Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
10. Compreender a finança – De que mercados financeiros temos nós necessidade?
Finance Watch, Dezembro de 2014
(CONTINUAÇÃO)
…
Perspectiva histórica: Como se passou dos investimentos às apostas, à especulação
À partida, os mercados financeiros eram estreitamente ligados à economia real e financiavam as actividades. Contudo, desde os anos 1990, esta relação desapareceu progressivamente. A desregulamentação dos mercados financeiros traduziu-se por um uso crescente do capital para fins meramente especulativos e de curto-prazo.
A) Incitações não apropriadas
O horizonte de tempo não é a única diferença entre um investimento e a especulação. Em mercados justos e transparentes a entidade financiada e o investidor encontram-se ligados, para o melhor e para o pior. O valor capturado pelo investidor provém da actividade da economia real. O investidor e a entidade financiada ganham ou perdem juntos.
A especulação é um jogo de soma nula onde o dinheiro ganho por um especulador é perdido pelo outro lado da transacção e vice versa. A especulação procura extrair benefícios do simples acto de compra e de venda de activos, tem por conseguinte necessidade de mercados secundários muito líquidos – e não é já seguramente um jogo de soma nula a partir do momento em que afecta outras pessoas e cria externalidades económicas negativas de um lado e do outro da transacção, externalidades que recaem finalmente sobre a sociedade em geral.
Encontrarão no vídeo abaixo indicado uma pequena animação realizada por Finance Watch em que se explica a ligação entre especulação sobre os produtos derivados agrícolas e a evolução dos preços (preço da energia, da alimentação, etc).
https://www.youtube.com/watch?v=MoF6Z18iXQo&feature=youtu.be
Como Keynes dizia, os mercados só podem ser eficazes no seu papel de afectação do capital às actividades mais produtivas se a grande maioria dos actores do mercado tiverem o que se chama uma perspectiva “de empresa” (chamá-los-emos de “ investidores”), em oposição a uma perspectiva “especulativa”. Na sua análise das lições da crise de 1929 provocada pela explosão de uma bolha financeira especulativa, Keynes não acusa os indivíduos ávidos de lucros e mal intencionados. Aponta antes uma estrutura de mercado que incita os atores a especular em vez de contribuírem para uma sã afectação dos recursos, do capital. É necessário por conseguinte “ajudar” os mercados financeiros a preencher a sua função essencial ao serviço da economia real, sem o que não ficaremos ao abrigo da explosão de uma próxima bolha especulativa e da crise que esta provocará.
B) A interconexão do sistema financeiro
Teoricamente, a explosão de uma bolha financeira não deveria atingir necessariamente os
C) Bancos demasiado grandes para poderem falir
O crescimento rápido dos mega-bancos foi um outro factor que esteve na origem da crise financeira. Como o descreveu muito bem James Rickards, “os emprestadores eram audazes, os corretores cúpidos, as agências de notação negligentes, os clientes ingénuos, e o governo incentivou o fiasco com objectivos irrealistas em matéria de alojamento e concedendo linhas de crédito ilimitadas à Fannie Mae e à Freddie Mac [anotação: agências quase governamentais de financiamento hipotecário dos alojamentos nos Estados Unidos]. Dito isto, o facto que haja tanto atores a acusar não deve fazer-nos esquecer que os grandes bancos são os principais responsáveis. Sem bancos para fornecer créditos aos corretores que os revendiam e que alimentavam Wall Street em activos tóxicos, nunca uma tal estrutura piramidal teria podido ser erigida. ”
Isto constitui uma das razões pelas quais Finance Watch defende uma separação das actividades bancárias (para saber mais, podem consultar o nosso primeiro processo multimédia “compreender a finança #1 – separar os megabancos? ”).

No seu livro publicado em 2007, “A idade das Turbulências”, Alan Greenspan, Presidente do Banco central dos Estados Unidos de 1987 a 2006, descreve como é difícil controlar os mercados financeiros modernos: “Os mercados tornaram-se demasiado grandes, demasiado complexos e seguem uma evolução demasiado rápida param ser apresentados a uma supervisão e uma regulamentação que data do século XX . Ainda que os reguladores pretendam ainda cumprir um papel de vigilância, somos forçados a constatar que as suas capacidades foram claramente diminuídas e que continuam ainda a diminuir. A ausência de regulamentação financeira forte permitiu aos mercados financeiros fazer coisas (como por exemplo o Trading de alta frequência) que já não somos capazes de compreender. É o propósito desenvolvido por Kevin Slavin na sua brilhante conferência TED sobre este assunto.
Até que ponto é que os mercados financeiros têm eles necessidade de liquidez » ?
A liquidez é um conceito dos mercados financeiros.
Do ponto de vista dos investidores, a liquidez está ligada à capacidade de vender rapidamente os activos financeiros que detêm (acções, obrigações,…) e de as trocar contra o numerário ou contra outros activos. Tudo isto num tempo razoável e sem impacto essencial sobre o seu preço.
Do ponto de vista dos especuladores, a liquidez é considerada como a possibilidade permanente e sine qua non de comprar e vender activos financeiros com o único objectivo de tirar um benefício máximo das flutuações de preços. Sobre um mercado essencialmente especulativo, uma liquidez excessiva conduz os atores na mesma direcção e ao mesmo tempo: todos compram ao mesmo tempo, todos vendem ao mesmo tempo. De repente, chega-se à situação oposta onde é impossível vender ou comprar, ou por outros termos chega-se a uma situação de não liquidez do mercado. Mercados demasiado dependentes de uma liquidez a curto prazo arriscam-se por conseguinte constantemente “a secarem”, como foi o caso para o mercado interbancário em 2008.
Além disso, se os investidores atribuírem demasiado importância à liquidez de um título antes de o comprarem (por exemplo, decidindo não comprar um título a não ser que esteja assegurado que o possam revender facilmente se os preços do mercado se reduzem), atribuirão menos a critérios no entanto essenciais como a análise de riscos subjacentes do activo, a sua natureza, e ainda menos aos seus objectivos sociais e ambientais antes de o comprarem.
Keynes considerava nomeadamente que o dogma da liquidez era de natureza a desviar os investidores do seu papel que é o atribuir o capital a fins produtivos. De acordo com ele, nenhuma das máximas da finança ortodoxa era “mais antissocial que o fetiche da liquidez” (para saber mais , pode ler o artigo sobre o blog de Finance Watch: “A liquidez – uma arma à duplo gume ”).
O trading de alta frequência
O desenvolvimento do Trading de alta frequência (THF) é outro exemplo das novas técnicas e estratégias que ameaçam a equidade, a ordem e a integridade dos mercados financeiros. O trading de alta frequência consiste em utilizar algoritmos e computadores para a execução de estratégias de negócio ultrarrápidas. Esta prática domina hoje numerosos mercados financeiros. Os investidores institucionais utilizam algoritmos para esconder grandes transacções, enquanto entidades especializadas em THF utilizam os seus algoritmos para encontrar e tirar lucro destas grandes transacções. As estratégias do Trading de alta frequência podem não somente prejudicar a confiança dos investidores nos mercados, mas também de os drenar e aumentar os riscos de abusos de mercado (ver “desmistificar as afirmações do lobby financeiro”, parte 2).
(continua)
________
Leia a Parte III deste texto da ONG Finance Watch, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, acedendo ao link seguinte:
________
Ver o original em:
http://www.finance-watch.org/informer/comprendre-la-finance/1142-comprendre-finance-3?lang=fr





