O GRITO DO COIOTE/7

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Prosseguiremos nos próximos dias a homenagem a Luiz Pacheco – textos de sua autoria (ficções, entrevistas, correspondência) e textos sobre a sua vida e a sua obra, testemunhos em vídeo… Hoje  publicamos mais um conto de um grande admirador de Pacheco, de Sérgio Madeira (conto, aliás já publicado há tempos e agora revisto pelo Sérgio) – Aborda um problema científico, um mistério clássico debatido por uma assembleia altamente qualificada,  perante uma tachada de caracóis numa barraca clandestina perto da Caparica. Sábado de Outono ao entardecer…

A incomensurável dimensão do Infinito ou

O TRIÂNGULO DAS BERMUDAS por Sérgio Madeira

Estávamos a contas com uma tachada de caracóis na casa de praia do Jerónimo, o Marreco. É uma barraca construída com materiais “recuperados nas obras” – ou, numa leitura mais aprofundada, “materiais roubados”. Há um enorme cartaz no local a dizer que são arribas protegidas, a natureza, rebéu,béu… mas o Marreco, não é esquisito, e não se importou. A GNR já lá esteve e foi atendida pela esposa do Marreco, Soraia, a Mamuda, que trazia o Fábio, o Ranhoso, pendurado ao colo e fez uma cena a preceito. Está muito habituada a tratar com a autoridade, pois tem uma banca de roupas da Gucci, made in China, na Feira de Carcavelos e outra na Feira do Relógio. Gente de massa. Mercedes topo de gama e por aí fora…

Jerónimo– (lendo o jornal) – Vocês já ouviram falar no triângulo das Bermudas? –  O Marreco que anda a deitar as vistas para uma ampliação do negócio e já obrigou o pessoal a tratá-lo por «senhor doutor Jerónimo», está numa imersão total em banho de cultura – lê os suplementos do 24 Horas de fio a pavio. A Soraia, ou seja, a Zarolha (tem o globo ocular esquerdo mais saliente do que o direito), que é a companheira do Julião (o Titaúcha), entrou numa de humor – que, sim, tinha um triângulo escondido pelas bermudas, mas que isso era entre ela e o marido e que os triângulos de cada uma não eram para ali chamados, nem era conversa que se tivesse à fente de senhoras…

Jerónimo (lendo o jornal enquanto come)– Já ouviram falar no triângulo das Bermudas?

Miguel – Os caracóis estão uma maravilha, mas têm um pouco de orégãos a mais…

Jerónimo  (sem deixar de ler)– Oregos, diz-se oregos… Vocês já ouviram falar no triângulo das Bermudas?»

Soraia – Eu tenho um triângulo por baixo das bermudas, mas só o meu marido é que pode… Ora, não são conversas para ter à frente de senhoras.

Miguel quis fazer-se engraçado olhou à volta e perguntou onde é que estavam as senhoras. A minha Ema, (referida como a Jibóia quando não está presente), perguntou-lhe o que é que um tipo que pega de empurrão sabe sobre senhoras. O Delicado engoliu em seco e pediu desculpa. Pouco habituado a discriminações, comentou em voz sumida:

Miguel– “Querida, hoje estás muito homofóbica”.

Ema – Homofónica é a tua prima.

E a coisa ficou por ali, pois ela estava já a levantar a mão e não se ensaiava nada para o colocar em órbita. O tom humilde amansou-a. O Marreco foi buscar o artigo sobre o triângulo das Bermudas. Leu as tretas do costume – barcos e aviões desaparecidos, a quarta dimensão, o Einstein, a Atlântida, rebéu, béu …E a versão simples – “campos magnéticos, flatulências provocadas por bolsas de gás metano do fundo do oceano…”

Soraia riu, “a mim também me acontece essa da flutulência, mas é só quando como fritos”. O Titaúcha saiu-se com uma graça – …. “Deve ser o cheiro que fica a flutuar que provoca anormalias no ambiente – a defenestração da Amazónia e o buraco na camada de azoto”.

Miguel, o Delicado   acrescentou – E provoca hemorroidas…

Jerónimo – sem tirar os olhos do jornal – Almorródias-…

Eu, o Cegueta, disse: “o Victorino d’Almeida, no Coca-Cola Killer fala numa entrada para o triângulo das Bermudas – um urinol no Príncipe Real…” Ninguém ligou. As leituras já me valeram comparações com o Delicado que, entre outras coisas, também gosta de ler. Não fosse a Ema, o seu génio e corpanzil, servirem-me de certificado de virilidade, já tinha havido bronca.

O Marreco queria continuar a falar no Triângulo. Mas o Ranhoso, que ainda não falava, apareceu com um penico velho que encontrou nas moitas e disse “– Han- hun – han”. A Mamuda que teima que o Ranhoso já diz tudo, traduziu – “pois, amor, é uma prenda para a mamã”. E disse que era bom para pôr uma planta. O Marreco fez uma nova tentativa de voltar ao tema. Mas a minha Ema disse com ar sonhador…”São mistérios”. A Zarolha entrou na onda – “pois, o universo e isso…” e perguntou para o Marreco: “Amor, como é que se chamam aquelas saloias em madeira que comprámos em Moscovo, as que entram umas dentro das outras?

– “Fufas? – ajudou o Delicado, mas ninguém lhe deu troco.».

– Matrioskas». Disse eu.

– Isso! Pois para mim o universo é assim, uma matriposca ou uma merda dessas – uma cebola…»

Miguel – O infinito é de uma grandeza incomensurável…

O Marreco perdeu a esperança de continuar o tema do Triângulo. Com um palito entre os dentes disse para si – «descobrisse eu onde era… negócio do caraças. Barcos, aviões…» A Ema repetiu, com ar ausente, «são mistérios…» A Zarolha passou a certidão de óbito ao colóquio – «Há coisas que é melhor nem aperfundarmos!” O Titaúcha, com ar sonhador, suspirou. – Dass! Ele é cá com cada mistério! A coisa ficou por ali. Podia ter sido pior.

Eu comentei – “Estas conversas filosóficas provocam-me cãibras nos miolos…

– Câmbrias – corrigiu o Marreco.

A noite caiu e viemos cá para fora gozar o fresco. O Ranhoso adormeceu e a Zarolha começou a cantar um fado. A Mamuda e a minha Ema juntaram-se-lhe, depois o Miguel… Em breve todos cantávamos.

 

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