SINAIS DE FOGO – MON AMI CARLOS – por Soares Novais

sinais de fogo

Entre Dezembro de 1973 e Maio de 1974 vivi em Paris. Frequentei o Quartier Latin mas não a Sorbonne.  Não fiz Filosofia mas cruzei-me algumas vezes com Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Ali vivi sob a asa protectora de um amigo chamado Carlos.

Conto: foi o Carlos Silo que me acolheu em Paris, que então ainda vivia sobre a forte influência da Geração de 68. Era proibido proibir e todos os sonhos eram possíveis.

O Carlos Silo era filho de Beatriz e Mário Cal Brandão – um homem bom do Porto, advogado e resistente antifascista. Beatriz e Mário conheceram-se nas masmorras da PIDE, na Rua do Heroísmo. Perseguidos, presos, torturados, Beatriz e Mário Cal Brandão nunca vacilaram. Os seus nomes estão gravados no combate pela Liberdade.

(A sua casa, mesmo em frente ao edifício da Câmara Municipal de Gaia e da esquadra da PSP na Avenida da República, acolheu Mário Soares e outros conspiradores contra o regime ditatorial, vezes sem conta. Ambos participaram activamente na criação do Partido Socialista (PS) pelo qual foram deputados em várias legislaturas.)

Carlos Silo partira para França para escapar à Guerra Colonial. E eu segui-lhe os passos, uns anos  depois.  O Carlos foi um dos meus melhores amigos. Um homem bom e generoso como seu pai e como o seu tio Carlos Cal Brandão(1) que Salazar deportou para Cabo Verde e daí para Timor.

Em Paris, Carlos e eu conhecemos a cor da Liberdade. Fomos realistas e exigimos o impossível. Apenas nos faltou um amigo protector que pagasse as nossas contas e as contas das nossas amigas…

 

(1) Carlos Cal Brandão nasceu no Porto a 5 de Novembro de 1906 e licenciou-se em Direito, em Coimbra. Aderiu bem cedo aos ideais republicanos tendo sido eleito presidente do Centro Académico Republicano, para o período de 1926-1927. Com Paulo Quintela, Sílvio Lima e Vitorino Nemésio fundou o jornal Gente Nova e foi director do jornal Humanidade. Foi preso, em 1931, acusado de estar implicado na tentativa revolucionária de 26 de Agosto desse ano e foi condenado à deportação para Cabo Verde e dai para Timor. Em Timor, Carlos Cal Brandão, participou na resistência à invasão japonesa, na Segunda Guerra Mundial, ao lado  das  forças   Voltou a Portugal, em 1946, e abriu banca de advogado no Porto. Em 1949, redigiu, com o seu irmão Mário, os estatutos da União Democrática Portuguesa. Interveio em todas as comissões políticas da oposição no distrito do Porto, nomeadamente, nas candidaturas de Norton de Matos e de Humberto Delgado. Em Novembro de 1958, foi novamente detido, acusado de atentar contra o bom nome de Portugal, pois cometeu o “crime” de ser um dos advogados de Maria Ângela Vidal Campos que pretendia apresentar queixa nas Nações Unidas contra o Estado Português e contra a PIDE devido às condições em que se encontrava detida. Em 1961 foi preso de novo por ser um dos signatários do Programa para a Democratização da República. Faleceu em 31 de Janeiro de 1973.

 

 

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