O GRITO DO COIOTE/2

 

 

Imagem1

Continuamos na companhia de Woody  Allen que nos traz uma companhia sinistra-directamente da Transilvânia o

O conde Drácula – por Woody Allen

Algures na Transilvânia, Drácula, o monstro, jaz adormecido no caixão à espera que a noite caia. Como a exposição aos raios solares lhe causariam, por certo, a morte, ele protege-se na câmara orlada a cetim, com o nome da família gravado a prata. Quando o momento da escuridão chega, através de algum instinto miraculoso, o Demónio emerge da segurança do seu esconderijo e, assumindo as abomináveis formas do morcego ou do lobo, vagueia pelos campos, bebendo o sangue das vítimas. Por fim, antes que os primeiros raios do seu arqui-inimigo, o Sol, anunciem um novo dia, regressa sem demoras à segurança do caixão escondido e dorme. O ciclo recomeça. Ei-lo que começa a mover-se. O estremecimento das pálpebras é uma resposta a um qualquer instinto remoto e inexplicável que lhe diz que o Sol está prestes a ocultar-se e que é chegada a sua hora. Esta noite, sente-se particularmente esfomeado e enquanto permanece deitado, agora completamente desperto, com a capa e o casaco de Inverno debruados a vermelho, à espera de sentir, com misteriosa percepção, o preciso momento da escuridão antes de abrir a tampa e sair, decide quais vão ser as vítimas da noite. O padeiro e a mulher, pensa de si para si. Suculentos, disponíveis e insuspeitos. Pensar no incauto casal, cuja confiança tinha cuidadosamente cultivado, excita febrilmente o seu desejo de sangue e quase não consegue aguentar os últimos segundos antes de trepar para fora do caixão em busca da presa. Subitamente apercebe-se de que o Sol se pôs. Como um anjo do Inferno, ergue-se com rapidez e, transformado num morcego, voa atabalhoadamente em direcção à casa das vítimas que longamente esperara. – Conde Drácula, que bela surpresa – diz a mulher do padeiro, abrindo a porta para o deixar entrar. (Tinha de novo assumido a forma humana, quando entrou na casa, dissimulando com charme os seus objectivos rapaces.) – O que é que o traz cá tão cedo? – pergunta o padeiro.  – A nossa combinação para jantar – responde o conde. – Espero não me ter enganado. Convidaram-me para jantar esta noite, não foi? – Sim, esta noite, mas não dá para sete horas. – Desculpe? – inquire Drácula, olhando em torno, embaraçado. – Ou veio para ver o eclipse connosco? – Eclipse? – Sim, o eclipse total de hoje. – O quê? – Alguns momentos de escuridão desde o meio-dia até dois minutos depois. Olhe pela janela. – Oh! Oh! Estou metido em trabalhos. – Hem? – E agora, se me dão licença… – O quê, conde Drácula? – Tenho de ir andando…mm… Oh, meu Deus… – Freneticamente, apalpa o puxador da porta. – Já vai? Acabou de chegar. – Sim, mas… penso que fiz mal… – Conde Drácula, está pálido. – Estou? Preciso de um pouco de ar fresco. Prazer em vê-los… – Venha. Sente-se. Vamos beber um copo. – Beber? Não, tenho de me apressar. Eh, está-me a pisar a capa. – Claro. Acalme-se. Um pouco de vinho. – Vinho? Oh!, não, deixei de beber; o fígado e todas essas coisas, sabe. Tenho mesmo de me despachar. Lembrei-me que deixei as luzes do castelo acesas; a conta vai ser enorme… – Por favor – diz o padeiro abraçando o conde com firme amizade. – Você não está a incomodar. Não faça cerimónia. Portanto veio mais cedo. – Na realidade gostava de ficar, mas há um encontro de velhos condes romenos na cidade e eu sou o responsável pelas carnes frias. – Sempre com pressa. É um mistério como não arranja um ataque de coração. – Sim, tem razão. E agora… – Estou a fazer pilaf de galinha para esta noite – badala a mulher do padeiro. – Espero que goste. – Esplêndido, esplêndido – diz o conde, sorrindo enquanto a empurra para cima da roupa suja. Então, abrindo por engano a porta do armário, entra. – Jesus, onde é que está o diabo da porta da rua? – Ah! Ah! – ri a mulher do padeiro. – Que homem divertido que é o conde. – Estava à espera que gostasse – diz Drácula, forçando um sorriso amarelo. – Agora deixem-me passar. – Enfim abre a porta da rua, mas o tempo tinha-o ultrapassado. – Oh! Olha, mamã – diz o padeiro -, o eclipse deve ter acabado. O Sol está a aparecer outra vez. – Exacto – diz Drácula, batendo com a porta da rua. – Decidi ficar. Baixem as persianas depressa, depressa! Mexam-se! – Quais persianas? – pergunta o padeiro. – Não há nenhumas, certo? Imaginem. Têm uma cave? – Não – diz a mulher afavelmente. – Estou sempre a dizer ao Jarslov para fazer uma, mas ele nunca me dá ouvidos. Sabe lá como é o Jarslov, o meu marido. – Estou a sentir-me mal. Onde é o armário? – Já fez essa, conde Drácula. E a mamã e eu achámos muita graça. – Ah, que homem divertido que é o conde. – Olhem, vou para o armário. Batam às sete e meia. – E com estas palavras o conde entra para o armário e bate com a porta. – Eh! Eh! Ele é tão engraçado, Jarslov. – Oh, conde. Saia do armário. Deixe-se de disparates. – Do interior do armário chega a voz abafada do Drácula. – Por favor, palavra de honra. Deixem-me ficar aqui. Sinto-me bem. A sério. – Conde Drácula, deixe-se de maluqueiras. Já estamos fartos de rir. – Posso garantir-lhes, adoro este armário. – Sim, mas… – Eu sei, eu sei… parece estranho, e no entanto aqui estou eu em grande. Dizia justamente, um dia destes à senhora Hess: «Dêem-me um bom armário e eu sou capaz de ficar lá dentro durante hora.» Deliciosa mulher, a senhora Hess. Gorda mas deliciosa… E agora porque é não se vão embora e discutimos isso ao pôr do Sol? Oh, Ramona la da da di da da di, Ramona… – Eis que chegam o presidente da Câmara e a mulher, Katia. Estão de passagem e decidem retribuir uma visita aos bons amigos, o padeiro e a mulher. – Olá, Jarslov. Espero que eu a Katia não incomodemos. – Claro que não, senhor presidente. Venha, conde Drácula! Temos visitas! – O conde está cá? – pergunta o presidente surpreendido. – Está e adivinhe onde – diz a mulher do padeiro. – É raro vê-lo por aí tão cedo. De facto, nem me consigo lembrar de o ter visto de dia. – Pois bem, está cá. Saia, conde Drácula! – Onde é que está? – pergunta Katia, sem saber se havia de rir ou não. – Saia agora!, vamos lá! – A mulher do padeiro começa a ficar impaciente. – Está no armário – diz o padeiro apologeticamente, – A sério? – pergunta o presidente da Câmara. – Vamos lá – diz o padeiro, trocista e bem humorado, enquanto bate na porta do armário. – Já chega. O presidente da Câmara está aqui. – Saia lá, Drácula – grita Sua Excelência -, vamos beber um copo. – Não, vão-se embora. Tenho aqui que fazer. – No armário? – Sim, não estraguem o dia por minha causa. Eu consigo ouvir o que dizem. Vou ter com vocês se tiver algo a acrescentar. Entreolharam-se e encolheram os ombros. O vinho soltou-se e todos beberam. – Um pouco de eclipse hoje – diz o presidente da Câmara, beberricando no copo. – Sim – concorda o padeiro. – Incrível. – Sim. De meter medo – diz uma voz de dentro do armário. – O quê, Drácula? – Nada, nada. Deixe. E assim o tempo passa, até que o presidente da Câmara já não suporta mais e, forçando a porta do armário, grita: – Saia lá, Drácula. Sempre pensei que você era um homem com maturidade. Pare com este disparate. A luz do dia entra, fazendo guinchar o monstro demoníaco, que lentamente se dissolve num esqueleto e depois em pó diante dos olhos das quatro pessoas presentes. Inclinando-se para o monte de cinzas brancas no chão do armário, a mulher do padeiro grita: – Isto quer dizer que cancelamos o jantar desta noite?

 

Leave a Reply