34. Caderno de notas de um etnólogo na Grécia: Grécia-Europa Ocidental, pontos de vista e mal-entendidos – II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

(conclusão)

Toda a história da Grécia contemporânea (e do seu Estado) é atravessada por este esforço que consiste em tentar normalizar, a interiorizar e a reformar, finalmente, as distorções da sua identidade, o que é sobretudo um malogro, direi eu. De acordo com a ideologia do eurocentrismo, o significado simbólico da Grécia apresenta-se ao mesmo tempo como que resultante do sagrado e como resultante também da contaminação, em que esta última naturalmente estaria aos olhos dos Europeus, ligada ao passado otomano e bizantino desta Grécia da queda do pecado, o qual, lembremo-lo, não teria conhecido nem Idade Média nem Renascimento.

Todas as fricções, são assim perceptíveis através das contracções e das tensões que se encontram na identidade neo-helénica através dos seus dilemas. Certos Gregos, observa então Herzfeld, projectam (e se) projectam, uma identidade europeia que outros consideram como nunca adquirida e/ou, como nunca desejada. Os Gregos ressentem, assim, constantemente esta tensão entre a identidade e a alteridade, entre a pertença e a exclusão no que diz respeito à Europa.

A Grécia é então um caso talvez único no mundo, na medida em que este país foi obrigado a encarnar dois papéis contraditórios: o da Proto-Europa e o do Oriente humilhado. Estes dois papéis seriam inconciliáveis entre eles, salvo que reenviam os dois a esta inferioridade suposta (mas de facto figurada), em face dos “verdadeiros” Europeus de hoje. É então uma armadilha, semântica e também ideológica.

Daí, de resto, a marginalização da Grécia actual na geopolítica do mundo contemporâneo. Para numerosos Europeus do Ocidente, os Gregos de hoje não são nem realmente exóticos e ainda menos são Europeus de maneira bem clara. São, suponhamo-lo, os empregados sempre prontos para servir os interesses ocidentais, salvo que bem frequentemente, os Gregos se recusam a encarnar este último papel.

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Imaginário grego-ortodoxo e Yanis Varoufákis. Internet grega, 2015

 

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Ironia do momento: “Nós permanecemos na Europa ”. “Quotidien des Rédacteurs”, Junho de 2015

Em casos semelhantes, os Gregos são repreendidos, ou mesmo punidos pelas Potências europeias e pelos seus políticos e jornalistas, não na sua qualidade de antepassados da Europa, mas porque aparecem como sendo os rebentos difíceis e mal socializados deste Ocidente organizado, (ver a primeira parte deste artigo que evoca Romaric Godin e o seu texto publicado “em La Tribune”, intitulado “a Grécia: quando a imprensa alemã derrapa Die Welt lançou um ataque contra os Gregos”, em que Godin contestao os argumentos racistas avançados pelo diário alemão “Die Welt”, este último tendo feito um ataque contra a Grécia “julgada responsável pela destruição da ordem europeia desde 1821”).

Na mesma ordem de ideias, as fraquezas estereotipadas das quais sofreriam os Gregos de acordo com os Ocidentais são a falta de estabilidade política, o evitamento do trabalho manual, a ineficácia, em suma, todos os defeitos que a Europa forçosamente intervencionista sempre utilizou para, enfim, distinguir nos Gregos a corrupção, acrescentaria eu, no sentido pleno do termo.

Todos os estereótipos e fricções são revisitados e revitalizados através dos acontecimentos da crise grega, ou seja, pelos desenhos humorísticos da imprensa, pelos artigos, pelos jogos de palavras, digamos até pelas passagens semânticas e simbólicas… entre a Grécia antiga e a Grécia actual através da imprensa internacional. Notemos, por fim, que o lado grego e isto desde o século XIX, tem sido por vezes encarado como uma questão de renascimento, por analogia aos antigos, e não como uma imagem cintilada pela via da Europa Ocidental, e assim, contrariamente aos estereótipos dos filelenos . Para estes Gregos, entre os quais o historiador Spyridon Zambélios (1815-1881), os elementos ditos orientais não são renegados da identidade neo-helénica, simplesmente são nela aceites porque assimilados, depois retrabalhados.

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Cultura grega. Pintura de Tsaroúchis, 1964

O esforço, enfim, mais recente de Michael Herzfeld (na sequência da sua abordagem da Grécia contemporânea), consiste em estabelecer um quadro comparativo, entre a Grécia e a Tailândia apoiando-se sobre o conceito “de cripto- colonialismo”, é já uma característica da necessidade de se referir a um domínio de estudo bem estabelecido no mundo académico, a fim de legitimar uma abordagem que se pode considerar não habitual.

Por outras palavras, parece-lhe mais fácil comparar a Grécia à Tailândia, na medida em que o conceito “de cripto – colonialismo” permite a esta comparação entrar no âmbito dos estudos pós- coloniais, mais do que estar a comparar por exemplo a Grécia e a Bulgária, o FMI deve então rever seu o culturalismo ! Uma pista, certamente a seguir.

Contudo, a mundialização põe em jogo circuitos móveis de diferenciação e de identificação. A tese historicista (os patamares da história) tornaram possível a dominação do Ocidente, primeiramente pela Europa, nota pelo seu lado Dipesh Chakrabarty, historiador Indiano no seu ensaio: “Provincialiser a Europa”. Esta tese, consignava por conseguinte os Indianos, os Africanos, e as outras nações “grosseiras” à sala de espera do imaginário da história.

Os temores de Yórgos Ioánnou e da poeta Elýtis realizam-se actualmente. É pouco mais ou menos o mesmo processo que está em andamento na Europa (e não somente) neste momento mas no sentido oposto, iniciado praticamente pelos mesmos dirigentes que estão à frente da organização neo-feudal do mundo tecno-mundializado e do homem global, como o diria o grande antropólogo indiano Arjun Appadurai. Salvo que se trata aqui e em muito da exclusão de certas nações na Europa do imaginário da história, ou mesmo a termo, da sua exclusão do imaginário dos povos ditos centrais do projecto europeísta.

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O poeta Elýtis em Sérifos, nas Cyclades. Século XX.

 

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Novo dracma já imaginado em homenagem a Cornelius Castoriádis. Grécia, 2014.

 

No caso da Grécia do momento, a primeira clivagem em fase de estar a ser ultrapassada, porque já fez o seu tempo (e também já fez o de SYRIZA): a questão “ A favor ou contra o memorando” cruza-se agora com uma outra, a que divide então os partidários da Europa (forçamento europeísta e inseparavelmente néo – totalitária) e todos aqueles que dela desejam sair.
Esta brecha não é de resto unicamente política nem estritamente económica. Ela depende assim desta antiga contradição cultural na maneira de considerar a sua identidade e isto pelos próprios Gregos. Trata-se da tradicional distinção entre “os Romioi”, de um lado, que se vêem como os herdeiros do império romano do Oriente – por outras palavras Bizâncio – e seguidamente do império otomano e por outro, “os Helenos ” que se sentem como fazendo e sendo parte da família europeia na continuidade da Antiguidade e afastam “com desprezo” a componente oriental da sua história e da sua cultura.

Reactivada pela oposição entre pró – europeístas e eurocépticos, esta clivagem faz hoje o seu regresso em grande forma, como testemunha o editorial em Junho passado, do jornal “Kathimeriní”, o qual apelava à construção de uma nova narrativa nacional, e cito: “ é necessário que o país se torne um exemplo a seguir, mais do que estar a ser um objecto de estudo para antropólogos, é necessário voltarmos a ser mais Helenos e menos Romioi”.

 

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Gregos do século XX. Fonte ; internet grega

A para – modernidade da mundialização obrigaria os Gregos, (a exemplo dos povos que desejam ser e manter-se livres), a assim redefinir o seu lugar, a sua identidade, as suas relações com a Europa ocidental, animada pois por um tão nefasto directório como se sabe. O Ocidente já abandonou as suas Luzes e a herança grega com elas.

Para sobreviver neste mundo é necessário existir, e para existir, deve-se escolher e assumir todos os riscos ligados às rupturas e às recomposições, ultrapassando na urgência os monodramas (e “monodromas”, em grego moderno é também “o sentido único”), impostos pelas teratogéneses do século XXI como de todos os outros.

Os gregos tê-lo-ão já suficientemente compreendido ?

 

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Atenas, tempos de crise, 2010-2015

Tradução Júlio Marques Mota
Revisão Flávio Nunes
Texto original publicado pelo sítio greek crisis
Panagiotis Grigoriou, Carnet de notes d’un ethnologue en Grèce, une analyse sociale journalière de la crise grecque. Texto disponível no site greekcrisis, cujo endereço é: http://www.greekcrisis.fr/
* Photo de couverture: Athènes, temps de crise, 2010-2015

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