SINAIS DE FOGO – A 24 DE JANEIRO CELEBRE O FIM DO CAVAQUISMO – por Soares Novais

sinais de fogo

Daqui a um mês o Pai Natal chega às nossas casas e 30 dias depois abre-se a porta de saída do Palácio de Belém para o dr. Cavaco. Fica aqui a sugestão: no dia 24 de Janeiro vá para a rua e festeje. Festeje o fim do cavaquismo (1).

Cavaco e o Pai Natal são dois velhos, sendo que o Pai Natal é um velhinho simpático, usa longas barbas e veste de vermelho. O dr. Cavaco não. Não é simpático, não usa barbas e jamais veste de vermelho – cruzes canhoto!

O Pai Natal traz presentes e distribui-os por todos. Sem olhar a raças, credos ou ideologias. O dr. Cavaco não. O dr. Cavaco gosta mais de receber do que dar e só fala com os seus amigos e patrões.

Como se viu agora quando recebeu todos aqueles senhores economistas e todos aqueles senhores presidentes de conselhos de administração de bancos a quem os senhores jornalistas apelidam de banqueiros.

Uma perda de tempo: Cavaco já conhecia as respostas dos senhores da banca e dos senhores dos números. Bom, bom era que o dr. Cavaco ouvisse o que dizem economistas como João Ferreira do Amaral ou Eugénio Rosa.

Ou seja: os economistas que dizem, e provam!,  que andamos a pagar com língua de palmo as contas mal feitas de todos aqueles sábios que o dr. Cavaco ouviu e que contribuíram para a criação de uma dívida que hipoteca o futuro da Nação.

O dr. Cavaco não é um democrata e muitos menos é um homem da Liberdade. Nunca o foi. Durante a Ditadura não se lhe conhece nenhum sobressalto cívico e a sua ficha na PIDE atesta que estava perfeitamente integrado no regime;  depois do “dia inteiro inicial e  límpido”  deu pensão aos torcionários  da “António Maria Cardoso” e recusou-a à viúva de Salgueiro Maia – o mais generoso dos capitães de Abril.

A ascensão de Cavaco ao Poder foi assim a modos como o triunfo de um obediente servo que, em proveito próprio, nunca se engana e raramente tem dúvidas.

Cavaco olhou pela sua vidinha e escolheu o seu lado. O lado dos ricos e poderosos, dos mercados financeiros, daqueles que são o único Pai Natal que sempre  lhe  interessou.

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(1) – Além de assinalar o fim do cavaquismo, importa que a festa de “24 de Janeiro” também contemple a não eleição do prof. Marcelo. É que, apesar do sorriso, dos abraços, das palmadinhas nas costas e da palavra ágil, o professor da tevê também é um “democrata” de conveniência. Veja, por exemplo, o que ele escreveu ao seu padrinho Marcelo Caetano, logo a seguir ao Congresso da Oposição Democrática de 1973 em Aveiro:

Excelentíssimo Senhor Presidente (do Conselho),

Excelência,

Pedindo desculpa do tempo que tomo a Vossa Excelência, vinha solicitar alguns minutos de audiência (…). Seria possível, Senhor Presidente, conceder-me os escassos minutos que solicito? (…) Acompanhei de perto (como Vossa Excelência calcula), as vicissitudes relacionadas com o Congresso de Aveiro, e pude, de facto, tomar conhecimento de características de estrutura, funcionamento e ligações, que marcam nitidamente um controle (inesperado antes da efectuação) pelo PCP. Aliás, ao que parece, a actividade iniciada em Aveiro tem-se prolongado com deslocações no país e para fora dele, e com reuniões com meios mais jovens.

Como Vossa Excelência apontou, Aveiro representou, um pouco mais do que seria legítimo esperar, uma expressão política da posição do PC e o esbatimento das veleidades «soaristas».

O discurso de Vossa Excelência antecipou-se ao rescaldo de Aveiro e às futuras manobras pré-eleitorais, e penso que caiu muito bem em vários sectores da opinião pública.

Com os mais respeitosos e gratos cumprimentos,

Marcelo Rebelo de Sousa

(in «Cartas Particulares a Marcello Caetano», organização e selecção de José Freire Antunes, vol. 2, Lisboa, 1985, p. 353)

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