No filme norte-americano Os Onze do Oceano, de 1960 (houve pelo menos uma outra versão posterior), um dos assaltantes, filho de gente endinheirada, que enveredara por uma vida duvidosa, responde assim ao padrasto, também ele podre de rico, de dinheiro ganho por processos menos claros, e que o censurava pela vida de estroina que levava, apontando para si próprio como exemplo a seguir: “Fiz melhor do que você: escolhi pais ricos!”. O papel do assaltante, salvo erro, era desempenhado por Peter Lawford, que proferiu a “máxima” com um ar descontraído que se destacava mesmo num filme com muitos atractivos.
O dito do herói (ou vilão, conforme os pontos de vista) parece, meio século depois, ter sido retomado por um dos mais brilhantes economistas do nosso tempo, Joseph Stiglitz. Este esteve em Lisboa e O Diário de Notícias de hoje, reportando-se a Dinheiro Vivo (ver primeiro link) refere uma frase que ele pronunciou na conferência sobre Desigualdade num mundo globalizado, que ocorreu ontem na Gulbenkian: “Digo sempre aos meus alunos. Há uma coisa muito importante que devem fazer nas vossas vidas: escolham bem os vossos pais”.
A opinião de Joseph Stiglitz, prémio Nobel de Economia em 2001, que defende a nacionalização de bancos americanos, impostos progressivos e é membro da comissão da Internacional Socialista para os assuntos da finança global, tem com certeza um alcance muito mais profundo do que a graça de um personagem de um filme. Para além de inteligência e competência notáveis, parece que também é dotado de um vincado sentido de humor, que utilizou agora com grande oportunidade para caracterizar e criticar a horrível realidade que temos hoje, no século XXI, após tantos anos em que se pensou estar a caminhar para a melhoria da vida e o progresso dos povos em geral. Stiglitz recordou a propósito do agravamento da desigualdade que se verifica por todo o lado, e que é imposto de cima, que nos três primeiros anos da retoma 91 % do rendimento foi para o 1% dos mais ricos. É um número que põe a claro o que resulta do domínio de uma minoria sobre a economia e a finança mundiais, com grandes responsabilidades no desencadear de crises, guerras e outros fenómenos que afligem as populações, como as alterações climáticas. O humor, exprimido naquele filme já há várias dezenas de anos e agora por um grande economista, mostra apenas como é tão generalizada a consciência sobre aquelas grandes responsabilidades.
Propomos que acedam aos links seguintes:
http://www.dinheirovivo.pt/economia/stiglitz-91-desta-retoma-foi-para-os-1-mais-ricos/
http://www.dinheirovivo.pt/economia/stiglitz-reduzir-irc-nao-traz-mais-investimento/
http://www.socialistinternational.org/viewArticle.cfm?ArticleID=1958
https://en.wikipedia.org/wiki/Ocean%27s_11

