O ÚLTIMO JULGAMENTO – de ARTHUR KOESTLER

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Arthur_Koestler_(1969)

Arthur_Koestler_(1969) (1905 – 1983)

O gongo soou três vezes. As suas vibrações expandiram-se em esferas concêntricas através da escuridão e a voz anunciou:

– Senhores, o Último Julgamento.

Bocejando, os acusados ocuparam os seus lugares nos acanhados vagões; a pequena locomotiva rangeu e partiram. Tratava-se de um comboio do Caminho de Ferro Pictórico, que os levou por um túnel sinuoso e escuro.

Em ambas as paredes do túnel havia grutas fortemente iluminadas e isoladas por vidraças, como montras; por detrás dos vidros, engenhosos autómatos, lembrando figuras de um relógio medieval, representavam charadas referentes ao passado dos acusados. A princípio, as charadas eram de natureza embaraçante, mas inofensiva; porém, à medida que o túnel se internava, as cenas tornavam-se mais violentas e obscenas; os movimentos dos autómatos, repetindo continuamente a mesma acção, multiplicavam o horror e a vergonha. Mais adiante, as figuras começavam a perder as suas feições humanas; criaturas cabeludas e simiescas, armadas com maças, contorciam-se violentamente, fazendo caretas hediondas atrás das vidraças. No comboio, os passageiros queixavam-se e gemiam; os seus gritos, as suas respirações aceleradas enchiam o ar abafado do túnel; tentavam fechar os olhos, mas a luz brilhante das grutas penetrava através dos cílios, obrigando-os a ver.

Após algum tempo, o comboio parou e os passageiros desceram para uma plataforma fronteira a uma catedral.

Os pórticos estavam abertos e podia-se ver a Corte já reunida na outra extremidade da nave. O interior sombrio da catedral estava submerso no rumorejar do órgão. Entraram em fila indiana; a música cessou. À medida que cada acusado se adiantava pela nave central, via um numeroso público enchendo as filas de cadeirais. As nuca dos espectadores eram todas iguais, mas não era possível virar o rosto para lhes ver as caras; à medida que avançavam, o juiz e os magistrados recuavam, de maneira a que os seus rostos também não se pudessem ver.

Entretanto, o julgamento do primeiro acusado tinha começado. Era um homem ascético e magro. Estava de pé, encarando a Corte.

– Como se sente? – perguntou o juiz com uma voz terrível, que ecoou pela nave.

– Humildemente, meu senhor – disse o acusado. Mas a sua voz era tão fina que quebrou o ar sem eco e tombou lastimavelmente, de asas quebradas, sobre o mármore do chão.

– Mau eco – rugia o juiz – Mas continue.

– Ele sacrificou a sua fortuna para ajudar os pobres – disse o advogado de defesa, O seu rosto assemelhava-se ao do acusado, mas o seu corpo era mais robusto e mais firme a sua voz.

– O que foi que jantou hoje? – trovejou o juiz.

– Um copo de leite e côdea de pão, meu Senhor – respondeu o acusado.

– O Promotor ergueu-se de repente. Assemelhava-se também ao acusado; tinha uma aparência mais macilenta. A sua voz era um chicote:

– Enquanto ele se encharcava de leite e pão, uma criança morreu de fome na China! – gritou.

– Condenado – bramiu o Juiz; e o público fez eco, com vozes amedrontadas:

– Condenado, condenado.

O acusado saiu vagarosamente da catedral e, sentando-se no comboio, no lugar que anteriormente ocupara, cobriu o rosto com as mãos.

O acusado seguinte era jovial, homem simplório e rubicundo. Avançou, com o rosto brilhando e, à medida que avançava, os magistrados opostos mudavam de aparência; novamente se assemelhavam ambos ao acusado; o Defensor parecia ainda mais bonacheirão e obeso.

– O que foi que jantou hoje? – rugiu o Juiz.

Bem, meu Senhor – disse o acusado – pensamos que poderíamos ter começado com salmão fresco, pois está na sua época, e uma garrafa de vinho branco do Reno, para o manter nadando e frio.

– Chega – bradou o Juiz – O que tem a Defesa a alegar?

– Bendita digestão a dele – admitiu o Defensor honestamente, cruzando as mãos sobre o ventre. – E, já agora, qual é a acusação?

O Juiz voltou-se para a Acusação, mas o respectivo assento estava vazio.

– Absolvido por falta de acusação – rugiu, e o público repetiu alegremente:

– Absolvido, absolvido.

O acusado, curvando-se respeitosamente, saiu e foi para o seu velho assento no comboio onde depressa adormeceu.

Aproximou-se outro acusado e os magistrados transformaram-se novamente. Tratava-se de um homem de aparência arrojada e temerária. Logo que encarou a Corte, o Promotor levantou-se.

– Acuso este homem – disse, com voz suave e angélica – de assassínio, incêndio e traição.

– Confessamos com orgulho todas essas acções – gritou o Defensor – Agimos ao serviço da nossa causa.

– Nunca escutou a nossa voz a não ser quando adormecido – queixou-se o Promotor – Semeou desgraças por onde andou – choramingou, golpeando-se no peito.

– A fim de que o bem fosse colhido quando o tempo chegasse – gritou o Defensor.

– Você já viu a colheita? – berrou o Juiz.

– Ainda não – respondeu o acusado – mas…

– Acusado por falta de evidência – rugiu o Juiz; o público fez eco e o acusado, com um sorriso de provocação, saiu da Corte e voltou para o comboio.

O acusado seguinte era um homem muito velho, apoiava-se numa bengala nodosa e, à medida que avançava, o silêncio caía sobre a catedral. Estacou, com a cabeça inclinada, ignorando o que o circundava, como se estivesse escutando um som apenas audível por si; porém, o silêncio tornou-se tão profundo que os outros também o ouviram. Era um som estranho, agudo, que se erguia e morria a espaços, como se alguém estivesse afinando um velho clavicórdio.

– O que está ele a fazer? – perguntou o Juiz.

– Está a afinar o coração – disse o Defensor.

– Mas ele não tem o aparelho necessário – protestou o Juiz.

– Está a tentar afiná-lo de acordo com a tonalidade celeste – explicou o Defensor. – Quando o consegue, o seu eu expande-se e dissolve-se no espírito universal,

O Promotor ergueu-se. Era ainda mais velho do que o acusado; os seus lábios pálidos estavam torcidos num esgar de amargura e desilusão.

– Acuso este homem – disse ponderadament6e – de cumplicidade em todos os assassínios e crimes do presente, do passado e do futuro.

– Ele nunca matou uma mosca – protestou o Defensor.

– A mosca que ele não matou provocou uma epidemia de peste em toda uma região – respondeu o Promotor.

– Olhem-no e ouçam-no – murmurou o Defensor.

O velho tinha subitamente levantado a cabeça; o seu rosto iluminara-se com um sorriso de cego; o Juiz e o público apuraram a audição, mas a vibração do acorde tinha aumentado tanto que já não conseguiam saber se estavam realmente ouvindo alguma coisa ou se era apenas o silvo dos seus ouvidos.

– Condenado por existência de dúvidas – disse o Juiz; o público fez eco e o acusado, com o sorriso apagado e a cabeça de novo reclinada, manquejou vagarosamente até ao assento no comboio.

A Corte esteve reunida durante toda a noite e, acusado após acusado, veio receber o julgamento, uns tremendo, outros com simulada indiferença, alguns humildemente submissos, outros de sobrancelhas franzidas e rostos contorcidos; e apesar da voz ciciante do Promotor, o veredicto era para quase todos «condenado». Havia os que tinham sido correctos por razões erradas e os que tinham errado por razões correctas; havia os que tinham mortificado os seus corpos, mas cujas feridas de masoquistas não eram suficientemente profundas e aqueles que tinham colhido os frutos da carne, mas cujo gozo deixava muito a desejar. Alguns eram castigados por mandar, outros por obedecer; alguns por darem muito valor à vida, outros por morrerem com desprendimento pela causa errada; os doentes eram punidos pelas suas doenças e os sãos pela sua saúde.

Pronunciado o veredicto, todos voltavam aos seus lugares no comboio; e agora, o último da fila, um jovem de expressão tímida, avançou pela nave deserta para enfrentar a Corte.

– Quem é este? – rugiu o Juiz.

– Um cruzado que perdeu a sua cruz – disse o Promotor,

– Um cruzado que procura uma cruz – disse o Defensor.

– Bem, não podemos dar-lhe uma – estrondeou o Juiz. – Isso seria demasiado fácil.

– Fácil, meu Senhor – observou amargamente o Defensor. – Olhai para todo o ruidoso lastro metálico que a Acusação lhe pendurou ao pescoço.

– Tínhamos que contrabalançar a sua cabeça flutuante – respondeu o Promotor. – A Defesa tinha-lhe posto na cabeça uma quantidade excessiva de bolhas de ar.

– Ele não pôde flutuar com todo esse peso – protestou o Defensor.

– Há tempo para se flutuar e tempo para se afundar – observou o Juiz, impacientemente, pois tinha outros afazeres para aquela noite.

– A tempo ou não, a maioria dos meus clientes flutua – observou o Defensor, satisfeito.

– Só serão salvos os que se afundarem – disse o Promotor.

– Basta – disse o Juiz. Voltou-se para o acusado:

– Até que esses dois cheguem a acordo, não terás paz. A sentença é: Purgatório, para ser experimentado.

– Mas eu já estive no Purgatório – observou mansamente o jovem.

– Não tem importância – disse o Juiz – Alguns são postos à prova durante toda a vida.

– Toda a vida – fez eco o público.

– São os eternos adolescentes através dos quais a raça amadurece.

– Amadurece, amadurece, amadurece – cantou solenemente o público.

– A sessão está encerrada – disse o Juiz, e a Corte levantou-se.

– À medida que o jovem atravessava a nave em direcção ao pórtico, percebeu que não só os rostos do Promotor e do defensor, como os de todos os presente, eram moldados segundo a sua imagem. O coração contraiu-se-lhe de desespero.

– Estou sozinho? – perguntou.

E o público respondeu.

– Não há mais ninguém sob esta abóbada.

Finalmente estavam todos sentados; a locomotiva silvou e o comboio dirigiu-se ao ponto de partida. Contudo, agora as grutas estavam apagadas e o túnel acinzentado pela luz da aurora. Os passageiros dormiam. O jovem deu uma cotovelada ao vizinho.

– Que tribunal esquisito era este? – perguntou.

– Ora, era a Corte suprema – disse o vizinho. – Nunca veio aqui antes?

– Não – disse o jovem. – Volta-se para cá?

– Todas as noites – disse o outro, sonolentamente.

– E julgam-nos novamente?

– É sempre o Último Julgamento – disse o homem e adormeceu novamente.

Mas o jovem voltou a acordá-lo:

– Como é que toda esta gente volta no mesmo comboio?

– Ora, o que é que esperava? – indagou o vizinho.

– Mas uns foram condenados, outros absolvidos, alguns estão à experiência e, mesmo assim, não há nenhuma diferença?

– Acha que não há?… – perguntou o vizinho, bocejando.

– Se não há diferença, por que hei-de eu submeter-me às suas regras?

– Porque é o Último Julgamento – disse o outro, voltando a adormecer,

Após algum tempo, o comboio saiu do túnel e parou. Os passageiros espreguiçaram-se, saíram e dispersaram-se apressadamente, sem olhar para trás. A manhã era cinzenta e fria; toda a gente voltou aos seus afazeres, sem pensar que à noite se encontrariam novamente.

(Extraído do livro «Maravilhas do Conto Fantástico», organizado por Fernando Correia da Silva, Editora Cultrix, São Paulo, 1968, com adaptação à norma portuguesa)

Este conto tinha sido publicado no Estrolabio, na rubrica Insones, noctívagos & afins, a 1 de Dezembro de 201o. Veja em:

http://estrolabio.blogs.sapo.pt/631041.html

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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