O SINAL É PÉSSIMO por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

O sinal é péssimo.

São gritos de socorro vindos do mar. É uma ambulância que chega e encontra uma mulher em estado quase de hipotermia e que pede que lhe salvem as filhas. Apenas foi encontrada a filha mais pequena, a outra continua desaparecida. Neste momento esta mulher está em prisão preventiva.

Não parece que seja a melhor opção, ela deveria estar a ser tratada, ninguém que esteja bem com o mundo e consigo mesmo, seria capaz de tal desespero.

O sofrimento psicológico ultrapassa todas as barreiras de auto controlo, do medo da sanção social.

Esta mãe, como todas as mães, desenvolveu laços afectivos, de vinculação com as suas filhas que não são desfeitos com facilidade. O que ela mais quer é manter esse vínculo, mas qua ninguém faça mal às suas meninas. Ela não aguenta mais a vida que tem, divórcio litigioso e dificuldades económicas.

Nada justifica o acto em si, mas muita coisa o poderá explicar.

O sofrimento  para ela não acabou, agora, deve ser insuportável, pois está sem as suas meninas,

Está mais sozinha do que nunca.

Acredito que esse mal estar emocional ultrapasse o portão da cadeia, o seu ser deve estar feito de desespero.

Tudo o que se tem dito na comunicação social é contra natura, uma mulher não dá vida, não tem filhos, para depois ficar sem eles.

Já lemos nos jornais muitos casos semelhantes e, em todos, se percebe que estas mães querem retirar o sofrimento aos seus filhos.

O processo psicológico destas mulheres não acontece de um dia para o outro, vai-se revelando através de pequenas frases e gestos que adivinham já uma mente perturbada. Como travar este processo?

A nossa sociedade, cada vez mais, quer separar o espaço privado do espaço público. A nossa sociedade é capaz de actos de solidariedade surpreendentes…mas também é capaz de alguma indiferença relativamente a casos como estes.

As crianças já estavam sinalizadas, e por isso já todos podiam dormir descansados. A mãe está mal, pois…

É difícil ser ou dizer que se deve ser solidário com quem sofre o que nem o corpo nem a mente já comportam.

Ninguém pode ser juiz em causa própria, esta mãe quis pôr alguma ordem no sofrimento, não quis mais sofrimento para as suas filhas.

As instituições, as pessoas deixaram esta mulher sozinha no meio da desordem.

Não podemos ter medo ou encolher os ombros quando algo de suspeito se passa à nossa volta.

As instituições e a sociedade não sabem, ainda, proteger as suas crianças.

Há crianças que morrem, há crianças que vivem, sobrevivem no caos familiar, há crianças que são traídas em Tribunal. Aqui o espaço privado já não interessa.

O sinal é péssimo.

Quem estamos a proteger?

Quem manda e quem explora afectivamente os filhos?

Onde está a defesa do Superior Interesse da Criança?

Onde estão salvaguardados os Direitos Humanos?

Uma criança quando nasce, nasce para crescer.

Uma mulher quando é mãe, é mãe para alimentar o seu filho de afecto, para lhe dar a capacidade de sonhar e de criar.

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