A CANETA MÁGICA – DAVID MOURÃO-FERREIRA – por Carlos Loures

caneta1David Mourão-Ferreira nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927. Teria feito ontem 89 anos.  Quando escrevo sobre David Mourão-Ferreira, advirto sempre que um escritor com numerosos estudos e  teses académicas sobre a sua obra, não seria um texto meu que iria contribuir para que não seja esquecido, risco, aliás, que não corre, pois até entre o público não literato, é famoso – a sua letra para a Maria Lisboa  de Alain Oulman , com as interpretações de Amália e Mariza, até no Japão é cantado por fadistas nipónicos. Aliás, o fado criou raízes ali, onde dizem que o Sol nasce. Ouçamos a fadista Yoko no conhecido fado-canção.

 A qualidade da sua poesia é, portanto um dado adquirido. Há um pormenor, que me leva a escrever sobre ele, a voltar uns anos atrás e ir ao encontro da recordação que dele conservo – um pormenor chamado amizade.

Embora tenha sido director do Serviço de Bibliotecas da Fundação Gulbenkian, onde trabalhei durante dez anos, não nos cruzámos ali, pois saí em 1971, quando o director era ainda Branquinho da Fonseca. Conhecera-o na Faculdade de Letras, estivera com ele em reuniões da Associação Portuguesa de Escritores – uma relação cordial, mas formal.

Quando, em 1985, na Salamandra, a editora dirigida pelo Bruno da Ponte, foi editado o primeiro romance da trilogia 1968, Talvez um Grito, dado que ele fizera parte do júri que o distinguira, fui à Gulbenkian pedir-lhe que fizesse a apresentação que seria no Solar do Vinho do Porto – imediatamente se disponibolizou, sem qualquer espécie de hesitação. Fez uma apresentação magnífica, que tenho gravada em vídeo, mas, malhas que o mercado tece, num standard que já se não usa, o Beta, e não sei se a conseguirei recuperar. Leu da maneira expressiva que o caracterizava, e valorizando-as, como só ele sabia, algumas páginas do livro.

Fomo-nos encontrando, almoçámos algumas vezes na Gôndola, um restaurante que ficava perto do meu escritório, na Av. António Augusto de Aguiar e a uns passos do edifício da Gulbenkian onde estava instalada a direcção do Serviço de Bibliotecas. Num desses almoços, propus-lhe que dirigisse uma história da literatura portuguesa (não pôde aceitar, pois estava com mil e um compromissos, mas forneceu-me uma série de pistas de grande utilidade).

Na Primavera de 1996 encontrámo-nos casualmente no restaurante do Hotel Continental onde na época frequentava uma tertúlia que ali reunia (e reúne) às quartas-feiras – Bruno da Ponte, Rui de Oliveira, Leça da Veiga, Pedro Godinho, O Jaime Camecelha, entretanto falecido – estávamos costas com costas e eu não o conheci, pois estava muito magro, quase calvo, acabava de chegar de uma clínica de Londres, desfigurado pela doença e pela quimioterapia. e ele chamou-me . Disse-me sorrindo que a sua vida estava por dias ou por semanas. Protestei e ele continuou a sorrir. Fiquei devastado. Em Junho morreu.

 Fui à Basílica da Estrela, onde o corpo estava em câmara ardente. Não sei por que motivo os escritores ali vão sempre parar (o Palácio Galveias não seria mais adequado?). Não era o caso do David, mas, por exemplo, o Orlando da Costa e o Luiz Pacheco, comunistas e ateus, numa basílica… A nora, a ex-apresentadora da RTP, Margarida Mercê de Mello, leu alguns poemas dele. Um era muito comovente, dizia: – «Há-de vir um Natal e será o primeiro/ em que se veja à mesa o meu lugar vazio…» No cemitério dos Prazeres, Amália chorava copiosamente. David Mourão-Ferreira, um grande poeta, um grande professor e intelectual. E, acima de tudo isso, um homem de uma excepcional e humana capacidade de ser generoso.

 

Leave a Reply