Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Hoje, A Itália. Amanhã se verá quem se segue
5. Salva Banche: a ministra Boschi, o papá e o caso Etruria
Andrea Scanzi, Salva banche: la Boschi, il papà e il caso Banca Etruria
Il Fatto Quotidiano.it, 11 de Dezembro de 2016

Ontem, apresentando o livro de Vespa, a ministra Maria Elena Boschi disse que o seu pai é uma pessoa de bem, uma pessoa respeitável e que o banco Etruria não recebeu nenhum favoritismo (do seu) governo. Tomo conhecimento e não há problema em acreditar. Certo, talvez tivesse sido bonito que ontem Boschi tivesse preferido ao livro de Vespa a sua cidade, nestes dias devastada pelo caso Banco Etruria, mas compreendo que depois de ter oferecido a cidade, em Junho, ao centrodireita, impondo um candidato desmedidamente fraco e depois do seu governo (e “o seu” banco) terem contribuído para lançar na miséria milhares de cidadãos, Arezzo não seja a primeira cidade que lhe venha à cabeça. Com efeito, em Arezzo, ontem havia Salvini. E Boschi não.
É muito provável que, em face do desastre agora declarado, o governo Renzi não pudesse fazer outra coisa mais do que antecipar o resgate para antes de Janeiro de 2016, neste caso para o dia 22 de Novembro passado. Os prejuízos estavam já feitos, muito antes mesmo. Com os controlos omissos, com os conflitos de interesses, com os favores aos habitualmente conhecidos. Com as regras em curso a serem modificadas, com a atitude de Bankitalia, com a de Consob. Com uma congregação de gente (muitíssimo bem paga) que deram origem a mais prejuízos que o granizo. Mas já agora: mas a ministra Boschi não sabia realmente nada disto?
Dos quatro BAD banks “salvos”, o Banco Etruria sempre pareceu mais um banco que os outros todos. Tenho-o dito e repeti-o ontem em Piazzapulita e reafirmo-o hoje também.
De 2011 até à Comissão Extraordinária de gestão de 11 de Fevereiro de 2015, o papá Pierluigi fazia parte da direcção de Etruria. Logo que a filha, Maria Elena Boschi, se tornou ministra, o papá torna-se Vice-Presidente de Banca. Não apenas isto: a ministra é accionista e o irmão é empregado. Conflitos de interesses como se estes chovessem. O Banco Etruria fica gerido por uma Comissão em Fevereiro de 2015, com um buraco de 3 mil milhões, ou seja seis vezes o seu património líquido, mas as obrigações subordinadas continuam ainda a serem vendidas aos ignorantes e inocentes aforradores (que o governo Renzi quer agora fazer passar por “especuladores”). Bankitalia, constatando “as fortes e crescentes criticas” e uma situação desastrosa, prescreve multas no montante de 2,5 milhões de euros à direcção do Banco. Inflige-se mesmo uma multa de 144 mil euros ao pai da ministra Pierluigi Boschi. Porquê? “Ausência de organização e de controlos internos, gestão deficiente e não controlo do crédito, violações em matéria de transparência, emitidas sinalizações inexactas”. Praticamente não fizeram nada do que deviam fazer: pelo contrário, fizeram exactamente o contrario. Pode ser uma pessoa de “bem”, como diz a sua filha, mas que verosimilmente se enganou no seu trabalho.
O banco Etruria sobre o qual Trabaglio disse: tornamo-nos mais etruscos graças a um banco popular, do qual o pai da ministra Boschi é Vice-Presidente. Pierluigi e Maria Elena Boschi é um caso de nepotismo ao contrário: em vez da filha de papá, temos o papá de filha. Banco Etruria é um antro de católicos e franco-maçons com sede em Arezzo, onde nasceu a ministra Boschi, que é uma verdadeira accionista como o pai e o irmão Emanuele, que é mesmo funcionário, e era um banco morto já muito antes da nomeação da Comissão de Gestão. No entanto continuava-se a gastar cerca de 15 milhões de euros por ano “em consultas” externas. Os líderes tinham inventado mesmo uma lei ad hoc pela qual era suficiente uma assinatura para emprestar dinheiro aos amigos dos amigos: empréstimos que, evidentemente, nunca terão sido reembolsados. Contudo, quando há dois anos atrás, o presidente de então, Fornasari, aumentou o capital em 100 milhões dizendo aos sócios que comprem acções a 60 cêntimos cada uma, ele tranquilizou-os, dizendo-lhes que o banco era coeso e que “o Etruria é o banco popular mais forte do centro de Itália a”. O nível geral era este.
Há ainda um outro aspecto. No final de Outubro de 2014 a Janeiro de 2015, verificaram-se alguns estranhos movimentos nos bancos populares. Em toda a região da Etruria. O banco está em crise, mas muitas pessoas põem-se a comprar acções convencidos que até Março estas acções irão valer muito mais. Porquê? Não se consegue saber, mas podemos pressupor . Na tarde de 20 de Janeiro de 2015, em menos de duas horas, o governo de Renzi – por decreto – transforma os bancos populares com pelo menos 8 milhares de milhões de activos em Spa. Quem ganha mais? Pense um pouco: Banco Etruria, que regista em bolsa uma subida anual de (+62,5%), a melhor do ano.
Boschi, durante o Conselho de Ministros que lançou rapidamente o decreto, não estava. Estava ausente. Mas isto não é suficiente talvez para se deixar de falar de conflito de interesses. Ah: uma grande parte destas mais-valias ganhas pela especulação mágica farão pois supor casos de “ informação privilegiada”, como acontecia em Londres. Em Londres, completamente de forma fortuita está também Davide Serra, conhecido financeiro e amigo de Renzi com o seu fundo Algebris. Serra declarou seguidamente que nunca comprara acções Banco Etruria, mas disse, isso sim, que adquiriu muito antes – no início de 2014 – acções do Banco Popular, salvo que as vendeu depois, uns dias antes da publicação do decreto. E não perdeu pouco com essa operação (adquiridos os títulos a 13.76, foram depois vendidos a 9.72). Não é obrigado a fazê-lo mas seria interessante saber a quem as vendeu.
Andrea Scanzi, Jornal IlFattoQuotidiano.it, Salva banche: la Boschi, il papà e il caso Banca Etruria. Texto disponível em:



