EDITORIAL –  O FUTURO SERÁ DO POPULISMO?

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A política mundial conheceu uma evolução (alguns preferem chamar-lhe involução) muito acentuada nos últimos anos, como toda a gente geralmente concorda. Sobre as razões, facetas e sequelas dessa evolução (usemos este termo por comodidade) é que há discordâncias significativas. O aparecimento e predomínio de correntes políticas ligadas ao que se convenciona chamar de extrema direita em países onde a democracia se tem considerado como implantada, é sem dúvida um aspecto muito relevante. Para alguns é incompreensível a ascensão na vida política de figuras como Donald Trump ou Marine Le Pen. A aparição de governos com tendências no mesmo sentido em países da Europa de leste, é explicada por vezes como uma reacção ao passado recente, em que viveram sob a égide da URSS. Haverá alguma razão nesta ideia, mas ela só por si não explica tudo.

Os fenómenos políticos que dominaram a vida dos povos nos últimos anos assentam em relações, laços, cumplicidades e maneiras de entender e interpretar os acontecimentos públicos e privados, muitos dos quais não são detectados pelo grande público, ou quando o são, dificilmente são compreendidos em todas as suas implicações. Há razões fortes que poderão explicar parte desse desfasamento, mas requerem uma explicação muito profunda. Veja-se o que se passou com a crise financeira que rebentou em 2008 e afectou a vida das pessoas por quase todo o mundo: um dos aspectos mais gravosos foi o do resgate de bancos, para o que foi necessário mobilizar grandes verbas, que obviamente pesaram muito nos orçamentos públicos de muitos países. Entretanto, simultaneamente foram feitos cortes em pensões e salários, assim como  privatizações de bens e serviços públicos mais rentáveis, supostamente para  encontrar meios para equilibrar aqueles orçamentos, invocando-se também a superioridade da gestão privada sobre a pública. A evolução política está muito condicionada pelo espectro de novas crises, e pelo medo do futuro que se abateu sobre as pessoas individuais, com grandes repercussões na vida colectiva.

Dirigentes que seguem as linhas do que habitualmente se chama o populismo, falando com as pessoas através de uma linguagem directa (perdoem este eufemismo) e atacando alvos a que atribuem, com razão ou sem ela, as responsabilidades pelo está a acontecer, têm assim o caminho aberto. Às vezes até dizem  grandes verdades, mas a prática mostra que quando chegam ao poder não têm soluções para os problemas que dizem querer atacar, quando não mostram mesmo que os seus princípios e interesses são completamente diversos.  Em qualquer país são uma ameaça e mais ainda quando chegam ao governo em países poderosos. A história mostra-o bem. O mais grave é que normalmente escondem a raiz dos problemas, sob um conjunto de promessas em que as pessoas vulnerabilizadas pelo medo do futuro estão mais receptivas a aceitar.

Propomos que, clicando nestes links, acedam a dois textos que dão elementos sobre o que se vai passando nos Estados Unidos:

http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/feb/24/donald-trump-victory-nevada-caucus-voter-anger

https://en.wikipedia.org/wiki/Inside_the_Beltway

 

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