«As clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo»
Quando morre um poeta todos morremos um pouco com ele. Mesmo os que nunca leram os seus livros. Todos perdemos. Mas o poeta só morre para o registo civil. No dia 2 de Janeiro de 2004 o poeta Eduardo Guerra Carneiro partiu sem se despedir. Não sabemos as razões próximas e imediatas do gesto mas há outras mais profundas que todos conhecemos: Portugal trata mal os seus artistas, os seus escritores, os seus músicos. Somos um país distraído com o superficial e não damos importância ao essencial da vida. Um poeta precisa que lhe publiquem os livros, que os leiam, que os critiquem e procurem entender. Um poeta pode morrer de solidão, de falta de companhia, de isolamento. Eduardo Guerra Carneiro era meu vizinho, todos os dias o via. Deixa um lugar vazio no restaurante Cantinho da Rosa, na pastelaria Doce Real, no quiosque do senhor Oliveira. O pais tagarela que passa mais tempo ao telemóvel do que frente a um livro, o país cinzento que perde tempo a olhar para a televisão em vez de olhar para si mesmo, o país distraído que discute mais do que pensa, foi esse país que o matou aos poucos com a sua militante indiferença. Na manhã do dia 2 de Janeiro de 2004 o poeta não reparou que, como num verso seu «as clarabóias deste lado da cidade acendem-se mais cedo». Se tivesse reparado teria comido um pastel de nata no Doce Real, teria bebido uma bica no quiosque do senhor Oliveira, teria ouvido os velhos a jogar as cartas (Trunfo é espadas? Corto eu!) e teria ficado a olhar a beleza das raparigas da Escola de Comunicação. Porque o doce do pastel, o sorriso do senhor Oliveira, a sueca dos velhos e a beleza em esplendor das estudantes são, como as clarabóias acesas, sinais de vida. Mas o poeta não reparou.
Na noite fria, no seu segundo andar, talvez tenha voltado a pensar: “Vê: é diferente o lugar. Tempo: nada. Espaço: ainda menos. O mostrador do relógio: branco …“*
Eduardo, tanto sentindo e tão pouco amado.
Eduardo que existirá enquanto dele nos lembrarmos, enquanto os seus poemas e textos continuarem a ser lidos.
Eduardo lembrado por outros momentos que não o seu último (pelo medo de o mesmo podermos sentir, pela súbita culpa de não termos estado lá).
*”È assim que se faz história”, Assírio e Alvim, 1973
Na noite fria, no seu segundo andar, talvez tenha voltado a pensar: “Vê: é diferente o lugar. Tempo: nada. Espaço: ainda menos. O mostrador do relógio: branco …“*
Eduardo, tanto sentindo e tão pouco amado.
Eduardo que existirá enquanto dele nos lembrarmos, enquanto os seus poemas e textos continuarem a ser lidos.
Eduardo lembrado por outros momentos que não o seu último (pelo medo de o mesmo podermos sentir, pela súbita culpa de não termos estado lá).
*”È assim que se faz história”, Assírio e Alvim, 1973