Regresso às águas (turvas) de Colónia – Passando pela Síria e pela Suécia – por Olivier Prévôt

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Regresso às águas (turvas) de Colónia – Passando pela Síria e pela Suécia

Olivier Prévôt, Revista Causeur, 8 de Fevereiro de 2016

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Se os acontecimentos da Véspera de Ano Novo tiveram uma repercussão tão grande na Europa, não foi tanto devido à gravidade dos factos, mas sobretudo à tentativa de dissimulação  pública.

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*Photo : SIPA.AP21853579_000036

 

Da Síria…

Recordo-me ainda do ar de espanto do tipo do guichet . Ou mais exactamente, de sua maneira delicada de dissimular o seu espanto . Tinha-lhe dado uma nota de 50 libras. Tinha chamado um jovem para lhe arranjar o troco. Na época, 50 libras sírias , era uma grossa soma. Tive que esperar pelo troco um ou dois minutos e lancei um olhar inquieto à minha volta. Ninguém parecia estar a observar-me. No entanto, nesse momento preciso, senti que efectivamente vestia uma bermudas aos quadrados e uma camisa branca, que a minha pele clara estava rosada pelo sol deste fim de verão no Médio Oriente. De pé, em frente da pequena guarita em contraplacado branco que fazia o serviço de balcão, tinha um corpo. O ambiente silencioso recordava-mo bem.

Quando entrei no cinema, o contraste entre a luz violenta do exterior e a obscuridade da sala cegou-me. Ia tropeçando num degrau. Um tipo levantou-se, pegou-me pelo meu antebraço e dirigiu-me até à ala central. Duas pessoas muito jovens, extremamente entusiastas, substituíram o meu guia anterior e ofereceram-me um lugar. Entre eles dois. No momento em que ia sentar-me, um colosso com bigode emerge do escuro e “de lé, lé, lé, não, não,não não) conduziu-me com autoridade até um outro lugar, mais basicamente, de lado. . Fez-me um grande sorriso, sentou-se ao meu lado e ofereceu-me metade do seu chawarma. Declinei. Insistiu. Obedeci e, com um sorriso educado, agradeci-lhe. Deu-me uma pequena palmada amigável sobre o meu joelho nu e com o queixo designou o ecrã. Tinha mãos de boxeur. De chui, sem dúvida.

Passava-se um filme egípcio dos anos 60. A sala divertia-se com muito à-vontade das caretas do pai de família e das lamentações histéricas da sua esposa. Por momentos, o meu vizinho batia nos meus joelhos, e quando o interrogava com o olhar, designava de novo o ecrã com um ar de muito interessado. A terceira vez, libertei-me ligeiramente deste gesto amigável e perguntou-me “Meshkoulé?” e respondi que não, não houve nenhum problema. Na Síria, é necessário saber evitar. Ao ouvido, muito perto – senti o seu bigode – disse-me algo que não compreendi, e virei a cabeça.

De repente, o som parou-se, e as imagens no ecrã apareceram a cores . Tive dificuldade em compreender o que estava a fazer no meio de um filme que se desenrolava ao Cairo, esta praia do Norte com estas duas loirinhas inteiramente nuas que rodeavam um bonito desportista visivelmente deleitado. Tínhamos passado do Egipto de Nasser à Suécia dos anos 70 e à sua pornografia mais ou menos delicada. Para evitar a censura, tinham-na ligado à película dentro de outra bobine.

O meu vizinho passou, sem nenhum embaraço , o seu braço em redor do meu ombro, seguidamente, de um gesto preciso, abriu um botão da minha camisa e acariciou o meu dorso. Eu estava imóvel, rígido. Estupefacção. Estupefacto. Um outro tipo com ar de contente sentou-se à minha esquerda. Da fila de trás nós mim senti igualmente uma mão desconhecida passar a mão pelas minhas costas . A minha camisa estava cada vez mais e mais aberta. E começava-se a testar a elasticidade da cintura das minhas bermudas.

A minha vontade de conhecer a verdadeira vida dos verdadeiros Sírios tinha feito uma viragem totalmente inesperada. Devo ter assumido um ar relativamente intrépido e lembro o olhar ausente do empregado que me vendeu o bilhete – como um sinal que não tinha entendido. Saí da minha estupefacção . De um salto, levantei-me, e corri até uma porta. Saído a correr , é na ruazinha que apertei a minha camisa e as minhas bermudas. A velha que vendia tabaco em grandes sacos acenou-me com um movimento da cabeça. Sorri-lhe. E calcurriei novamente as ruas de Alepo, muito digno nas minhas bermudas aos quadrados, mas ligeiramente mais inteirado sobre o que poderia significar para os meus hóspedes a visita a uma padaria, a um hangar agrícola ou a um escritório da autoridade militar (“Simples controlo, meu jovem ”).

Foi há vinte e cinco anos, num país que já não existe. Desde aí, as mãos atrevidas entretanto armaram-se de facas e já não acariciam as nossas ingenuidades perdidas. É desta nostalgia que falo.

à Alemanha…

Primeiro, não se passou nada em 31 de Dezembro de 2015. Nem em Colónia, nem em Estugarda, nem em Estocolmo, nem em Malmö, nem em Helsínquia. Durante seis dias. E seguidamente não se sabia quem tinha feito aquilo. E seguidamente admitiu-se que migrantes podiam estar implicados. Depois, retomou-se em coro a hipótese de uma conspiração – Daech? Os traficantes de droga? Por último, foi mesmo necessário dizer-se: teria acontecido alguma coisa, tinha muito simplesmente acontecido – uma erupção de desejo, um carnaval de apalpadelas colectivamente, (que digo eu?) em hordas. O patronato desejava repovoar a Europa do Norte? Pois bem, os corajosos rapazes passaram aos trabalhos práticos. Nem FIV, nem GPA, mas das braguilhas e com as mãos ligeiramente teimosas. Depois de tudo, o método também já fez as suas provas, e a sangria que os governos alemão e sueco praticaram sobre o povo sírio encontrará talvez um dia o seu Nicolas Poussin. Imagino efectivamente o rapto dos Sírios, com ao alto a figura tutelar de Angela e, por baixo estes jovens, pobres e vigorosos…

Mas não chegámos aqui. De momento, Ingrid testemunha, o seu amigo Karl lamenta. Enquanto que uma era sujeita às apalpadelas de ancas ao mesmo tempo enquanto que urrava “Bom ano” aos quatro ventos, o outro protestava. Vigorosamente diz-se. É mesmo um milagre não lhe terem posto as mãos em cima. Aconteceu assim um azar e muito rapidamente. E este bom Karl põe uma mão terna sobre o ombro da sua namorada, consolador na sua ausência de ter sido protector. Depois desta terrível prova, os dois namorados encontrarão eles uma vida normal? Sente-se a sua necessidade de apoio.

até à Suécia

Pelo lado dos democrata-suecos (populistas), exulta-se evidentemente à maneira de “efectivamente nós bem tínhamos avisado ”. À esquerda, encontrou-se rapidamente a justificação. Para as feministas, os acontecimentos de Colónia (e de resto: Malmö, Kalmar…) mostram a extensão do problema masculino e não de uma qualquer questão relacionada com a imigração. “Se se tivesse tratado de mulheres migrantes, o problema não teria existido” foi o que se chegou mesmo a dizer no diário norueguês Aftenposten – o que recordará aos mais gauleses de entre nós este velho ditado “se a minha tia tivesse…”. Tal é a força da crença sobre a opinião que se pode ter : todos os desmentidos do real reforçam uma em detrimento da outra. A crença é um protesto que não se ouve nem se cala, nem se escuta. A crença, esta dura.

No entanto, a catástrofe acabou por se dar . E assumiu uma amplitude mundial. A imprensa sueca (Expressen, et Dagens Nyheter) revela a 10 de Janeiro que cerca de cento e cinquenta jovens raparigas, muito jovens mesmo, foram atacadas sexualmente em agosto de 2015 por refugiados afegãos. A máquina ideológica teria podido perfeitamente encaixar um tal choque. O governo sueco teria lamentado tais actos (o que se apressou a fazer seis meses depois dos factos), a esquerda feminista teria podido ver aí uma nova prova da necessidade de educar e reabilitar os homens jovens. Mas há aqui uma coisa mais: a polícia abafou os factos, dissuadindo as jovens raparigas de apresentarem queixa contra indivíduos que não teriam podido identificar, depois evitando dar conhecimento público do que se passou.

Num país onde se leva a transparência até ao ponto de não colocar cortinados nas janelas, uma similar dissimulação pública só poderia escandalizar o cidadão. Também a polícia se esforçou por explicar o seu silêncio. Apresento-vos em versão original porque o cartaz parece demasiado bonito para ser verdadeiro: Peter Ågren, chefe da polícia do distrito de Södermalm (Estocolmo) não queria dar aos democrata-suecos “em tjeneste” – não lhes queria fazer um favor ou, por outras palavras: não queria fazer o jogo dos populistas democratas-suecos… O verdadeiro problema, para um polícia sueco graduado, não era que uma pequena rapariga (a mais nova das jovens tinha 11 anos!) sofresse apalpadelas mas sim que a divulgação disso mesmo fizesse o jogo da extrema direita.

A confissão é de uma ingenuidade espantosa. Com efeito, na confrontação que opõe a Europa do salve-se quem puder à Europa torre de Babel, a questão é desde há muito tempo “quem é que anda a delirar?” O campo dos partidários da imigração podia bem acomodar-se à ideia que, desde os atentados cegos às violações em colectivo, já não é só a extrema direita que delira, mas também “alguns indivíduos surgidos da imigração”. “Nada de amálgama” um slogan que chegaria para manter os diques e garantir o monopólio da razão aos que tinham também o monopólio da violência legal (e que só a utilizavam com parcimónia). Mas se um chefe da polícia vier cobrir a violação de uma rapariga por paixão odiosa contra os seus compatriotas maus-eleitores, então tudo desaba e o delírio, aos olhos da opinião pública, muda de campo

Se os acontecimentos da Véspera de Ano Novo tiverem uma tal repercussão na Europa ( só se falaria dos mártires franceses de 2015), não é tanto devido à gravidade dos factos – morre-se muito raramente de apalpadelas, tem-se mesmo desejo de o lembrar- nem igualmente do que revelam as pulsões de conquistadores machos e destruidores. Não. O dramático de tudo isto vem do resto. Na próxima vez que uma Angela Merkel evocar “o coração seco” dos seus opositores, o pai de família que a ouvir de um ouvido distraído a pôr a mesa da consoada poderá muito tranquilamente dizer em volta alta : “É completamente louca, aquela.” E aí, certamente, tudo se tornará possível.

Olivier Prévôt, Revista Causeur, Retour dans les eaux (troubles) de Cologne – En passant par la Syrie et la Suède. Texto disponível em :

http://www.causeur.fr/cologne-viols-amalgame-36621.html

 

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