ROSALÍA DE CASTRO E O REXURDIMENTO GALEGO – ABRE ESSA JANELA QUE QUERO VER O MAR – por CARLOS LOURES

 

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É sempre difícil encontrar um autor que simbolize uma língua e uma literatura. Do castelhano se diz ser «a língua de Cervantes». Em Portugal hesitamos na escolha desse ícone – Fernão Lopes, Camões, Pessoa? Tendo presente o autor das Crónicas, textos onde pela primeira vez o português assume uma dimensão literária, usamos com frequência a expressão «língua de Camões», nunca esquecendo Pessoa. Na Galiza Rosalía de Castro é o escritor galego por antonomásia. Com Manuel Curros Enríquez (1881-1917), Eduardo Pondal (1835-1917) e outros, fundou o movimento galeguista do Rexurdimento galego. Com a sua obra, a nobre nação galega reencontra-se com a sua língua e, através desta, com a sua história secular. Falar de Rosalía, além de falar de um dos maiores escritores da literatura peninsular e europeia do século XIX, é falar da sua pátria. É considerada a fundadora da moderna literatura galega.

Embora tenha nascido numa modesta casa de Barreiras, Rosalía era filha de María Teresa de la Cruz de Castro, uma aristocrata proveniente da linhagem dos Castro, implantada desde a Idade Média na Galiza, pertencendo os condes de Lemos a um dos seus ramos, senhora da casa grande de Arretén; descendendo de uma das famílias mais ilustres e respeitadas da Galiza. Embora não exista documentação que o prove, segundo o indicam todas as fontes fidedignas, seu pai era o sacerdote católico José Martínez Viojo. Por isso, para a ter, a mãe se teve de refugiar em Barreiras. Foram as irmãs de seu pai, Teresa e María Josefa, que carinhosamente cuidaram dela durante os seus primeiros anos, na Casa do Castro, no lugar de Ortoño. Sendo sua mãe solteira e seu pai um padre, o nascimento da menina foi rodeado por um tremendo escândalo.

Para compreender a dimensão desse escândalo, há que ter em conta os preconceitos da época, agravados pelo facto de tudo se passar num meio provinciano, tradicionalista e fechado – uma fidalga e um padre católico gerarem clandestinamente uma criança, era, por aquele primeiro terço do século XIX, uma monstruosa enormidade, um insulto à moral instituída. Sem necessitarmos de recorrer a Freud, pode dizer-se que esta circunstância, a vergonha e o secretismo que rodearam a sua ascendência, os eufemismos com que em família se lhe tentava esconde a verdade, marcaram para sempre a maneira de ser de Rosalía e (quem sabe?) terão sido um dos motores da sua criatividade, marcada por uma sensibilidade nostálgica e por um acentuado sentimento trágico da existência.

Porém, a mãe não a abandonou, nem desistiu dela: acalmadas as bocas venenosas, ultrapassado aquele escândalo por outros acontecimentos que alimentaram a hidra de mil cabeças da curiosidade malsã pelas desditas alheias, ainda menina, foi viver com María Teresa. Desconhece-se a data precisa em que começaram a morar juntas, mas, num registo do concelho de Padrón, datado de 17 de Setembro de 1842, consta que residiam ambas naquela aldeia com uma criada de nome María Martínez. Nesta altura Teresa ia completar 38 anos e Rosalía tinha cinco anos e sete meses.

Não se sabe em que data mudaram a residência para Santiago de Compostela, sendo, no entanto, certo que em 1850 mãe e filha viviam naquela cidade. Aos onze anos começou a escrever versos, lendo, já com catorze anos, algumas dessas composições no Liceu de Santo Agostinho, em Santiago. Manifestava também inclinação para a música e para a arte dramática. Rosalía recebeu educação musical, artística e literária, participando, a partir de 1852, nas actividades do Liceo de la Juventud, associação cultural a que estavam ligados intelectuais dos movimentos galeguistas, tais como Eduardo Pondal, Aurelio Aguirre e Paz Novoa, de quem seria grande amiga. Outra grande amiga, foi a jovem Eduarda Pondal, irmã do escritor Pondal. Em Setembro de 1853, foram à festa de Nossa Senhora de la Barca, em Muxia (Corunha) e contraíram o tifo. Rosalía curou-se, mas Eduarda morreu. Foi um grande desgosto que sofreu – o primeiro de uma série que só terminaria com a morte.

Diz-se que em 1852, 53, Rosalía nutria por Aurelio Aguirre uma abrasadora paixão de adolescente. Consta que depois terá surgido um outro amor. É a vida sentimental que se pode esperar numa jovem de 16 ou 17 anos. Aurelio presidiria, em 2 de Março de 1856, no Conjo a um transgressivo banquete de confraternização entre operários e estudantes, organizado por Eduardo Pondal e Rodríguez Seoane, onde proferiu um brilhante discurso carregado de poesia e de alusões políticas. Foi neste ambiente que Rosalía, actriz amadora no grupo de teatro do Liceo, forjou as suas convicções socialistas e republicanas.

Em 1856, foi viver para Madrid, para casa de uma prima da mãe. Há quem diga que o motivo desta mudança se deveu ao desejo de poder entrar no mundo do teatro; outros biógrafos opinam que o motivo da viagem foi prosaico – uma questão judicial familiar. Começou a publicar textos em jornais e revistas. Em 1857, publicou em castelhano La flor. No jornal Ibéria saiu uma crítica elogiosa ao livro de um jovem, mas conceituado escritor galego – Manuel Murguía Martínez (1833-1923), amigo de Aurelio. Rosalía e Murguía conhecer-se-iam em Maio de 1857, na Corunha, no funeral de Aguirre, que morreu com 24 anos.

Em Outubro de 1858, contrariando a mãe, casou com Murguía, investigador, cronista e jornalista conhecido pelos seus estudos de arqueologia, história e arte (em 1906 seria eleito presidente da Real Academia Galega). Director do Arquivo Geral da Galiza, era frequentemente transferido e, assim, Rosalía teve uma vida itinerante – em 1859, o casal regressou à Galiza, onde nasceu Alejandra, a primeira filha. Em, 1861, estavam de novo em Madrid, mudando-se anos após para Lugo. Voltaram a Madrid, onde, em Dezembro de 1868, nasceu Aura. A errância profissional de Murguía, levou-os a Simancas, Corunha, Compostela, Lestrobe, Alicante… Nasceram mais filhos: Gala e Ovídio, gémeos (em Julho de 1871), Amara, em Julho de 1873, Adriano Honorato Alejandro, em Março de 1875 e falecido em Novembro do ano seguinte devido a uma queda. Em Fevereiro de 1877, nasce (morta) Valentina.

Em 1863, o marido publicou a primeira grande obra de Rosalía – Cantares Galegos. Murguía tomou a iniciativa da edição sem seu conhecimento. Ela só viu o livro depois de publicado. Diz Basílio Losada: «Seu marido, Manuel Murguía era um orientador seguro e, sem dúvida, influenciou de maneira decisiva a obra de sua esposa. Sabemos que foi ele que a encorajou a escrever em galego e que, frequentemente, corrigia os seus textos. Ele próprio, Murguía, arquivista e historiador, era por outro lado um respeitável poeta, bom conhecedor da literatura francesa da sua época, atento a todas as novidades»

A língua galega estava desde o século XV relegada para a condição de idioma rural. Neologismos castelhanos foram tomados de empréstimo e integrados, a fonética castelhana invadira a pureza do galego genuíno – o vernáculo foi-se perdendo. Pode dizer-se que a língua, na sua forma escrita, estava extinta. Os Cantares são o sinal mais luminoso do ressurgimento (rexurdimento) da cultura nacional. É considerado o primeiro livro escrito em galego. Em muitos dos poemas, Rosalía fez a recolha de cantigas tradicionais, denunciando a miséria, a pobreza, a emigração forçada a que estavam submetidos os galegos para sobreviver naqueles anos do século XIX. Rosalía é, sem sombra de dúvida, a figura cimeira do movimento galeguista. Em Portugal, Antero de Quental e Teófilo Braga saudaram com entusiasmo a publicação desta obra. No prólogo de Cantares, com modéstia, diz Rosalía: «Grande atrevemento é, sin duda, pra un probe inxenio como o que me cadrou en sorte, dar á luz un libro cuyas páxinas debían estar cheias de sol, de armonía e de aquela naturalidade que unida a unha fonda ternura, a un arrulo incesante de palabriñas mimosas e sentidas, forman a maior belleza dos nossos cantos populares».

Em 1880, saiu a colectânea Follas novas, que pode considerar-se, em parte, como uma sequência dos Cantares Galegos – alguns poemas têm evidente afinidade com a linha costumista da anterior. O restante reflecte um espírito poético de conteúdo profundo, político e metafísico, embora sempre ligado à melancólica nostalgia e às raízes telúricas que caracterizam toda a sua obra. Entretanto, publica em castelhano La flor (1857), reflexo da sua paixão por Aurelio Aguirre, A mi madre (1863), onde chora a morte da mãe, e En las orillas del Sar (1884), livro carregado de um pessimismo acentuado pelas sucessivas tragédias que Rosalía viveu até então, bem como pela doença que os partos numerosos agravaram. Editou-se o romance El caballero de las botas azules (1867), trabalhos que podem ser enquadrados no movimento Romântico que influenciava as artes por aquela época. El primer loco; outro cuento estraño (1881), parece ser um balanço do seu amor adolescente por Aurelio Aguirre.

Para além de um prodigioso talento, a escritora revelava também uma cultura apurada e um conhecimento actualizado da evolução literária. Como diz Basílio Losada, «não é correcta a visão de Rosalía como aldeã inculta que só por um milagre de sensibilidade consegue encontrar algumas fórmulas expressivas renovadoras. Rosalía recebera a cultura média de uma rapariga da burguesia provinciana do seu tempo»

Érguete, miña amiga,
que xa cantan os galos do dia! (…)-

Neste seu poema, Federico García Lorca faz alusão a uma composição de Rosalía, de Cantares Galegos, Cantan os galos: «Cantan os galos pra o dia, /érguete meu bem, e vaite/-Cómo me hei dir queridiña/cómo me hei dir e deixarte?».diz Federico García Lorca no seu poema Canzon de Cuna pra Rosalía de Castro, morta (Seis poemas galegos). De notar que o imortal poeta andaluz evoca Rosalía escrevendo em língua galega:

Galicia deitada e queda
transida de tristes herbas.
Herbas que cobren teu leito
E a negra fonte dos teus cabelos.

«Ergue-te, minha amiga» exortava Lorca, associando a coragem e a voz transgressora da escritora galega, à sorte de uma Galiza endemicamente flagelada pela fome e pela miséria – nos anos do século XIX que a Rosalía coube viver, tal como na época que calhou em sorte a Federico – e em que os abutres fascistas se preparavam para mergulhar a Espanha em terror e em sangue – a emigração constituía para os galegos a única fuga possível:

Este vaise i aquel vaise,
i todos, todos se van;
Galicia, sin homes quedas
que te poidan traballar.
Tês, en cambio, orfos i orfas
i campos de soledad;
e nais que non teñem fillos
e fillos que non tén pais.
E tês corazós que sufren
Longas ausências mortás.
Viudas de vivos e mortos
Que ninguén consolará.

Na versão portuguesa deste texto, a que chamou «Cantar de emigração», José Niza diz: «Este parte, aquele parte/e todos, todos se vão. /Galiza, ficas sem homens/ que possam cortar teu pão. /Tens em troca órfãos e orfãs /e campos de solidão/e mães que não têm filhos/filhos que não têm pais».

Neste poema de Follas Novas concentra-se o drama de uma terra que os seus filhos se vêm obrigados a abandonar. Não é por acaso que José Niza, numa época em que a miséria e a guerra colonial levavam centenas de milhares de portugueses para uma dolorosa diáspora, recupera para a sua balada, superiormente interpretada por Adriano Correia de Oliveira, estas palavras que, escritas quase um século antes, assumem uma actualidade impressionante para o Portugal da ditadura. Os emigrantes galegos, espalhados pelo mundo, mas concentrados sobretudo na América do Sul (Argentina, Cuba, Uruguai…), quotizaram-se para pagar a construção do monumento erigido, no ano de 1917, em Santiago de Compostela. Uma dívida de gratidão paga à mulher que ergueu a sua voz em defesa dos deserdados da fortuna que, para sobreviver, tiveram de abandonar terras e famílias – Érguete, miña amiga!

Rosalía viveria os últimos anos da sua vida em Iria Flavia, Padrón, onde a família alugou a «Casa de la Matanza», hoje transformada em casa-museu. A doença cancerosa no útero minava-lhe implacavelmente o corpo. O seu médico, o Dr. Roque Membiela, tentou prolongar-lhe a vida, mas era uma guerra perdida (nas dedicatórias dos seus livros que ofereceu ao clínico e ao amigo, Rosalía escrevia sempre – «da sua eterna doente»).

Morreu em 15 de Junho de 1885, com 48 anos. Pediu aos filhos que queimassem as suas obras. Uma parte delas foi destruída. Dias antes de morrer, fora a Carril com o propósito de, pela última vez, ver o mar. Já moribunda, disse a sua filha Alejandra: «Abre essa janela, que quero ver o mar». E morreu serenamente.

***

Esta evocação de Rosalía de Castro, por Carlos Loures, já tinha sido publicada no Estrolabio em 17 de Maio de 2010. Vejam em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/765533.html

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