A RÁPIDA QUEDA DA UNIVERSIDADE – UMA NOVA “ESCOLA CATEDRAL ” QUE FORMA OS PADRES MODERNOS – por MICHEL MAFFESOLI

logo_sorbonne

A rápida queda  da universidade

Uma nova “escola catedral ” que forma os padres modernos

200px-Michel_maffesoli_in_world_humanities_festival

Michel Maffesoli, Le dévalement de l’université – Une nouvelle «école cathédrale» qui forme les curés modernes

Revista Causeur.fr, 12 de Novembro de 2015

Universidades - I
*Photo : © Selva/Leemage.

A acreditar nas  Escrituras, só o   pecado contra o espírito  é irremissível e não pode ser perdoado. Ora, é precisamente esta falta que comete a universidade: esquece a sua vocação primeira  e, por conseguinte, original[1] ; ela mistura o  que não deve ser misturado: o cientista e o político [2]. Resultado, tornou-se  incapaz “de ouvir a erva que cresce ” ou seja no caso presente, tornou-se  incapaz  de compreender as metamorfoses sociais correntes [3].

É pois esta tão bela ambição que, hoje em dia, os universitários parecem ter esquecido. Apoiados pelas suas  disciplinas, recusando a pluralidade dos métodos e das referências, passam o seu tempo a dizer o que são a Sociologia ou a Ciência… Inteligências sem emprego, unicamente obnubiladas pela caça guardada dos lugares e dos postos de trabalho, “em nome da ciência”! Sem bússola, perdem a sua compostura. Satisfazendo-se pois de serem  moralistas insignificantes, estabelecendo o que “deve ser o mundo”, segregando, para retomar o termo irónico de Nietzsche, “uma moralite” azeda que suscita o desgosto da maioria. Resumidamente, a universidade tornou-se “uma escola catedral”. Esta satisfaz-se, por conseguinte, por  formar os padres modernos. Para sermos mais exactos, são apenas pequenas capelas que, à imagem das querelas bizantinas de antanho,   se preocupam, na indiferença geral,  com questões tão  essenciais como a de querer saber  o sexo dos anjos, ou seja como o segundo número após a virgula de inumeráveis percentagens e estatísticas com que substituem ou mascaram a falta de pensamento !   Como se contar garantisse a objectividade e o que é concreto (concrétude), quando  as médias não são mais do que   abstracções das  representações de uma realidade truncada, amputada do imaginário colectivo em que assenta toda e qualquer  sociedade.

Com efeito, já  não é a cultura geral que prevalece, da mesma forma  que a aprendizagem deixou   de uma arte de pensar. Porque, esquecendo o saber orgânico que une o intelectual à sociedade em que ele se emprega  a pensar, o universitário tornou-se um peão deprimente , um “cavaleiro da triste figura”, que se satisfaz em  recitar, num patoá cada vez mais incompreensível, uma catequese dogmática da qual o fio vermelho, escondido, mas bem presente, é um estalinismo difuso: o povo sendo naturalmente débil  é então necessário erradicar esta falsa consciência e trazer-lhe, do exterior, a consciência sã de que  tem necessidade.

Apanhado numa militância sem horizontes, este universitário deixou de ter  tempo para consagrar ao trabalho lento do pensamento, o  que Aristóteles efectivamente definiu muito bem: saber levantar e bem as questões. O universitário satisfaz-se em martelar  as respostas, saídas da vulgata  marxista que se retira das   reuniões sindicais de uma outra era, tendo apenas que  fazer “a neutralidade axiológica ” que é própria ao pensamento autêntico.

É frequente, noutros meios, ironizar  abertamente  com as “promoções de canapé ”.  Mas “a promoção de sindicato” que prevalece em grande número das nossas faculdades será ela preferível? Os melhores  são afastados em proveito  dos que se satisfazem com aquilo que Durkheim nomeava, precisamente, “um conformismo lógico” dos mais serrados. Outra maneira de designar avant la lettre  “um bem pensante ”,  não se pode ser mais débil. Para retomar  um slogan conhecido: na França não havia petróleo, mas havia  ideias; nem sempre  se tem sempre petróleo, e tem-se cada vez menos ideias!

É o sectarismo que provoca a perda de sangue frio. Legítimo na sociedade civil, o empenhamento  político e sindical não tem pertinência na República das letras.  Faz perder este misto “de bom senso e da firme  razão” que, de acordo com Joseph de Maistre, é a garantia de  lucidez.

O sistema de promoção na universidade francesa é o mais conservador e mais timorato: em vez deixar cada universidade, ou seja cada comunidade científica, recrutar os seus pares com base em diplomas obtidos (o doutorado e a habilitação para  dirigir investigações), os jovens doutores, que foram declarados como tal  por um júri de professores, são   seleccionados por um júri maioritariamente composto de sindicalistas. Este júri deve inscrevê-los   sobre uma lista de aptidão, tendo em vista o  seu processo (tese, publicações, ensinos). Certamente, em certas disciplinas, o número de candidatos é tal que o júri não pode examinar todos os processos. Esta selecção torna-se então meramente ideológica: se o candidato tiver dois relatores “do mesmo quadrante político”, é declarado apto. Se tiver dois relatores que são hostis ao seu director de tese, é declarado inapto sem mesmo ser necessário que o júri discuta a tese: o voto faz-se sobre listas bloqueadas, de admitidos ou recusados. Só os casos em que os  dois relatores não estão de acordo é que as teses são  discutidas. Esta selecção pretende seguramente ser científica e objectiva: com efeito, os únicos critérios são a benevolência ou não dos relatores.

Para um grande número doutros países, o recrutamento não tem esta aparência objectiva e republicana, mas faz-se sobre o conhecimento real das competências dos candidatos e da sua aptidão para integrar uma comunidade de trabalho. No Brasil,  por exemplo, todos os critérios segundo os quais os candidatos são julgados (publicações, participação em colóquios, ensinos…) são públicos e acessíveis a todos; em  numerosos  países, os professores são avaliados pelos seus estudantes. Em França,  é necessário primeiro sentir   o odor da matilha. O que é curioso para pessoas que contestam qualquer pertença comunitária!

Obnubilados por uma concepção materialista da sociedade, protagonistas de uma marxização  do mundo que faz da economia o alfa e o ómega de todas as coisas, estes universitários fixados sobre a sua acção política não compreendem nada  do “ holismo” (totalidade, generalidade) em gestação. Holismo, aí está uma pesada  palavra que se encontra  em Durkheim a fim de sublinhar em que o  social, na sua globalidade, não é reduzível à soma das partes. Mais próximo de nós,  “a new age ” californiana vai utilizar este termo a fim de sublinhar as interacções que existem entre a vida social e a vida natural. Outra maneira de nomear uma sensibilidade ecológica pela qual o  que está em  jogo é efectivamente uma naturalização da cultura e um culturalização  da natureza! Resumidamente, a vida como um todo que não se pode mais “separar” a seu belo prazer.

Feno das dicotomias e dos cortes modernos! Se há   uma figura retórica relevante para se poder compreender o que aqui está em  jogo, essa figura é   efectivamente o oxymoro. Ela traduz a íntima ligação do material e do espiritual, da corporificação  e do misticismo. E é bem isto que efectivamente  suscita o temor dos nossos universitários de ideias bem curtas e, sobretudo, unilaterais.

A sua impotência, o seu desfasamento são apenas a expressão de um irreprimível terror do presente stricto sensu – o que se apresenta. E isto ao ser assim não deixa de estar a gerar desordens evidentes nos seus cérebros espantados e ansiosos. Negando  a importância do espírito e do imaterial  a poder  funcionar para o bem comum, eles ficam transtornados. Recusa particularmente evidente em que, para eles, a cultura é sempre subalterna  em relação à política. No quadro do politicamente correcto, isto compreende-se.  A roborativa  observação de Charles Péguy: “Todo começa na mística  e acaba na  política” ou é  ignorada  ou  é  qualificada de reaccionária.

E o sinal de uma tal desordem é a extraordinária agressividade de   fazem prova estes meio-saldos da teoria.  A disputatio,  de antiga memória, ou seja a troca de pontos de vista sem nenhuma  concessão, mas sempre de forma cortês, é substituída  pela  invectiva. A crítica ad hominem substitui o debate de ideias. A arrogância e  a jactancia tonitruantes fazem-nos lembrar  a irónica observação de Raymond Devos: “Quando não tenho nada a dizer, quero que se saiba!”

Sublinhei-o, o termo  Universitas empregava-se a expressar  o homem na sua totalidade. “A  bocalisação ” universitária é a negação disso mesmo. Mas, como ela retoma força e vigor, não é surpreendente que os discursos intelectuais, por muito ruidosos que sejam, fiquem cada  vez mais inaudíveis!

Voltemos a  Thomas de Aquino e à sua abordagem realista do dado  humano. Esta assenta   numa  íntima  ligação existente  entre o sensível e o inteligível. Há com efeito um vai-e-vem  constante entre a capacidade de sonhar, de actuar, de fazer a festa,  numa palavra, entre  imaginar o mundo e o facto de o pensar. O real autêntico é forte em fantasmas ou em  fantasias colectivas. É aqui que reside  a sabedoria popular de que é lamentável que esta seja etiquetada de  “populismo”. É não será senão isto o que  Péguy, ainda ele, chama elegantemente de  “ mística republicana”?

Daí a estreita conexão  existente  entre a libido sentiendi, este desejo de sentir, e a libido sciendi, ou desejo de saber. É esquecendo tudo isto que os universitários, nas suas diversas capelas, esquecem a sua original vocação e perdem o seu tempo numa libido dominandi que não pode ser mais vã do que ela é, e, infalivelmente, bem abstracta. Obnubilados “por um princípio de realidade” que reduz todas as coisas à sua dimensão política ou económica, negligenciam a força do espírito sobre a qual assenta, de facto, toda e qualquer  civilização digna deste nome. É esta procura de um ilusório poder, para o  qual não estamos preparados  que faz deles ridículos miúdos de que só se ouvem as  suas lancinantes gritarias.

 « Words, words, words »: não é assim que se pode  sublinhar, com Hamlet, a vaidade de um saber abstracto e desligado do real!

É somente quando a palavra se torna   palavra fundadora  que ela   está  em consonância  com as coisas humanas. O desafio é de uma enorme  importância. Já não são mais  “os investigadores”,  estes rentiers  da República, que aqui são capazes de  responder . É fora de instituição, na horizontalidade das redes  sociais, é nas margens do establishment que se tem a possibilidade   de descobrir  então “os encontradores” contemporâneos

Michel Maffesoli et Hélène Strohl, La France étroite, face à l’intégrisme laïc, l’idéal communautaire, éditions du Moment, 2015.

Michel Maffesoli, Revista Causeur, Le dévalement de l’université- Une nouvelle «école cathédrale» qui forme les curés modernes. Síntese disponível em :

http://www.causeur.fr/universite-cathedrale-35356.html#

Texto que não está em acesso livre na Revista Causeur. Publicação autorizada.

________

[1] Será  necessário recordar que, quando no século XIII,  as universidades que foram criadas (Sorbonne, Bolonha, Coimbra, Colónia), eram  para escapar à tutela “das escolas catedrais” que formavam os funcionários da época: o corpo eclesiástico. As palavras têm um sentido: Universitas, uma outra maneira de dizer a interacção e a complementaridade da teologia com a medicina, o direito, a filosofia. E isto a fim de abordar e aprofundar a natureza humana na sua totalidade.

[2] (Uma tal queda do pensamento é pura e simplesmente a consequência duma infeliz confusão quando se esquece  a distinção fundamental proposta por Max Weber entre  «o sábio e o político».

[3]  Desde  então, deixando de ser produtores de ideias, estes intelectuais – militantes praticam a  «resistência».  A quem, a quê, senão ao impulso vital irresistível  que está na base da própria sociedade pós-moderna.

Leave a Reply