Carta do Rio – 92 por Rachel Gutiérrez

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Não é comum falar-se num livro que ainda não se leu, mas eis que o simples título e uma entrevista, concedida pelo autor de A Utilidade do Inútil ao Jornal O Globo me remeteram a um trecho, que cito a seguir,  da Carta do Rio 71, dedicada  à Colette, uma de minhas escritoras favoritas:

Meus amigos conhecem a pequena coleção de pesos de papel, que venho aumentando ao longo dos anos, numa clara e confessa imitação da grande coleção de sulfures , que a escritora francesa preferia chamar de bolas de vidro. E ao referir-se a elas, costumava brincar dizendo que eram pesos de papel para pesar sobre papel algum, como “arte pura por sua inutilidade”. Colecionou-os, contudo, por mais de trinta anos, explicando que “o que é inútil é quase sempre inesgotável”.  Na mesma Carta, citei também uma epígrafe de Henri de Regnier, que Maurice Ravel, amigo de Colette, colocou na partitura das suas Valses nobles et sentimentales : O prazer delicioso e sempre novo de uma ocupação inútil. (Le plaisir délicieux et toujours nouveau d’une occupation inutile).

Ora, a editora Zahar acaba de lançar entre nós a tradução do que se anuncia como “manifesto em defesa de valores humanistas considerados ‘inúteis’ ”. Seu autor, o filósofo italiano Nuccio Ordine, parceiro de Umberto Eco na Editora La Nave de Teseo, e professor da Universidade da Calábria, “defende que só aquilo que está fora da lógica do lucro – as artes, a filosofia, a ciência – pode nos salvar da autodestruição”, diz o lide da matéria.

Entre as sábias respostas que deu ao seu entrevistador, Ordine afirmou que “é preciso olhar o mundo em que vivemos, onde a lógica do dinheiro domina tudo. A única coisa que não pode ser comprada é o saber. (…) Os saberes, como a música, a literatura, a filosofia, a arte, nos ensinam a importância da gratuidade.”

E eu dizia no meu artigo sobre Colette, que ela pertencera a uma época em que “a gratuidade da arte equivalia à sua absoluta necessidade”. Necessidade do espírito, da cultura, não do comércio. E lembro que apreciadores de jazz do meu tempo de jovem costumavam distinguir, por exemplo, os bons discos dos “meramente comerciais”. Esse era o critério. “Comercial” era antônimo de autêntico e bom.

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Perguntado sobre o que há de diferente hoje na discussão sobre o utilitarismo e o poder do dinheiro, o filósofo responde:

Desde o período clássico, vários autores refletiram sobre o perigo do dinheiro. Mas hoje, nós temos uma radicalização na busca pelo lucro que se tornou uma forma de autodestruição do próprio capitalismo. É a ânsia de ganhar mais e mais que vai destruir o capitalismo.

E por falar em ganhar mais e mais, sobretudo de forma ilícita, eis que foram presos pela Operação Lava Jato, inspirada na campanha das Mãos Limpas (Mani Pulite) da Itália, o milionário marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura.

Voltemos um pouco no tempo.  Voltemos às eleições de 2014, quando João Santana, o marqueteiro do ex-presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff, orquestrou, além da difamação do candidato Aécio Neves, a chamada “desconstrução” da figura da candidata e ex- ministra do Meio Ambiente Marina Silva, chegando ao absurdo de atribuir-lhe o confisco da bolsa-família, enquanto imagens mostravam os pratos de comida desaparecendo das mesas dos brasileiros. Um marketing mentiroso, perverso, o mais sórdido da nossa história.

Foi então que a Presidente Dilma afirmou que ia “fazer o diabo” para ganhar. E, orientada pelo marqueteiro, assim o fez. E ganhou! Mas uma vez reeleita, não soube cumprir promessa alguma de sua campanha fantasiosa e inconsequente. Isso, porém, é assunto para outros artigos.

Passemos à história de um sorriso. Não se trata, infelizmente, do sorriso da Mona Lisa, a famosa Gioconda, pintada por Leonardo da Vinci no início do século XVI. Não me refiro àquele sorriso enigmático ,misterioso e sedutor, ao mesmo tempo tímido e digno,  que encantou e continuará a encantar gerações e gerações de visitantes do Louvre. Refiro-me ao mais comentado sorriso de deboche ou escárnio da mulher de João Santana, filmada e fotografada fartamente ao ser presa pela Justiça Federal. É um sorriso que ofende, como disse a jornalista Ruth de Aquino, do semanário Época: (…) o sorriso deslocado e tresloucado da Mônica Moura, mulher do marqueteiro de Lula e Dilma, ao ser presa, retrato do Brasil que bate abaixo da linha da cintura.

A filósofa Hannah Arendt definiu a “banalidade do mal” do  período nazista. No nosso país de agora, presenciamos a banalização da roubalheira. Mas a Justiça Federal não para. E é possível que o deboche do sorriso de Mônica Moura tenha servido apenas para disfarçar o medo, um medo provocado pela tomada de consciência de que o fim da impunidade se aproxima.

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