REFLEXÕES EM TORNO DO MASSACRE DE PARIS, EM TORNO DO CINISMO DA POLÍTICA OCIDENTAL – SENADO FRANCÊS – COMISSÃO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, DEFESA E FORÇAS ARMADAS – AUDIÇÃO DE HUBERT VÉDRINE, ANTIGO MINISTRO DOS NEGÓCIOS ESTRANGEIROS, SOBRE O PROLONGAMENTO DA OPERAÇÃO CHAMMAL NO IRAQUE

Middle_East_(orthographic_projection)_svg

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Senado Francês - logo

COMPTES RENDUS DE LA COMMISSION DES AFFAIRES ETRANGERES, DE LA DEFENSE ET DES FORCES ARMEES

Debate em sessão pública sobre o prolongar da operação Chammal no Iraque – Audição de Hubert Védrine, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.

A comissão ouve Hubert Védrine, antigo ministro dos negócios estrangeiros, a propósito do debate em sessão pública sobre o prolongamento da operação Chammal no Iraque, em conformidade com o artigo 35 da Constituição.

17 de Dezembro de 2014

 1024px-Hubert_Vedrine_2006_01_06

Jean-Pierre Raffarin, presidente. – Desejo agora em meu nome e no de todos apresentar as boas-vindas ao senhor Hubert Védrine, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. Senhor ministro, preparamos a decisão que tomaremos no próximo dia 13 de Janeiro sobre o prolongamento da operação Chammal no Iraque. A sua experiência e a sua análise podem-nos ajudar na nossa decisão. Recentemente, o senhor ministro declarou que os países ocidentais eram incapazes de alterar o curso das coisas, que já não tinham “os meios das suas emoções”. Efectuamos com efeito operações pesadas e complexas, que têm fortes impactos sobre a sociedade e a mundialização. Qual é o vosso sentimento sobre estas questões?

Hubert Védrine, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. – Agradeço-os terem-me convidado. Estou neste momento sem nenhuma responsabilidade política; tento raciocinar em termos de longa duração, para compreender o desfasamento entre as políticas estrangeiras efectuadas e as reacções das opiniões públicas, sobretudo nos países que consideram ter um papel especial a desempenhar – os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha – e que reagem frequentemente a quente; sem dúvida seriam favoráveis, após a carnificina no Paquistão, a uma intervenção destinada a esmagar os talibans….

Mas raciocinemos desde a queda da União soviética – e não desde a queda do muro de Berlim -: desde o fim de 1991, o Ocidente interveio várias vezes. Os resultados destas operações são mitigados, às vezes contraproducentes, como no Iraque em 2003 ou no caso líbio, onde a intervenção, feita no entanto a pedido do Secretário-geral da Liga árabe, conduziu ao caos actual. Sendo assim, nós nunca nos perdoaremos de ter deixado cometer o massacre anunciado de Benghazi…

Recentemente a França teve razão de aceitar intervir na África. A França mantém uma capacidade militar notável, e dispõe de um sistema de decisão eficaz; poucos países estão neste caso. Muitos Estados desligaram-se progressivamente, como o Reino Unido, ainda que o voto negativo da Câmara dos Comuns sobre a Síria era primeiramente um meio para se fazer pagar pelas mentiras de Tony Blair sobre o Iraque. A ideia segundo a qual o Ocidente tem uma responsabilidade especial no mundo fica mas vai perdendo força. É uma muito longa tradição de ingerência e de intervenção que se pode fazer recuar até Jules Ferry e que se está a enfraquecer. Está fortemente presente aos Estados Unidos, nos liberal hawks democratas como nos neoconservadores. Mas as opiniões públicas interrogam-se cada vez mais frequentemente “e a seguir?” ou “têm os meios?” daí a minha declaração acima citada.

Não tiro contudo a conclusão que não podemos fazer nada. Já existe uma ingerência legal, um emprego legítimo da força, previsto ao artigo VII da Carta das Nações Unidas se todos os membros permanentes do Conselho de Segurança estiverem de acordo, que serviu para justificar a libertação do Kuwait da invasão iraquiana – intervenção tida como sendo bem sucedida e muito pouco contestada. Para parar o conflito no Kosovo, depois de dezoito meses de negociações infrutíferas, da tentativa de Rambouillet, de dois textos do Conselho de Segurança que condenavam Milosevic, ao abrigo do capítulo VII (mas que não utilizavam a fórmula: “emprego de todos os meios”), foi, na verdade, necessário resolver-se pelo recurso à força. Eu estava em desacordo em primeiro lugar; tive que me resignar. Todos os países vizinhos estavam de acordo, e os líderes sérvios estavam desiludidos com a obstinação de Milosevic. A NATO enquanto tal não decidiu nada: prestou apenas apoios militares. Os Russos, demasiado fracos, não podiam impedir coisa nenhuma mas tomaram ulteriormente este episódio como um exemplo de desprezo. Finalmente temos encontrado um compromisso mal concebido : abster-nos-íamos de destruir as pontes – o pedido em especial do presidente Chirac -, e apoiaríamos “uma autonomia substancial” do Kosovo em vez de acederem à independência, o que só foi aceite depois, por volta de 2008. Resumidamente, pôde-se agir, conforme o caso, com ou sem o Conselho de Segurança das Nações Unidas. Na ausência de acordo no Conselho de Segurança, intervir é politicamente mais arriscado. Na Síria por exemplo, a intervenção teria sido unilateral. Ter-se-ia depois sido capaz de enfraquecer o exército de Assad para o obrigar a negociar, ou ter-se-ia sido apanhado na engrenagem do compromisso? Na Líbia, o ideal teria sido impedir o massacre de Benghazi e obrigar seguidamente as partes a negociar, mas não se pode refazer a história.

Sou mais reservado a propósito do nosso compromisso no Iraque. A intervenção americana de 2003 era um erro, tanto mais que os argumentos utilizados para a justificar eram puras mentiras. Mas, sobretudo, a política que foi posta em prática depois do derrube do regime foi um erro ainda maior. Consistiu em aplicar os mesmos métodos que na Alemanha ou no Japão em 1945, partindo do princípio que uma vez a ditadura derrubada, se obtinha automaticamente a democracia! Ora é necessário tempo para construir a democracia. Se os Estados Unidos tivesse sido capaz de elaborar um plano construtivo, evitando empurrar os membros do Baas para o extremismo, teríamos sido obrigados a reconhecer posteriormente a justificação da sua intervenção. Um terceiro erro foi cometido, quando as tropas americanas partiram. Certamente, o presidente Obama tinha sido eleito tendo como missão a retirada das forças americanas. No entanto, abandonar o governo do Iraque nas mãos do Sr. Maliki, partidário de uma política chiita sectária, era um grande erro. Este encadeamento de más decisões conduziram à deterioração actual. Que lições tirar, a não ser que qualquer intervenção necessita que se reflicta com cuidado quanto aos seus objectivos, quanto às condições em que vão ser feitas, sem estar a falar já dos meios?

Quanto a Daech, era compreensível que o presidente Obama decida intervir depois das decapitações espectaculares e pôr em prática uma coligação. Graças aos drones, as forças especiais e o reforço das tropas curdas, o movimento pôde ser pouco a pouco a pouco mais ou menos refreado. Não houve batalha de Bagdad. Era racional que contribuíssemos com a nossa ajuda, envolvendo meios. Contudo, para erradicar o movimento, seria necessário uma acção militar no solo e uma solução política no Iraque e na Síria. Ora nenhum país ocidental deseja enviar tropas para combater em terra : o Congresso americano votaria contra, a Grã-Bretanha recusa-se, da mesma maneira que a França. Criar uma força a partir a partir de contingentes iraquianos chiitas, curdos e sauditas continua a ser difícil. Quanto às soluções políticas, supõem a criação de um Iraque forte onde o governo chiita respeitaria os sunitas – ora nada disto se fará sem o Irão – mas igualmente na Síria. A cabeça do sistema Daech está na Síria. Mais se se dá cabo de Daech na Síria, consolida-se, de facto, o regime Assad, porque não há nenhuma força democrática bastante forte sobre o terreno sírio.

Estamos colocados numa contradição insuperável. Sobre o plano realista, seria necessário poder aceitar cooperar mais com o Irão e resignarmo-nos a que Bachar el-Assad não caia. É certo, foram feitas alianças difíceis durante a Segunda guerra mundial: face a Hitler, os Estados Unidos aliaram-se com Estaline. Mas certas escolhas dramáticas são difíceis de assumir pelas diplomacias de opinião. A questão síria coloca-nos face a uma contradição que não sabemos gerir. Como se preocupava já Tocqueville, nas democracias, “as políticas externas são frequentemente efectuadas a partir da política interna”.

A Rússia poderia reencontrar um papel útil a desempenhar na Síria, se dissociasse os seus interesses dos do clã Assad. Ainda assim seria necessário ter anteriormente encontrado um compromisso sobre a Ucrânia, e ter reconsiderado as relações Russia/NATO, UE, etc. De momento, nenhum líder ocidental se deseja comprometer-se nesta via, excepto talvez François Hollande.

Gaëtan Gorce. – As democracias ocidentais são confrontadas com diversas contradições. A França tem interesse em prosseguir a sua intervenção no Iraque? É certo, começámos, mas é necessário ir mais além? Os militares avançam igualmente com o argumento de um dever de reciprocidade no que diz respeito aos Estados Unidos que nos apoiaram em África. Por último, participaríamos nós na luta contra o terrorismo. Este último argumento permanece contestável porque, por falta de definição política, a luta contra o terrorismo arrastar-nos-ia para uma intervenção de que não podemos medir as consequências. A prioridade é sem dúvida reflectir com algum tempo de avanço. Mantendo as nossas forças no Iraque, contribuímos para reforçar o poder do Irão na região, que terá consequências, nomeadamente, sobre a energia nuclear. É necessário igualmente prever um enfraquecimento da Turquia e a emergência de uma potência curda. Quanto à França, reencontrar-se-ia em posição subalterna em relação aos Estados Unidos, tanto sobre o plano militar como diplomático. Está-se pronto a isso?

Mme Hélène Conway-MouretUma zona de sombra envolve o compromisso das 170 sociedades de segurança americanas, que desapareceram quase todas no momento em que o governo iraquiano se constituiu. Qual é a vossa opinião sobre a face escondida da intervenção americana no Iraque?

A opinião pública é volátil. Como explica que os líderes lhes atribuam tanta atenção, quando não há houve nenhum movimento de multidão comparável às manifestações contra a guerra do Vietname, por exemplo?

Aymeri de Montesquiou. – O senhor ministro, cultiva o paradoxo: diz-nos que temos necessidade do Irão e que Assad é bem melhor que Daech, mas que é preferível não escolher… Partilho diversas das vossas interrogações. No entanto, não seria melhor defender face à opinião pública a ideia de que uma não escolha seria a pior das soluções? O Irão, não é o ideal, Assad também não, mas o inimigo principal, é Daech. E a tela de fundo, não é o conflito entre Teerão e Riade?

Sr. Jean-Pierre Raffarin, presidente. – O senhor ministro propõe fazer de Assad um objectivo de conclusão e não de partida, aí está de acordo com a linha do marechal Sissi.

Sr. Hubert Védrine. – O sistema militar americano, que dispõe no entanto de um orçamento considerável, considera às vezes menos dispendioso e menos vinculativo recorrer a sociedades privadas de segurança. Isso é a sua opção.

Sobre o peso da opinião pública, citei Tocqueville. A pergunta exigiria mais tempo. Na época da democracia instantânea, da Internet e dos blogs, os poderes públicos são ameaçados de perderem a sua capacidade de acção sobre o longo prazo, o que é, no entanto, estratégico. Este processo nocivo e condicionante atinge também a política externa no Ocidente. Para a opinião, o cenário a longo prazo não conta; reage sobre o momento que passa. Por conseguinte a França não deveria continuar envolvida no Iraque a não ser no quadro de um projecto político claro e construtivo.

Pessoalmente considero um pouco perigoso o argumento da reciprocidade Estados Unidos/França, ou Mali/Iraque; não interviemos em África para defender os nossos interesses, mas sim para lutar contra a ameaça para todos que representava uma base de retaguarda terrorista. A luta contra o terrorismo também não é um argumento suficiente. Para a ganhar seria necessário que no Islão os modernistas se impusessem face aos extremistas. Isso será assim um dia mas quando? Seria necessário também regular o problema israelo-palestino. Em contrapartida, a manutenção do nosso envolvimento justifica-se na perspectiva de uma pacificação geral a longo prazo do Médio Oriente e como membros permanentes do Conselho de segurança das Nações Unidas.

A nossa margem de manobra deveria permitir-nos permanecer empenhados precisando a nossa visão sobre o futuro do Iraque, incluindo ao mesmo tempo um cenário onde o Irão seria reintegrado no jogo internacional, um país cujo potencial é imenso. Mas deveremos ser vigilantes para obter um bom acordo sobre a energia nuclear. A Turquia deverá conservar um papel. Quanto aos Curdos do Iraque, com quem mantemos boas relações, deveríamos incentivá-los a não se mostrarem demasiado provocantes ou impacientes nas suas exigências, para não provocar a reconstituição de uma coligação dos vizinhos contra um Estado curdo. A existência do Curdistão iraquiano autónomo é já uma bela vitória! Na Síria, a eliminação completa de Daech é uma prioridade que deveria ser a primeira prioridade em vez de uma eventual eliminação do regime.

Sobre todas estas questões, defendo uma abordagem mais realista.

Jean-Pierre Raffarin, présidente – O senhor ministro defende em suma a utilização de uma política externa! É um julgamento severo. Uma missão de informação sobre o Irão deve em breve começar os seus trabalhos na nossa comissão. Recebíamo-lo para falar da nossa política de defesa; o senhor ministro respondeu-nos falando de política externa.. Obrigado, em todo caso, pelas suas análises!

Leave a Reply