29. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Kaos I

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

Caderno de notas de um etnólogo na Grécia- uma análise social diária da crise na Grécia

Uma série de Panagiotis Grigoriou

 

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Terça-feira, 21 Julho de 2015

29. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia – Kaos

 

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Novo espetáculo. Como no cinema, é o que se diz do Verão na Grécia. A “governança” do memorando III impõe o seu piloto automático ao aeróstata Tsipras mas, contudo, o aparelho corre o risco de deixar de responder aos comandos. A imprensa do nepotismo histórico e dos memorandos adulados bebe já a sua chávena de leite e, coalhado: “O divórcio aí está . Tsipras prepara as listas eleitorais, os membros da Plataforma de Esquerda serão excluídos”, escreve o diário “o Ta Néa” do 21 de Julho. “Kaos”.

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Cinema de Verão. Atenas, Julho de 2015

Novo espetáculo e cinema de verão em Atenas. Os habitantes da Colónia têm uma necessidade brutal de sair e de respirar. Muito numerosos empregados resgatados da guerra económica que sofremos já não dispõem dos seus dias de dispensa de Verão. As empresas tinham posto o seu pessoal com dias de licença e isso em massa durante duas a três semanas o que se deu desde a aplicação dos controlos dos capitais, como uma sequência ( ou consequência) ao anúncio do referendo em Junho passado.

Frequentemente mesmo, o pessoal não foi pago, por exemplo na imprensa a regra do momento resume-se a três salários em espera. Verão estragado, férias martirizadas. Assim, numerosos são aqueles que obrigatoriamente optaram por… uma fuga para as praias ou às vezes para o campo, para junto da família ou dos seus amigos, muitos deles, em situação de dispensa (muitos) e sem soldo. “Este Verão, fomos encurralados, seguidamente grelhados vivos. Um corte a mais e seria demasiado.” ironiza Státhis, empregado numa casa editorial.

Os cafés de Atenas são frequentados, de resto, os nossos turistas não têm o ar de se sentirem mal na Colónia, mas entre Gregos, as discussões são bem animadas, entre dois goles amargos. A doca em baixo da escala, comenta e analisa esta “Waterloo de SYRIZA”, que é primeiro que tudo Waterloo da Grécia, Tsipriota ou não, de resto. Uma revista literária e política, organiza portanto um debate sob este mesmo tema: “A Waterloo de SYRIZA – a Europa alemã e a reconstrução da Grécia”. A derrota não está ainda digerida e talvez nunca o venha a estar exceto talvez nas cúpulas de SYRIZA.

 

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A Waterloo de SYRIZA – A Europa alemã e a reconstrução da Grécia. Atenas, Julho de 2015

 

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O euro a derreter-se. Atenas, Julho de 2015

A radicalização investigadora parece estar na moda. “É necessário tornarem-se sérios, os tipos. A brincadeira acabou com a prática de SYRIZA. Vai ser necessário sair primeiro do Euro e em seguida ou até ao mesmo tempo, sair da UE, salvo que a preparação para que isso seja feito deve ser levada muito a sério. Não sei mesmo que pessoal político na Grécia encarnará doravante esta via. Há urgência. Estas pessoas abarão por vender a Acrópole” Discussão entre pessoas jovens, numa manhã de Julho num café sob a Acrópole.
A equipa Tsipriota compreende também a urgência. O tempo histórico é denso, a ex-esquerda ex-radical tinha sido projetado para o poder desde os seus minúsculos 4% de votos e isto em muito pouco tempo, o declínio pode ser igualmente muito rápido, sob certas condições. É o cenário que procura agora evitar a equipa de Tsipras, agora, numa luta sem quartel … e sem perdão que está desencadeada e tem como objeto o controlo do partido.
Theano Fotiou, o ministro delegado para a Solidariedade Social, interrogado por Costas Arvanítis, Rádio 105,5 – SYRIZA (?) na terça-feira 21 de Julho, exprimiu não sem precisão a argumentação de SYRIZA “da governança” automática e do seu governo.

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Uma certa imprensa. Atenas, Julho 2015

“Não temos necessidade do conjunto do partido neste momento. Em contrapartida, temos necessidade do apoio da sociedade, se possível no seu maior número possível, e também do apoio do Estado, do Exército e da Polícia. Bater-nos-emos para assim realizar um máximo de ações face à crise humanitária, se conseguirmos evidentemente negociar com a União europeia.”
“Queremos pôr em prática ou sobretudo facilitar a criação de estruturas as quais facilitarão a junção direta, entre produtores e consumidores (de tipo AMAP). Há urgência. É uma maneira de neutralizar os efeitos do aumento do IVA, e isto é apenas um exemplo. Seguidamente, é necessário que sejamos claros. O Programa de Salónica (programa com o qual SYRIZA ganhou as eleições de Janeiro passado) desmoronou completamente. Não há portanto nenhum outro programa alternativo, nem para nós, nem para a outra parte, outra maneira de dizer, para os adeptos “de NÃO”. É necessário por conseguinte trabalhar sobre este outro programa.”

“Admiro de resto a determinação e o metodismo de Georges Katroúgalos, o nosso ministro do Trabalho. O seu programa deve ser aplicado por nós todos. “Encontrar precisamente estas medidas de contrapeso, face às medidas impostas pelo programa (memorando) “. Do meu lado, proporei como medida urgente e a fim de poder restabelecer os almoços nas escolas a partir do começo do ano escolar, a abertura de uma conta específica ao Banco Nacional. Todos poderão pois para ela contribuir e sobretudo os Gregos que vivem no estrangeiro. ”, (citado de memória).

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Ilusões da esquerda. Atenas, Julho de 2015

 

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Tsipras, Quisling. Atenas, Julho de 2015

No fim da sua entrevista, Theano Fotiou precisou que “as ilusões quanto a esta outra Europa acabaram ”. Não completamente. Um autocolante vindo do Partido de Esquerda francês visto numa das ruas de Atenas, agita-se sempre no vazio: “Se a Grécia fosse um banco, seria salva”. Pobres gentes. Se a Esquerda não fosse europeísta, seria salva certamente! Demasiado tarde.

A aposta dos Tsipriotas é por conseguinte arriscada. O seu período no governo é já uns parênteses; acabar-se-á dentro de poucas semanas, ou mesmo de meses. SYRIZA poderia contudo manter uma certa base eleitoral, devido já a este grande vazio político, de momento não preenchido, em seguida, também graças à amável participação dos meios de comunicação social sistemáticos e talvez também com o apoio da metrópole.
Os novos slogans ornamentam agora a nossa bela Praça da “Constituição”. “Tsipras Quisling, podes rebentar”, o sentido político é infelizmente suficientemente preciso. Contudo, ninguém não pode predizer qual será a capacidade de recuperação da equipa no poder, e ainda menos, a sua aptidão em convencer quanto à sua a vontade “de trabalhar com base neste outro programa”.

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Praça da Constituição, Julho de 2015

 

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Pequeno bar, falido. Atenas, Julho de 2015

Vida pesada e vida calma, Praça da Constituição. Bares que fecham, outros que recentemente têm sido abertos, ventos supostamente prometedores. Confabulações e mutismos à mistura. A bordo de um comboio de Tessália, os passageiros permanecerão metade deles silenciosos. Uma estudante que lê religiosamente “o Ascética” de Nikos Kazantzakis, um grande escritor mas do século que bem precede este em que estamos. De 1925 aos anos 1940, viajou pela URSS em companhia do escritor romeno de língua francesa Panait Istrati, depois pela Palestina, Espanha, Itália, Chipre, no Egipto e no Sudão. Encontrou Gorki. Pensador influenciado por Nietzsche e Bergson, de quem seguiu o seu ensino em Paris, foi tentado igualmente pelo marxismo e interessado pelo budismo.

Embora a sua obra seja marcada de um real anticlericalismo, não obstante a sua relação com a religião cristã, deixou traços fortes no seu pensamento: o gosto pronunciado pelo ascetismo, dualismo poderoso entre corpos e espírito, ideia do carácter redentor do sofrimento.
Nós aqui estamos, incluídos neste comboio. Os que se exprimem, fazem-no forçosamente para evocar a nossa situação atual. Um reformado que se dirige a uma outra estudante interroga-se sobre o futuro da Grécia.
“Faltam-nos meios essenciais na Educação. Todo foi feito, antes de e sobretudo após a Troika, para chegarmos a esta situação: desmantelar a nossa cultura e a nossa identidade. Houve primeiramente esta quase supressão das humanidades, do ensino do grego antigo como também do latim no secundário, passando pela marginalização do ensino da história” insurge-se então essa estudante.

(continua)

Uma série de Panagiotis Grigoriou
Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é : http://www.greekcrisis.fr/

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