O GRITO DO COIOTE ou A CANÇÃO DA PRADARIA – por Sérgio Madeira

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Como os visitantes habituais do nosso blogue sabem, sou o responsável pela rubrica O grito do coiote. Por respeito pelo grande Luiz Pacheco não usei o «uivo» – ele abominava os plágios. Começo por uma história ocorrida  há mais de vinte anos. Após um jantar comemorativo de qualquer coisa, jantar que se realizou no restaurante da antiga Feira das Indústrias, vendo a D. Beatriz Costa dirigir-se a um táxi e ofereci-me para lhe dar boleia para o Hotel Tivoli, onde residia. Aceitou e, perguntou-me de onde era eu, o que fazia. ..

Sempre sem papas na língua, ao perceber que eu era um «esquerdalho», zurziu no PC e vendo que eu não me ofendia nem demonstrava enfado, passou a outro tema – Milharado, saloios e burros. Convidou-me para tomar uma bebida, tentei recusar, mas ali estava no seu território – chamou um «menino», um jovem groom, pediu-me a chave e mandou-o arrumar o carro. Já sentados à mesa, descreveu-me a Charneca do Milharado, uma aldeia do concelho de Mafra em cores vivas e elogiosas. Verberou o vocábulo «saloio» como adjectivo pejorativo, pois para ela os saloios são gente com uma sábia filosofia e vida. «Esperteza saloia? Não – sabedoria saloia!»

E passou aos burros…

Foi há mais de vinte anos. Após um jantar comemorativo de qualquer coisa, jantar que se realizou no restaurante da antiga Feira das Indústrias, vendo a D. Beatriz Costa dirigir-se a um táxi e ofereci-me para lhe dar boleia para o Hotel Tivoli, onde residia. Aceitou e, perguntou-me de onde era eu, o que fazia. .. Sempre sem papas na língua, ao perceber que eu era um «esquerdalho», zurziu no PC e vendo que eu não me ofendia nem demonstrava enfado, passou a outro tema – Milharado, saloios e burros. Convidou-me para tomar uma bebida, tentei recusar, mas ali estava no seu território – chamou um «menino», um jovem groom, pediu-me a chave e mandou-o arrumar o carro. Já sentados à mesa, descreveu-me a Charneca do Milharado, uma aldeia do concelho de Mafra em cores vivas e elogiosas. Verberou o vocábulo «saloio» como adjectivo pejorativo, pois para ela os saloios são gente com uma sábia filosofia e vida. «Esperteza saloia? Não – sabedoria saloia!» E passou aos burros.Os burros são dos seres mais inteligentes que habitam o planeta. A sua teimosia que os faz agir no sentido contrário ao que lhe queremos impor, não significa estupidez, mas sim a recusa de cumprir ordens de cuja lógica discordam. O Carlos Loures tinha-me dito, pouco tempo antes, após uma conversa com o Professor Sacarrão, o sábio lhe tinha exposto com veemência os inconvenientes de antropomorfizar comportamentos de animais só porque diferem dos humanos. Cada animal sabe aquilo que necessita de saber para assegurar a sua sobrevivência.

Beatriz Costa, que não era tão ignorante quanto se dizia (seguiu cursos na Sorbonne, mas em Portugal não pôde obter carta de condução por não ter diploma da quarta-classe), dizia por outras palavras o mesmo que o Professor – o QI ´um dado intraespecífico – a inteligência de um a galinha só pode ser aferida comparando-a com a de outra galinha.Uma das «provas» da estupidez da galinha é o não ser capaz de, com o bico, levantar o fecho da capoeira e libertar-se. «Na natureza não há capoeiras», dizia o Professor. Os animais só estão preparados para enfrentar os problemas que a natureza coloca – as intervenções do homem, não fazem parte das defesas genéticas dos galináceos. Mas provam a sua inteligência com uma requintada organização social – quando o milho é colocado no comedouro, as galinhas não se atropelam –existe uma «ordem de bicada»-, ou seja, uma hierarquia que determina quando é que cada uma delas pode comer. Se uma franga tenta violar a regra, logo as veteranas a metem na ordem-Perguntarão: o que tem esta história e este tipo a ver com esta homenagem?

 Não conheci pessoalmente o Professor Sacarrão. O que dele sei, foi-me contado pelo Carlos Loures. Comprei o livro HOMEM Origem e Evolução e lera a Biologia do Egoísmo. Sacarrão, tal como o seu amigo Edgar Morin, condenam liminarmente a antropomorfização, ou seja, a atribuição a animais de características humanas, embora justificáveis em contos infantis e em fábulas como as de Esopo ou La Fontaine, são indesculpáveis num discurso sério – Ricardo Salgado é um bandalho, um ladrão e não um tubarão, Cavaco Silva é um estúpido desonesto e um ignorante, um iletrado, não um cavalo ou um burro…

Poderia ficar horas a dar exemplos. Mas queria, sobretudo, defender a reputação do coiote.Se quisesse entrar na onda antropomórfica, diria que, apesar de ser norte-americano, a sua má fama é injusta. O coiote (canis latrans na classificação de Lineu), é um mamífero carnívoro da família dos canídeos. Em adulto tem o tamanho de um cão médio – entre o lobo e a raposa. Após um período de gestação de 60 a 63 dias, nascem ninhadas de 5 a 10 crias. Após a fase juvenil em que se alimenta principalmente de insectos, atinge a perícia necessária para a captura de roedores – coelhos e lebres, são o alimento preferido. Pode, tal como um cão, viver no seio de uma família humana. Em suma, o coiote é um animal bonito e simpático.A má fama talvez venha por via da cultura pele-vermelha, muito eivada de antropomorfismos.

O grito do coiote era escutado todas as noites, ecoando pela pradaria. Nos seus acampamentos, ingleses, irlandeses, australianos…. – os “pioneiros do Oeste”eufemismo para transformar em heróis os europeus miseráveis que roubavam as terras aos «selvagens», heróis semelhantes aos sionistas que ocupam a Palestina, escutavam o grito que os coiotes lançavam ao entardecer. Quando a «canção da pradaria» não se fazia ouvir, era sinal de que os índios iam atacar. É uma mancha curricular – os coiotes ajudavam os colonos – foram bem pagos: as suas peles eram valiosas e eram chacinados pelos caçadores – pela gente empreendedora que ida da Europa, de África, da Ásia, construiu o império que domina o planeta.

O grito do coiote foi silenciado.

E nós, os índios, incluindo os saloios, quando é que atacamos?

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