EDITORIAL – O que podemos esperar?

logo editorialSeria estulto esperar que o governo de António Costa resolvesse milagrosamente o ror de problemas que Passos Coelho lhe legou e que, diga-se, tendo sido agravados  pela arrogante incompetência do seu executivo, vinham já muito de trás, com graves responsabilidades do PS. Se quisermos usar uma graçola antiga, podemos dizer que vêm já do reinado do nosso Afonso I… Temos pelo contrário, a ideia de que a história nunca se repete – o que se repete é a natureza humana que dá respostas semelhantes quando colocada em situações idênticas – prevalecendo em geral o egoísmo, a inveja, a vaidade, a ganância, o desprezo pelos interesses alheios, para já não falar na xenofobia, no machismo, no classismo… Talvez não se trate de repetição, mas de entropia, ou seja da irreversibilidade da natureza humana que responde de modo igual em situação semelhante.

Aquele  provérbio beduíno que diz, «por cada vez que olhares para trás, olha três vezes para a frente», tem a ver com isto. Olhar o futuro para resolver os problema do presente, seria como orientar as  despesas domésticas usando um extracto de conta bancária de anos atrás ou como um automobilista que conduzisse o carro olhando para o retrovisor. Mas, sem dúvida, que há semelhanças; por exemplo entre aquilo a que hoje, falando da dança PS/PSD, chamamos «alternância democrática» e o sistema político-partidário que antecedeu a ditadura de João Franco (1906) e que foi designado por «rotativismo». O rotativismo funcionava na Grã-Bretanha desde o século XIX, com tories e whigs alternando-se no governo. Em Portugal, fez-se um primeiro ensaio do sistema entre 1851 e 1865, com os partidos Histórico e Regenerador. Em 1876, da fusão do partido Histórico com o Reformista, nasceu o partido Progressista, liderado por Luciano de Castro. Foi este quem defendeu nas duas Câmaras a implantação de um sistema bipartidário, com um partido conservador e outro liberal alternando-se no Poder. Comeddia dell’Arte pura. Os “maus” ocupavam o poder, os “bons” defendiam os interesses do povo. Os partidos Regenerador e o Progressista assumiram esses papéis e o sistema funcionou até que o Ultimato britânico de 1890 provocou uma crise que o viria a impedir de funcionar; em 1893 teve início a derradeira fase. Em 1906, o Partido Regenerador-Liberal, liderado por João Franco, venceu as eleições legislativas. Mas não havia cura para a doença – o Partido Republicano e o Partido Socialista (nada tinha a ver com o actual, a não ser o nome) ganharam força. As Cortes transformaram-se num palco de discursos repetitivos e previsíveis. D. Carlos, supondo que solução estava no reforço do poder real, encarregou João Franco de formar um governo de ditadura: Não resultou – em 1908 foi o Regicídio e em 1910 a proclamação da República. Olhando de novo a estrada, vemos que o «bloco central», foi uma resposta àquilo a que os amantes da ordem, e os nostálgicos do antigo regime, chamam o caos. De facto, durante a ditadura do Estado Novo, reinara uma paz e uma ordem semelhantes às que imperam nos cemitérios. Em nome da «estabilidade política» a irrompeu o «pacto de regime» e  a implantação do «bloco central» – uma «alternância democrática» no poder partilhada por PS, PSD/ CDS. Comparar o rotativismo com a «alternância democrática» faz sentido na medida em que ambas as soluções conduzem a uma situação efectiva de não-democracia, àquilo a que se usa designar por «partidocracia». Quando se assiste à sanha com que PS e PSD se digladiam, se denunciam não nos podemos impedir de pensar que se trata não de uma comédia, mas de uma luta real não pelos interesses nacionais, como nos querem fazer querer, mas pela ocupação de um poleiro de onde se pode chegar aos tachos, distribuí-los pela família e pelos amigos, não esquecendo os adversários, que amanhã, por certo, os substituirão no governo e retribuirão a gentileza.

Porém, há politólogos que fazem uma leitura diferente – não são os órgãos de comunicação social que servem os grandes grupos económicos. São os grupos económicos que estão ao serviço da corporação que a comunicação social constitui.  Neste momento, segundo eles, a «corporação» é quem toma as decisões. Teoria da conspiração? Talvez. De qualquer dos modos, sejam os bancos ou as cadeias de televisão quem manda, quem não decide nada são os cidadãos. Limitam-se a obedecer ao marketing. Este sistema teoricamente multipartidário, mas bipartidário na prática, é uma democracia? Claro que não? Há liberdade de expressão e há liberdade de associação, mas falta um dos pressupostos do demokratía (governo popular ou do povo) – por acaso, o principal dos seus pressupostos que é a de ser o povo a governar.

Seja a história que se repete, seja a natureza humana que não muda, uma coisa é verdade – o processo histórico decorre e as coisas mudam. Podemos e Ciudadanos, são a prova de que, aqui ao lado, o reinado PP/PSOE está moribundo. Que bom seria olharmos pelo retrovisor e ver este presente miserável transformado em passado.

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Semelhanças entre o rotativismo e este sistema de «alternância democrática», apenas uma: quando uma classe, um grupo social ganha o poder, cria mecanismos para os conservar. É difícil comparar Portugal e o Mundo de há um século com os de hoje. Há cem anos as economias nacionais eram compartimentadas e as respectivas políticas também. Hoje, com tudo o que tem de fantasioso, a globalização torna-nos mais dependentes do que éramos então – se em Nova Iorque abrem uma porta e uma janela, nós constipamo-nos com a corrente de ar. Porém, hoje como há um século, há uma elite político-económica que apenas está dividida por questões formais e que, para preservar «valores» comuns, como o da prevalência dos seus interesses, encontra acordos tácitos que não necessitam de ser lavrados em documentos – pacto de regime, bloco central, alternância democrática, rotativismo… um partido aparentemente mais de direita, outro formalmente mais de esquerda (para dar o toque democrático), mas visando ambos o mesmo objectivo – conservar o poder – lutam pelo «poder». O resultado não precisa de ser combinado – ganhe quem ganhar, o poder dos grandes grupos político-económicos não será posto em risco. Hoje como há cem anos, governam partidos governados por gente afim. Há cem anos, uma elite de bacharéis industriais e de negociantes endinheirados, hoje um escol de licenciados (uns mais do que os outros) dependente das multinacionais, das grandes empresas indígenas e, last but not least, das centrais de inteligência, dos centros de poder político mundial..

Sem perder de vista a estrada, demos uma olhadela ao retrovisor de olhos bem abertos, embora quem não concorde connosco possa dizer que temos de mudar de lentes. Porque os beduínos devem ter razão. Semelhanças com o rotativismo de há cem anos, só esta – quando uma classe, um grupo social ou uma corporação atinge o poder, muda as regras do jogo de modo a ganhar sempre. Mesmo quando parece que perde. Neste pormenor, sim: a história repete-se.

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