A OPINIÃO DE DANIEL AARÃO REIS – PODRES ATÉ O CORAÇÃO

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Quando a revolução chinesa triunfou, em 1949, abriu-se um horizonte de esperanças. O prestígio do Exército Popular de Libertação, austero e disciplinado, suscitava admiração e respeito.

Seria, afinal, possível alcançar certos objetivos pelos quais lutaram, por décadas, milhões de chineses: a paz, a soberania nacional, o fim de um sistema corrupto até à medula, a reforma agrária, a emancipação  dos jovens e das mulheres.

Cedo, no entanto, o governo revolucionário tornou-se uma ditadura política. Em nome da unidade nacional e da defesa do Estado, as aspirações democráticas, que também faziam parte do programa revolucionário, foram eliminadas do radar. Seus defensores, marginalizados e silenciados, quando não presos ou desterrados.

A partir de 1978, a História, sempre imprevisível, mais uma vez surpreendeu: o Estado chinês deu início a uma “revolução na revolução”. Da utopia igualitarista  do maoísmo passou-se ao “socialismo com as cores da China”, que se abriu,  então, aos apetites das grandes empresas capitalistas internacionais. Improváveis alianças constituíram-se, fazendo do país uma grande potência, com peso decisivo na economia mundial. Entretanto, apesar das mudanças, permaneceu o desprezo pelos valores democráticos.

O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, até hoje tema tabu, atestou a vocação ditatorial do poder. Depois de um grande, mas fugaz, alarido,  o silêncio internacional  em torno da questão evidenciou a diversidade de interesses que se formou em torno da prosperidade do país, mesmo que para isto fora necessário pisotear qualquer referência à democracia.

A trajetória recente de três personagens é emblemática a este respeito.

O artista Ai Weiwei começou a ter problemas com o Estado em maio de 2008, quando houve um grande terremoto na província de Sichuan, provocando milhares de mortos, fruto do descaso e da corrupção das autoridades e dos empresários responsáveis por obras civis que não observaram mínimos padrões de segurança. Weiwei juntou-se a muitos que denunciaram as tramóias. Tentaram persuadi-lo com prebendas e propinas. Não funcionou. Ele preferiu fazer um cartaz onde aparece um manifestante, com o indicador em riste. Na legenda, uma frase irônica: “não há no mundo esporte de rua mais elegante do que jogar pedras numa ditadura”. O governo não gostou  e reagiu como de hábito: prisão domiciliar, alternada com períodos de tranca dura. O artista esteve nesta situação até julho de 2015, quando o deixaram sair,   convidado por uma universidade de Berlim, com uma bolsa por três anos. Terá permissão de voltar?

Chen Guangcheng é o nosso segundo personagem. Camponês de origem, cego, formou-se advogado e se lançou à luta pelo respeito aos direitos humanos, em especial à defesa das mulheres obrigadas a abortar ou a se submeter a esterilizações. Entrou na alça de mira do poder em 2011, sendo preso e torturado. Milhares de chineses postaram nas redes sociais fotos, logo censuradas, com sua marca registrada, os óculos escuros. Condenado a quatro anos e meio de prisão, foi encarcerado numa cela de 30 metros quadrados com 36 outros detentos, dormindo sobre colchões de palha. Cedendo aos protestos, o governo concedeu-lhe prisão domiciliar, mas Chen conseguiu fugir e se exilou nos Estados Unidos.

O terceiro caso tornou-se mais famoso. Trata-se de Lio Xiaobo, escritor, poeta, professor universitário, militante dos direitos humanos. Pegou uma pena de 11 anos de cadeia. A jardinagem é a única atividade permitida e a mulher só pode visitá-lo uma vez por mês, durante meia hora. Seu crime foi ter reivindicado reformas políticas e o esclarecimento das arbitrariedades praticadas em 1989 contra as liberdades democráticas. Em 2010, Lio recebeu  o prêmio Nobel da paz, provocando uma irada reação oficial. Mas ele bem o mereceu porque se trata de um pacifista. Dele disse um admirador:  “impossível ler Lio Xiaobo sem ser tocado pela sua coragem, pela verdade que o habita…só propõe o combate sem balas. Ele é uma esperança para a China, uma chance, talvez, para os próprios dirigentes que denuncia”.

São apenas três histórias, entre muitas e muitas outras.  Para nós, brasileiros,  eles têm nomes complicados, mas sua aventura humana aproxima-se de algo que, em passado recente,  aconteceu no Brasil, embora nossa sociedade  nem sempre se mostre disposta a exercitar a memória de fatos considerados desagradáveis.

Pressionados por abaixo-assinados, subscritos por intelectuais, políticos tão diferentes como Barark Obama, David Cameron, François Hollande, Nicholas Sarkozy, Dilma Russef e Vladimir Putin, se abstiveram de levantar o assunto dos prisioneiros e perseguidos com o atual e todo-poderoso líder chinês,  Xi Jinping. Alegaram razões de Estado.

Mas Chen Guangcheng, com seus olhos cegos, viu a questão de outra maneira: o problema deles, de todos eles, é que seu poder “está podre até o coração”.

 

Daniel Aarão Reis

Professor de História Contemporânea da UFF

Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

 

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