A IDEIA -textos e escolhas de António Cândido Franco -NA SENDA DE RAUL LEAL, PROFETA DO INFINITO-1-por Manuela Parreira da Silva

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O incompreendido, o rebelde, o ultrafuturista: qualquer destes termos ou cognomes assentaria bem à personalidade estranha e heterodoxa de Raul Leal (1886-1964).

É a incompreensão que está, porventura, na base da pouca atenção que tem sido dada à sua obra  obra multifacetada de contista, poeta, ensaísta, crítico musical e de artes plásticas, jornalista, sociólogo, filósofo  e que torna essa obra um corpo anómalo para os poucos que a ela acedem. É uma incompreensão que resulta, em grande parte, dos temas tratados, que remetem sempre, em última instância, para uma concepção filosófica muito particular, de matriz metafísica e esotérica, mas também do estilo de escrita de Raul Leal. O seu discurso é repetitivo, denso, imbrincado, pouco fluente e, no entanto, torrencial. A corrente contínua, e por vezes mesmo delirante, do seu pensamento dificilmente encontra a expressão adequada à clareza da leitura. Acresce que muitos dos seus textos literários (sobretudo os poemas) são escritos em francês.

O Incompreendido é precisamente o título de uma sua peça de teatro, subintitulada drama psicopatológico em 3 actos e 4 quadros, escrita em 1910, e publicada na íntegra (dois excertos surgiram na revista presença, nos números 23 e 25, respectivamente em 1929 e 1930), apenas em 1960, repartida pelos números 15, 16, 19 e 20 de Tempo Presente. É, por assim dizer, uma peça irrepresentável, de longuíssimas tiradas, onde apenas parece interessar a transmissão das teorias do protagonista, Jorge de Melo (Vilar). De resto, na advertência final, Raul Leal deixa claro que a quarta cena do segundo acto (melhorado em 1913, conforme esclarece) constitui como que um pequeno tratado de filosofia fortemente dramatizado (1), assumindo também que a filosofia aí exposta esboça já com veemência a [sua] própria filosofia  Vertiginismo Transcendente, embora não lhe dê ainda o carácter fortemente teocrático (Paracletiano) que viria a tomar mais tarde, por volta de 1916-1917. Jorge é, pois, o auto-retrato de um Raul Leal-enquanto-jovem-filósofo. Nesta peça exponho em grande parte e interpreto emocionantemente a minha angustiosa vida de adolescente sonhador, fazendo de mim próprio, bem auto-introspeccionado, uma profunda psicanálise, com um certo carácter surrealista e existencialista, muito antes de terem aparecido essas tendências no mundoŗ (2), escreve o autor. E diagnostica em Jorge (e, portanto, em si próprio) um caso de transcendente paranóia megalómana, tornada cósmica pela sua excessividade delirante (3).

 

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