A IDEIA -Textos e escolhas de António Cândido Franco – CARTA (INÉDITA) DE LUIZA NETO JORGE A MANUEL DE CASTRO ANOTADA POR FERNANDO CABRAL MARTINS

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Imagem1[com envelope de Ŗpar avion/ via air mailŗ; frente: Ex.mo Sr./ Manuel de Castro/ R. Ramalho Ortigão/ 43 Ŕ 4º Frente/ Lisboa 1/ Portugal; verso:De: Luiza Neto Jorge/ 12 rue J. M. Hérédia/ Paris VII; folha de carta não datada; selos tirados e carimbos rasgados]

Paris, 20/III/68

Querido Manuel

Que é feito de ti? A tua esquisita diabetes (a tua, ou o teu?) já foi suficientemente diagnosticada?

Eu continuo em equilíbrio precário, sem me decidir a restabalecê-lo Ŗpour de bonŗ ou a desequilibrá-lo ainda mais.

Vou agora uns dias a Bruxelas para espairecer. Parto amanhã para a estrada com um amigo e voltarei também de stop. Tenho lá cama, mesa e roupa lavada à minha disposição, coisas que dificilmente se encontram.

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Já de volta, e sentada agora na esplanada do Ŗmeuŗ café, num dia chato e feriado, depois dos banquetes da Páscoa e consequente noite em claro e dores de estômago.

Tinha a tua carta à minha espera. E cá estou, é claro. Essa tua raiva contra Ŗlř écritureŗ sempre me pareceu insensata. O acto de criar parece-me a mim bastante distinto das posteriores tramóias literárias a que todos estamos sujeitos, isto é, condenados.

Isso faz-me lembrar aquelas senhoras que, sem coragem para abortarem, se rebelam depois contra os trabalhos e as responsabilidades que os filhos lhes trazem.

Falaram-me duns Cadernos de Poesia recentemente editados pela Quadrante.

Parece-me que quem está a tratar disso é a Natália; que teria já aparecido uma coisa dela, e que se seguiria 1 [uma] tradução do Michaux. Estou a pensar entregar à Natália isso que aí tens meu. Peço-te é que retenhas [?] o original, caso ele tivesse ido para a tipografia. É muito importante, porque, como sabes, não fiquei com a cópia integral. Diz-me se podes ou não encarregar-te disso: se não, direi a alguém para te telefonar e se encarregar do assunto. Vou também, entretanto, escrever ao meu irmão.

Um abraço grande

da Luiza Jorge

UMA NOTA

A data é sempre determinante, mas é-o nesta carta de um modo especial. Estamos a menos de dois meses do Maio de 68, que foi a grande revolução que ligou o polo positivo das alterações existenciais e morais, de que o movimento hippie foi um exemplo, ao polo negativo da recusa dos modos de organização segundo o modelo leninista. A revolução nos modos de vida e a impossibilidade da revolução anunciada. Tudo acompanhado de uma onda de transformações na cultura pop que atravessaram a arte e o quotidiano, os museus e as escolas, a noite e a rua, Wharol, Rauschenberg, Lennon, Dylan, Glauber, Godard. E até de uma escola crítica e filosófica, o Estruturalismo, meio inventada pelos media que a tornaram célebre, e que proclamava a morte do homem, além do nascimento da tal Ŗécritureŗ que irritava Manuel de Castro. A morte do homem tal como tinha existido até aí, entenda-se. Pelo que uma nova época emergia, aquela que durou até à bela inspiração de Tim Berners-Lee (porque, dos anos 90 para cá, as coisas mudaram, não foi?). Mas o ar do tempo aparece, com uma nitidez flagrante, naquelas frases despreocupadas com que Luiza se refere a uma ida à boleia com um amigo a Bruxelas, com volta pelo mesmo modelo. Todo o desvalimento despreocupado dos que então eram jovens, e também a noção de uma liberdade quase incrível, como se o mundo inteiro repousasse na ponta de um polegar esticado. 73

Mas vejamos o mais importante. Que já não é uma rememoração histórica nem uma circunstância geracional. É, de facto, uma realidade que ainda está presente, agora e aqui, apesar de o tempo ter passado. É uma realidade-veículo, que nos pode transportar para aquele 20 de março de 1968 melhor do que um DeLorean modificado: são os poemas do livro chamado 19 Recantos, que Luiza Neto Jorge publicou em 1969 numa editora que não cita na carta (as Iniciativas Editoriais). Esses poemas que está a escrever constituem a sua obra-prima, e é um livro de características únicas na poesia portuguesa moderna, os cantos de um Pound minimalista, de um Camões desembarcado em Paris que gostasse de cinema americano, os versos de uma música que eleva a cintilação das palavras Ŕ quer dizer, o seu sentido, os seus cambiantes, a sua eficácia Ŕ ao mais alto grau. A poesia, assim concebida, é o encapsulamento de um tempo inteiro na sua redoma, a Rosebud que rola até nós. Não há magia nenhuma, de resto. Ler um poema sobre um garfo, outro sobre um sapato na relva, outro sobre a boca sintética da Telefonia, são modos exactos de ir visitando o tempo em que foram escritos e acabar, afinal, recolocados no tempo de os estar a ler, e ambos sendo o mesmo tempo sem tempo.

19 Recantos é, então, o objecto especial que transluz nesta carta. Um exemplo da capacidade que os textos documentais e acessórios, que não são parte da obra do poeta mas estão à sua volta, têm de não desmerecer, mas antes de activar novos modos de acrescentar história ao que não passa sem ela para dela se tornar independente. É assim. Lemos: ŖEléctrico motor louco, louco navegante, máquina arborizada / a lançar faíscas pelo mundo / e sangue e seios e cílios sustentando o corpo!ŗ. E logo sabemos que alguém que acaba de escrever isto, ou o vai escrever em breve, viaja pela Europa a pé, como Rimbaud. Nem estas palavras esperam recurso da biografia, nem a biografia é outra coisa se não estas palavras bem lidas, Ŗmáquina arborizada / a lançar faíscas pelo mundoŗ, o nosso. Enquanto as palavras da língua portuguesa subsistirem à avalanche dos posts. [Fernando Cabral Martins]

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