O GRITO DO COIOTE/5

 Imagem1
CONTINUAMOS COM LUIZ PACHECO. CARLOS LOURES CONTA COMO FOI

O Caso do sonâmbulo chupista, logo seguido pelos «Clandestinos».

Pacheco acusara Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», a «Aparição» de Vergílio Ferreira. A acusação dá lugar a uma acesa controvérsia. Namora ameaça-o com um processo (mais um!). Em «O caso do sonâmbulo chupista», Pacheco faz uma pormenorizada comparação entre os dois romances onde destaca o, quanto a ele, descarado plágio, «uma grande filha-de-putice», como diz numa entrevista para a televisão. Noutra entrevista a Guilherme Pereira, diz: «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura…» Acrescente-se que Pacheco abomina o neo-realismo e que, para ele, Fernando Namora é um paradigma de escritor neo-realista. Aliás, Pacheco não tem em grande conta o chamado meio literário. Numa entrevista de Guilherme Pereira diz: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. , andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.»

Em 1972, Namora lança um novo romance «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria que a editora tem na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.

– Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Com a sua egocêntrica tagarelice Lyon de Castro continua, dizendo algo que repetira já a numerosas pessoas: – Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… – por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto – Ah sim?  Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Naturalmente que se tratou de uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zanga-se com o editor e passa a ser autor da Bertrand.

 

1 Comment

  1. Acerca das revelações feitas por Luiz Pacheco sobre o eventual plágio de Fernando Namora, é de supor que Pacheco não tivesse predisposição para efectuar o confronto entre as duas obras. Aliás, o conhecido e saudoso livreiro Luís Alves Dias, da Livraria “Ler”, de Campo de Ourique, referiu-me um dia que o material tinha sido fornecido pelo próprio Vergílio Ferreira por intermédio de João Palma Ferreira, o qual, por sua vez, o cedeu a Luiz Pacheco.

Leave a Reply