculos. Míope, mas não surdo, dava pelo nome de Luiz Pacheco… Não provocará surpresa o dizer-se que difundiu aos quatro ventos o «criterioso» método do reputado crítico. Hoje em dia, esse pudor desapareceu de elogiar amigos se vulgarizou e se estendeu aos júris de concursos literários, onde há membros que votam sem ter lido as obras («Era o que mais faltava!».)

Conheci Manuel Simões, salvo erro, em Setembro de 1962. Foi em Tomar e depressa, com mais alguns amigos, criámos um grupo de onde saíram diversas iniciativas culturais – um suplemento literário num dos semanários da terra – o «Labareda» (que foi extinto pela habitual «corporação» de «bombeiros»); criámos a “Raiz”, uma livraria “multiusos” – além de vender livros, realizávamos exposições de pintura e sessões de cinema; representámos Tchekov – «Os malefícios do tabaco»… O Manuel, o Júlio Estudante (já falecido) e eu, criámos uma editora artesanal – a “Nova Realidade” – que se estreou com um livro de um rapaz que se chamava José Afonso…

A amizade, a cumplicidade literária e política, as iniciativas comuns, criaram entre nós laços que nos transforma em irmãos, (daqueles que não andam à sacholada por questões de partilhas…). A nossa amizade, mais de meio século depois, mantém-se e quase me parece bizarro estar a falar nela – é um sentimento indestrutível que resistiu a desavenças ocorridas no grupo mais amplo, à longa permanência do Manuel em Veneza, onde ensinou Literatura e Língua portuguesa por mais de 30 anos. Uma amizade como uma estrada assinalada por marcos – devo-lhe prefácios de livros meus, apresentações… dívida que nunca paguei, nem pagarei, mas que venho hoje amortizar comentando o lançamento de O FLUIR DO TEMPO, volume que hoje, a esta hora (18:30), é lançado na Livraria Arquivo, em Leiria, com apresentação do Dr. Orlando Cardoso, volume que reúne toda a obra de Manuel Simões – desde Crónica Breve (1973) até Micromundos 2005). Por razões de saúde, não posso estar presente – porém daqui, da cama articulada onde convalesço de uma operação cirúrgica, articulo palavras que há muito devo ao grande poeta que Manuel Simões é, sem favores e amizades aparte – tenho a convicção de que o fluir do tempo irá fazer justiça e que o Manuel será considerado um dos grandes poetas da sua (nossa) geração. Parabéns Manuel, recebe o fraterno abraço de um «crítico» pouco generoso e que com algumas décadas de atraso declara o que sempre pensou da tua poesia – está entre as melhores que na nossa língua se escreveram – serena, contida, luminosa e bela.

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Manuel Simões*Manuel Simões nasceu em Jamprestes (Ferreira do Zêzere) em 1933. Poeta, crítico literário, ensaísta e professor universitário, é licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e em Línguas e Literaturas Estrangeiras pela Universidade de Veneza. Viveu em Itália desde 1971 até se jubilar, ensinando Língua e Literatura Portuguesa na Universidade Cà Foscari,? Veneza. Foi, em 1966, um dos fundadores da colecção «Nova Realidade» (Tomar). É, desde 1977, colaborador da revista «Colóquio/Letras» e pertence à redacção da revista «Rassegna Iberistica» (Veneza). Entre 1967 e 1969, integrou a redacção da revista «Vértice» (Coimbra). Actualmente é colaborador da revista «Nova Síntese». A sua obra poética é composta por sete colectâneas: Crónica Breve (1973), Crónica Segunda (1976), Canto Mediterrâneo (1987), Serenínsula (versão italiana,1987),Errâncias (1998), Micromundos (2005). O FLUIR DO TEMPO (2015) reúne a sua obra completa.

 

 

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