CARTA DE VENEZA – MARÉS ALTAS, MARÉS BAIXAS – por Vanessa Castagna

carta de veneza

Finda-se o ano e é altura de fazer balanços. Descobre-se então que para Veneza o ano de 2015 foi um ano “normal” no que concerne às marés altas, tendo havido apenas sete marés acima dos 110 centímetros, concentradas nos meses de janeiro e fevereiro. Ascendem a quase 100, no entanto, as marés acima dos 80 centímetros ao longo do ano. Por outro lado, as marés baixas excecionais com mais de 50 centímetros abaixo do nível do mar – cerca de um metro abaixo dos valores normais em Veneza – nos primeiros meses de 2015 foram apenas 4; mas precisamente nestes últimos dias do ano a situação tem atingido níveis de criticidade, tanto que no dia de Natal foram tocados os 60 centímetros abaixo do nível do mar. Dizem os entendidos que a combinação de fatores favoráveis para essa situação é dada pela alta pressão, pela prolongada falta de chuva, pela fase de lua cheia e pela maré astronómica, que costuma ser muito baixa nos meses de dezembro e janeiro.

Para o turista despreocupado, a questão das marés tem algo de pitoresco e pode tornar a estadia em Veneza mais rocambolesca; porém há uma série de problemas que com ela se prendem, por exemplo no sistema dos meios de transporte urbano e na precariedade da situação higiénica da cidade. O que se destaca, agora, é que os fundos habitualmente empregues para a manutenção dos “rii” (canais) nos últimos dez anos foram direcionados ao grande sistema de barreiras conhecido como Mose, tendo como efeito a acumulação de lamas poluídas nos canais.

Em dias de extraordinária maré baixa, como os presentes, as lamas afloram nos lados do Grande Canal e de outros canais menores, revelando só uma parte das feridas da Veneza submersa: muros fendidos, margens e escadarias à beira dos canais parcialmente tombadas, tijolos e pedra de Ístria danificados pelo movimento das ondas causados pelo trânsito aquático que vai roendo os alicerces da cidade. Alguns pequenos canais ficam isolados, os barcos maiores e os táxis de água não conseguem passar, as próprias ambulâncias têm dificuldades de circulação.

Há quem lembre agora que no século XIX as marés baixas eram muito mais comuns, ao passo que as “águas altas” eram pouquíssimas: naquela altura, os canais maiores não tinham sido cavados, a laguna não tinha sido assoreada, todo o sistema hidrogeológico era diferente, até porque não existiam as fábricas do polo industrial de Porto Marghera, que tanta responsabilidade tiveram sobretudo nas décadas de 50 e 60 no desenvolvimento da cidade e na fragilização de um ecossistema e de uma cidade tão especiais. Vê-se bem que não há como voltar atrás, tudo mudou e são necessárias novas soluções, novas políticas, novas ideias para proteger esta joia do Adriático.

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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