FRATERNIZAR – Mensagem de paz 2016 do papa Franciscus – Como de paz, se até o título inclui 2 verbos de guerra?! – por MÁRIO DE OLIVEIRA

 

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É só para que nunca haja paz, fruto da verdade e da justiça praticadas, que o papa monarca absoluto do estado do Vaticano assina em cada novo ano uma farisaica mensagem semelhante a esta

Com o título, “Vence a indiferença, conquista a paz”, a mensagem de Franciscus, papa monarca absoluto do estado do Vaticano não engana, a não ser quantas, quantos querem ser-viver enganados. Começa, logo no título, por recorrer a dois verbos de guerra, vencer e conquistar. Depois, o primeiro dos muitos parágrafos situa-se infinitamente para lá das nuvens, longe da quotidiana realidade dos povos das nações. Eis: “Deus não é indiferente; importa-Lhe a humanidade! Deus não a abandona! Com esta minha profunda convicção, quero, no início do novo ano, formular votos de paz e bênçãos abundantes, sob o signo da esperança, para o futuro de cada homem e mulher, de cada família, povo e nação do mundo, e também dos chefes de Estado e de governo e dos responsáveis das religiões. Com efeito, não perdemos a esperança de que o ano de 2016 nos veja a todos firme e confiadamente empenhados, nos diferentes níveis, a realizar a justiça e a trabalhar pela paz. Na verdade, esta é dom de Deus e trabalho dos homens; a paz é dom de Deus, mas confiado a todos os homens e a todas as mulheres, que são chamados a realizá-lo.”

Nenhuma referência, como se vê, à realidade, dura realidade, com que, em cada instante, está confrontado este nosso mundo, a viver sob o jugo do poder financeiro, o pai de todas as guerras. Com este seu começo, o papa diz claramente ao que vem esta com este tipo de mensagem de 28 mil caracteres. Deixa expresso um rol de desejos, votos, inócuas afirmações, citações de papas que o precederam e dele próprio, numa palavra, esmaga-nos com um manancial de doutrina sem qualquer conexão com a realidade nua, crua e dura das populações e dos povos das nações, nem sequer dos povos que, por estes nossos dias, conhecem na carne os males das guerras, da fome, da miséria, das alterações climáticas, dos bombardeamentos nocturnos feitos pelos aviões da Nato-Vaticano. O que perfaz, objectivamente, uma omissão-perfídia sem perdão. Parece muito preocupado com a paz, quando na verdade, está empenhado, não na sua efectiva concretização no dia a dia das populações e dos povos, mas no real encobrimento da guerra, hoje, genocida e ecocida.

É por demais manifesto que nesta sua mensagem, o papa pretende ficar de bem com Deus e com o Diabo, como como quem diz, de bem com o Poder que promove as guerras e com os povos, eternas vítimas de todas as guerras. O Deus a que se refere, logo de entrada e, depois, explicita quase em cada linha do texto, é o Deus todo-poderoso, o Deus dos Exércitos bíblico, do Credo de Niceia-Constantinopla, da Cúria romana. Não o de Jesus Nazaré. O mais aonde vai é na repetição de palavras muito sonantes aos ouvidos das vítimas das guerras e demais males-crimes dos poderes, mas politicamente estéreis, perversas, até, como misericórdia, solidariedade, compaixão. Meros conceitos sem carne, sem qualquer realidade no terreno, como se a paz fosse fruto da repetição de palavras deste tipo, quando, como se sabe, a paz só pode ser fruto da verdade e da justiça praticadas todos os dias. Só que este tipo de mundo do poder financeiro é, ele mesmo, a negação da verdade e da justiça praticadas. Pode tolerar, e tolera, até financia a compaixão, a misericórdia, a solidariedade, feitas caridadezinha, mas odeia a verdade e a justiça praticadas. Sabe que a verdade e a justiça praticadas são o seu fim, consequentemente, o fim das guerras que ele promove dia e noite, porque delas e com elas se alimenta, enriquece, fortalece. A misericórdia de que fala insistentemente o papa é um analgésico a distribuir às vítimas das guerras, para, desse modo, dar ainda mais força às guerras.

O ano 2015, apesar das viagens do papa, das missas do papa, dos discursos do papa, das rezas do papa, foi o que se sabe, em guerras e actos de terrorismo de todo o tipo. Não é, pois, esta mensagem do papa que vai esboçar sequer um stop ao actual estado de coisas. A mensagem papal é uma cortina de fumo que contribui ainda mais para o prosseguimento das guerras, dos terrorismos de todo o tipo. Pode até dizer-se que a mensagem é, ela própria, uma outra forma mais de terrorismo, só que mascarado de paz, de compaixão, de misericórdia, de boas intenções. A teologia que lhe subjaz tem por referência um Deus que não tem mãos, que não tem coração, por mais que o papa escreva aqui que sim. É um Deus falso, mascarado de verdadeiro.

É preciso ler a mensagem na íntegra, para se acreditar. Integra-se perfeitamente nos shows mediáticos papais e nos seus gestos que surpreendem as multidões empobrecidas e oprimidas, mas, depois, deixa-as ainda mais desamparadas. Mal se apagam as luzes, a realidade fica ainda mais às escuras do que antes de cada visita do papa. E as populações e os povos muito mais desamparados. Uma crueldade global, como global é o jugo do poder financeiro, o pai de todas as guerras, como o pai de todas as Cúrias, a mais mafiosa das quais é precisamente a romana, da qual o papa é a cabeça.

O tipo de mundo em que vivemos é nuclearmente armado até dizer chega. Está estruturado de raiz para cegar os olhos das mentes-consciências das populações e dos povos, para que elas nunca cheguem a ver o hediondo estrutural e institucional em que nascem, crescem, vivem e morrem. Acontece que o papa que assina esta mensagem de paz, é simultaneamente o chefe do poderoso e omnipresente estado do Vaticano, por isso, o poder n.º 1 que dispõe dos mais potentes holofotes, especialmente direccionados às mentes-consciências das populações, súbditas dos párocos nas paróquias e dos bispos nas dioceses. Aos quais se juntam os frades e as freiras, castrados pelos votos de pobreza, obediência, castidade, totalmente impedidos de crescer de dentro para fora em liberdade, autonomia, consciência crítica, sob pena de imediata expulsão.

Basta ver quanto o papa, os bispos, os párocos, os frades, as freiras, continuam a ser temidos por todos os outros membros das igrejas, seus inferiores,. E até pelos chefes de estado, dos maiores aos mais pequenos, se querem continuar a ser reconhecidos e obedecidos pelos súbditos cidadãos. Nenhum outro estado do mundo tem a organização que o Estado do Vaticano tem, os exércitos de obreiros celibatários formatados para obedecer e dar-se sem medida aos objectivos metodicamente traçados pela Cúria romana. A planetária distribuição desta mais do que previsível mensagem para o Dia Mundial da Paz, o primeiro de cada ano, é disto exemplo. Para não falar já do impacto que têm as transmissões em directo, via rádios nacionais, locais e tvs do mundo, dos mesmíssimos rituais presididos, respectivamente, pelo papa, pelos bispos, pelos párocos.

“Vence a indiferença e conquista a paz”. Parece um título apelativo. E é, mas para a evasão-fuga da realidade concreta de guerra em que vivem os povos das nações. Os verbos utilizados no título são dois verbos de guerra, concretamente, os verbos vencer e conquistar. São dois verbos que o poder conjuga. Se vence, sempre faz súbditos os povos. Se conquista, sempre rouba os povos. Só por ironia, uma mensagem com estes dois verbos logo no título, se pode dizer de paz. A indiferença de que fala o papa começa pela Cúria romana, a que ele preside. Ele é nº 1 da indiferença, ainda que pareça o contrário. Fala muito da paz, mas é a guerra que lhe interessa.

A paz, para ser autêntica, tem de ser desarmada. Por isso tem de nascer da verdade e da justiça praticadas, duas práticas que o poder desconhece e, sempre que as encontra, mata-as. Porque, se se tornam generalizadas, derrubam-no. Não há paz, enquanto o poder, o pai de todas as guerras, não for derrubado. Não com bombas. Sim, com a verdade e a justiça praticadas pelos povos das nações. Uma realidade que o papa, chefe de estado do Vaticano não quer. Tão pouco, pode querer. Seria a sua própria implosão. E é para que tal nunca chegue a acontecer que o papa assina todos os anos uma farisaica mensagem de paz, semelhante a esta. Para sua vergonha. E para mal dos povos das nações e do próprio planeta Terra.

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