EDITORIAL – Um dia há 99 anos…

 logo editorialCom o movimento dito do «Reviralho» a provocar mortos e destruição no Porto, quase jugulada a revolta, terá sido um dos poucos dias dessas primeiras semanas de 1927 em que nada de relevante ocorreu na capital – talvez uns obuses destruindo uns edifícios, talvez umas dezenas de mortos… um dia calmo. No dia 5, através do decreto nº 12 972, o governo da Ditadura Militar instaurada em 28 de Maio de 1926, criava junto do Governo Civil de Lisboa, uma «polícia especial de informações de carácter secreto». Vinha aí a PVDE, convertida depois na tenebrosa PIDE. Os militares reaccionários e alguns civis admiradores de Mussolini, preparavam instrumentos jurídicos para «legalizar» a limpeza que se preparavam para fazer à «escumalha vermelha»-

Os partidos e movimentos cívico-políticos funcionavam ainda naquele dia calmo, com a revolta do Porto que eclodira dia 3, quase extinta. Delegações do PRP (Partido Republicano Português, Da ED Esquerda Democrática), d PRR (Partido Republicano Radical, a AR (Acção Revolucionária, do intelectualmente prestigiado «grupo da Seara Nova», do PSP (Partido Socialista Português), do PRN (Partido Republicano Nacionalista), deslocaram-se à Embaixada da Grã-Bretanha e às delegações de França e dos Estados Unidos em Lisboa,  numa acção concertada. Tinham, desde 1910, transformado Portugal no «pequeno México», impedindo o funcionamento das instituições democráticas, desencadeando revoltas «por dá cá aquela palha»; agora, perante tropa bem equipada, com  veteranos da Flandres, ao serviço dos poderosos, agora, à beira do abismo, uniam-se – a Oposição democrática contestava a legitimidade da ditadura militar para contrair um avultado empréstimo internacional avalizado pela Sociedade das Nações.

 A nova polícia secreta funcionou; de todos os signatários do documento, apenas António Sérgio e David Rodrigues, que atempadamente fugiram para o estrangeiro, escaparam a ser presos e deportados. No Porto e em Lisboa, desde o dia 3 de Janeiro, muitas centenas de mortos e milhares de feridos- Por descoordenação, o movimento desencadeou-se em Lisboa quando a rebelião estava já dominado no Porto, permitindo à Ditadura deslocar tropas do Norte para reforçar as que combatiam em Lisboa, onde , no Largo do Rato foram fuzilados todos os civis encontrados de armas nas mãos. Foi o chamado movimento do «Reviralho».

Mas o dia 9 foi calmo… e os 47 anos seguintes, também.

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