CONTOS & CRÓNICAS – “THE HATEFUL EIGHT”, de QUENTIN TARANTINO – FEITOS NUM OITO, por MARCOS CRUZ

contos2 (2)

Feitos num oito

A brancura é o pano de fundo, as montanhas cobertas de neve, a virgindade da paisagem e a subjugação pura aos elementos da natureza. Tarantino parece dizer-nos que no início era isto. Depois, sob a égide de uma escultura em representação de Cristo, ouve-se o galopar dos cavalos que puxam a diligência onde se fazem transportar as primeiras personagens de “The Hateful Eight”, nada menos que um famoso caçador de prémios, John Ruth, e a sua presa mais recente, uma fugitiva de nome Daisy Domergue, por quem se oferece dez mil dólares na cidade de Red Rock. Fugindo à tempestade que lhes morde os calcanhares, o carroceiro é obrigado a parar em frente a um homem, Major Marquis Warren, que transporta também, mas neste caso mortos, dois criminosos cujas cabeças se anunciam pagas a peso de ouro. Um e outro, os predadores, reconhecem-se de batalhas antigas, na Guerra Civil americana, e concordam em partilhar a partir dali a viagem. É então que surge mais um potencial passageiro, o autoproclamado futuro xerife de Red Rock, ou seja, o homem que terá de pagar a ambos o prémio das suas conquistas. Acontece que o vendaval de neve força a diligência a fazer escala no único estabelecimento das redondezas, a Retrosaria da Minnie. Lá dentro, porém, já se hospedam mais cinco reputados bandidos, todos eles omitindo a sua verdadeira identidade. Estamos, assim, na Quinta das Celebridades de Quentin Tarantino, o albergue improvisado onde o realizador encena o essencial da história da América. E, ao mesmo tempo, na sua Casa dos Segredos, palco de um mistério evocativo dos contos de Agatha Christie. São praticamente três horas dentro deste décor rústico e desapiedado, como um curral, em que o individualismo e a ganância vão cumprindo o papel motriz de baixo e bateria no requiem que desvela, sobre qualquer hipótese de redenção, a animalidade da nossa espécie. O filme parece ele mesmo arrastar correntes, qual prisioneiro caminhando agarrado ao pulso firme de Tarantino, que o leva lenta e gravemente para onde quer. A promessa de que haverá sangue paira como um espectro sobre diálogos intermináveis, jogos de posicionamento por parte das peças que se alinham naquele xadrez. O estilo é destilado em versão whisky velho, teso e amargo, para quem se aguentar à bronca. Não tivesse o realizador norte-americano, pela identidade tão própria do seu cinema, um lugar artístico que o põe acima dos juízos morais e dos melindres sazonais da opinião pública e este filme render-lhe-ia uns quantos nomes feios. Desde logo o de misógino. Nas mãos dele, Jennifer Jason Leigh é um saco de porrada, até faz impressão, e a escalada de agressões pretende provocar o riso e o deleite estético, nunca espectacularizar uma eventual denúncia da vitimização da mulher. Já se sabe que o politicamente correcto não é a praia de Tarantino, e ainda bem, mas isso não obsta a que muita reflexão sobre a condição humana e a sociedade moderna esteja ali concentrada, debaixo do sangue e da neve, à merce das nossas voluntárias escavadelas. Assim como Ettore Scola, em “O Baile”, conta parte da história recente de França num salão de dança, o autor de “Pulp Fiction” rebobina o filme da América num pardieiro de montanha. Com uma diferença abissal (entre as que se conhecem): onde um não tem diálogos, o outro quase não tem frestas entre eles. A memória do western spaghetti e o fascínio pelo gore – só aparentemente gratuito, tanto mais que se insere no retrato de uma cultura – são também presenças vincadas em “The Hateful Eight”, porventura o filme mais difícil, denso e político dos últimos que Tarantino tem realizado.

Leave a Reply