Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
9. Um assalto a 3 sobre muitos milhares de milhões
O colapso do Mps decidido à mesa por três hedge funds americanos
Renzi: “Banco está agora em condições sãs, portanto agora a sua compra é um grande negócio.”
GIANLUCA PAOLUCCI, Il crollo di Mps deciso a tavolino da tre fondi speculativi americani. Renzi: “Banca risanata, ora è un ottimo affare comprarla”
La Stampa, 22 de Janeiro de 2016

A enormíssima operação montada à mesa por alguns grandes hedge funds americanos pôs em perigo de afundar o banco Monte dei Paschi (MPS). Tudo isto parece quase o enredo de um filme: os três dias que fizeram tremer o governo e seriamente alarmaram o Banco da Itália, o BCE e o sistema bancário italiano e é o resultado de uma aposta imprudente criada por pelo menos três hedge funds americanos com enormes dotações financeiras. Difícil saber os seus nomes, dado que são contrapartes muito importantes em todas as salas de mercados. Por detrás de tudo isto, como se pode reconstruir, está o cálculo efectuado sob a garantia assumida pelo Estado quanto aos créditos degradados do MPS na semana passada. Uma percentagem entre 18 e 20% a cargo da Cassa Depositi e Prestiti (CDP SpA). A indiscrição foi confirmada nos círculos governamentais, com o Ministério da Economia e Finanças a manter desde há muito tempo um canal aberto com alguns grandes hedge funds por causa da criação do banco mau, na óptica de encontrar compradores para os créditos degradados dos bancos italianos.
A operação
Feitas duas contas, dados os 24 mil milhões de créditos degradados, os NPLs em inglês, do banco de Siena e os cerca de 10 mil milhões de património líquido, a garantia cobre até 4 a 5 mil milhões . Está a faltar uma dezena e, portanto, o património líquido (capital, ou acções) de MPS valem zero. Daí a tarefa: apostar na baixa dos títulos, apostar na subida dos CDS para a Itália na convicção de que uma ruptura ou uma resolução de MPS levaria ao aumento dos spreads italianos, e para comprar os títulos degradados do MPS que, se a aposta for ganhadora, teria levado a preços extremamente convenientes sobre os referidos créditos degradados “cobertos” pela garantia do Estado via a CDP. Neste ponto, no entanto, ainda há um pequeno problema: a proibição da venda a descoberto imposta pela Consob, organismo equivalente à Comissão do Mercado de Valores Mobiliários de Portugal. Problema fácil de contornar através da compra num dos bancos ‘market makers’ na Bolsa de Valores Italiana de opções de venda sobre as acções de MPS. A este nível, o banco deve “cobrir-se” para as opções que vendeu, e como formador de preços de mercado pode vender títulos a descoberto sem nenhuma penalização para se garantir sobre as opções de venda compradas pelos Hedge Fund.[1]
Na segunda-feira iniciou-se a operação e na Bolsa o título MPS caiu. Ao mesmo tempo o spread da Itália começou a subir, com saltos que atingiram os vinte pontos registados na sessão de terça-feira. O dia de quarta-feira talvez tenha sido o pior dia: o título desce cerca de 22%. No final, o MPS vale apenas um pouco mais que 1.5 mil milhões de euros. O terceiro banco do País vale tanto quanto uma empresa como Iren, a multiutilidade (fornecedor de gás e electricidade) do Noroeste. Pouco mais que Cerved, que fornece dados e informações sociais e vale metade das penas de ganso de Montcler.
A mudança
Seguidamente, na quarta-feira à tarde passou-se algo. O Tesouro fez saber aos seus interlocutores que a situação mudou. A garantia não será feita pela Cdp mas directamente pelo Tesouro, que põe sobre o prato da balança 40 mil milhões de euros. Será activada caso a caso, a pedido da banca e a quantidade de cobertura dependerá das necessidades de cada uma das instituições financeiras isoladamente. Eis pois que a aposta deixa de ser válida. Na sessão de ontem começaram as operações de cobertura com compras maciças de títulos e com os preços a subirem na ordem dos 43% e fecharam a 0.73 euros contra os 51 cêntimos da véspera. A capitalização rondou os 2.14 mil milhões de euros e toda a gente pôde respirar de alívio. O título troca-se a 8% do capital. O Governo, com o Primeiro-ministro Matteo Renzi que o define como estando financeiramente saneado diz que é “um excelente negócio” para o eventual comprador: o Banco Central italiano, Bankitalia, e o BCE, andavam alarmados com o medo de uma crise bancária com resultados imprevisíveis para todos. O próprio banco, entretanto, numa óptica de transparência para tranquilizar os mercado e os titulares de uma conta decidiu antecipar para o dia 28 de Janeiro as contas de 2015 previstas para o dia 5 de Fevereiro.
GIANLUCA PAOLUCCI, Jornal La Stampa, Il crollo di Mps deciso a tavolino da tre fondi speculativi americani- Renzi: “Banca risanata, ora è un ottimo affare comprarla”. Texto disponível em:
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