A IDEIA -Textos e escolhas de António Cândido Franco-MANUEL DE CASTR O – A ESPINHA ÚNICA, META FÍSICA, INSULTANTE DA POESIA-2 – por Fernando J. B. Martinho

Aideia1 Manuel de Castro me referi, no âmbito de um trabalho académico sobre a poesia portuguesa dos anos 50, situando-o num subcapítulo dedicado ao que considerei ser uma segunda geração surrealista. Ouvi, durante vários anos, falar de uma edição que estaria para sair da poesia de Manuel de Castro. Finalmente o projecto encontrou gente capaz de o concretizar, e nunca serão de mais os louvores que há a fazer, a este respeito, à Alexandria e à Língua Morta. Há um ano exactamente que, segundo pode ler-se no cólofon, Bonsoir, Madame foi impresso.

O título do primeiro livro do poeta (Paralelo W, 1958), se não considerarmos Zona, que ele próprio quis que esquecêssemos, indicia, da sua parte, uma preocupação com as suas coordenadas. Se nos lembrarmos que o paralelo é uma linha imaginária, sem dificuldade poderemos pensar que tais coordenadas, mais que do domínio da astronomia ou da geografia, são, para ele, da ordem do espiritual e da imaginação poética. Logo no texto de abertura e de que o volume retira o título, o poeta nos dá conta da sua pertença a uma determinada geração, uma geração angélica e terrível. O tempo que é o seu, vê-o ele como um tempo do fim, um tempo crepuscular. Numa das estrofes do poema, dirá mesmo: este é o tempo em que morrem os 25

Príncipes/ ao sol posto num final sereno/ e se iniciam os ritos bárbaros/ da Grande Velocidadeŗ. Num outro poema, um pouco mais à frente, será ainda mais explícito, e falará de si próprio e dos que tem por seus prñximos como os últimos dos últimosŗ. Os versos finais deste texto, de título enigmático e anagramático em forma de dedicatória (A Erc Josamu Joveŗ), lembram-nos que uma das heranças que Manuel de Castro revitaliza na sua poesia é a herança decadentista: Nñs os últimos dos últimos coroamos/ impérios e jardinsŗ. À atmosfera apocalíptica que é a de muita da poesia sua contemporânea, acrescenta o autor de Paralelo W um toque de heráldico decadentismo com os seus Príncipes, os seus impérios e os seus jardins. E também com a espera impotente da chegada dos bárbaros, reminiscente, quem sabe, de Cavafy. Não por acaso certamente há quem invoque no último número de A Ideia o nome de Camilo Pessanha. Ao visceral pessimismo, à consciência agónica e trágica de vários poetas do Grupo do Gelo, agradaria, sem dúvida, o poema inicial da Clepsydra. A essa ŖInscriçãoŗ, adaptando-a aos tempos de perdição que eram também os seus, no Portugal salazarento, sem saídas que se vissem, poderiam eles erguê-la como bandeira: ŖEu vi a luz em um país perdido./ A minha alma é lânguida e inerme./ Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!/ No chão sumir-se, como faz um verme…ŗ Um eco de Pessanha pode, precisamente, ouvir-se, por exemplo, num poema de 1964, de que se transcrevem três versos: Ŗaonde vais, meu coração perdido/ ou onde estás meu cérebro/ o quê Ŕ Indiferente?ŗ. Mas a lição libertadora de Pessanha vem-lhe sobretudo do gosto que a todo o passo deixa transparecer pelo ritmo, pela relevância que os efeitos rítmicos têm nos seus poemas. Ele é bem o continuador do grande ritmista, como Mário de Sá-Carneiro chamou a Pessanha. Veja-se só, para não irmos mais longe, o fecho de Poesias diversasŗ: Ocre/ nasce a noite dos teus dedos.ŗ Como se tudo isto não bastasse, é ainda o privilégio concedido pelos simbolistas ao termo raro que uma vez por outra o fascina: ŖA poesia exige um corpo predisposto/ a movimentos helépticos, e helicoidais.

 

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