Em Março ou Abril de cada ano, tem lugar a páscoa judeo-cristã. É a páscoa da igreja católica e de todas as igrejas cristãs protestantes que, a partir do século XVI, sucessivamente se separaram dela. Não é a Páscoa de Jesus Nazaré, o filho de Maria. É, até, contra a Páscoa de Jesus e o seu Evangelho de libertação para a liberdade de todos os povos por igual. Já é mais do que tempo de acordarmos e mudarmos de rumo!
Esta afirmação pode surpreender e escandalizar até os ateus. Pelo menos, os ateus do Ocidente que se orgulha das raízes cristãs, quando devia envergonhar-se! São ateus do Deus do cristianismo, o mesmo de todos os cristãos católicos, ortodoxos, protestantes. Que mais não é do que o Deus da Bíblia judeo-cristã que, como o nome indica, está no prosseguimento da Bíblia do judaísmo. Da qual Jesus Nazaré, na sua missão histórica, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, se demarca frontalmente. Bem como do seu Deus. A sua morte crucificada na cruz do império romano, a exigências do pleno dos três poderes do judaísmo mais ortodoxo, é consumada para se cumprir a Escritura, entenda-se, a Bíblia do judaísmo que todos os cristãos católicos, ortodoxos, protestantes e ateus fizeram sua. E à qual acrescentaram outros livros, com destaque, para as Cartas de S. Paulo. E deu a chamada Bíblia judeo-cristã. O Primeiro Testamento, comum a judeus e cristãos e ateus, e o Segundo Testamento, exclusivo dos cristãos e dos ateus.
A Páscoa de Jesus acontece numa sexta-feira de Abril do ano 30, na véspera-preparação da páscoa dos judeus, realizada nesse sábado, no templo de Jerusalém. A de Jesus é única e irrepetível. Como de resto a páscoa de cada uma, cada um de nós. Pode e deve ser olhada como a Páscoa-referência da páscoa de todos e cada um dos seres humanos, antes e depois de Jesus. Já a páscoa das igrejas cristãs está na continuação da pascoa dos judeus e da saída-fuga dos hebreus e outros escravos do Egipto dos faraós. Com uma diferença. Passou a ser designada, páscoa judeo-cristã, ou cristã, simplesmente. É meramente ritual, litúrgica. Pura encenação. Absurda encenação que deixa o mundo cada vez pior. Tem lugar nas casa e nas sinagogas dos judeus, nos templos paroquiais, e nas catedarais da igreja católica, nos múltiplos locais de culto das diferentes igrejas protestantes.
A narrativa do Êxodo bíblico não é a de um historiador, no sentido que temos hoje. É uma hábil e ideológica construção literária, escrita de acordo com os interesses e as ambições de domínio universal da casa real ou dinastia de David-Salomão. Os factos nela referidos têm alguma base histórica, mas nem de perto nem de longe aconteceram como o Livro bíblico relata. Visam impor o Deus do judaísmo, o mesmo da dinastia de David-Salomão, a todos os povos do mundo, numa época em que cada povo tinha o seu Deus. O critério para descobrir qual o verdadeiro era o mesmo do cristianismo e de todas as religiões – aquele que fizesse os seus adoradpres vencedores dos demais povos ao perto e ao longe. Por isso, o Deus todo-poderoso. É este o Deus da Bíblia judaica. Contra o qual Jesus Nazaré, o filho de Maria, se levanta e, por isso, acaba crucificado na cruz, como o maldito. Em seu lugar, o judeo-cristianismo impôs o mítico Cristo ou Messias, o filho de David, que historicamente nunca passou de um mito criado pela dinastia de David-Salomão.
É por isso que a páscoa das igrejas cristãs, na continuação da páscoa dos judeus, é uma páscoa anual e móvel, não em dia fixo. Sempre por volta da primavera, quando, nos países do Mediterrâneo, a vida parece começar a renascer no mundo das plantas. Está também relacionada com os movimentos e as fases da lua e remonta aos povos mais primitivos e às suas religiões, fruto dos seus medos. São páscoas que não têm nada a ver com o ser humano Jesus Nazaré, muito menos, com a sua Páscoa, em Abril do ano 30. A Páscoa de Jesus é a sua própria morte crucificada, como o maldito, decidida e consumada pelo pleno dos poderes que dominavam a Palestina de então. E para que se cumpra a Escritura (Bíblia) que mostra, assim, quão perversa é…
Dos 4 Evangelhos canónicos em 5 volumes, o que melhor relata, com pormenores históricos, a Páscoa de Jesus, é o Evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito. Logo seguido do Evangelho de João, que de algum modo reescreve Marcos, mas em densas e inultrapassáveis narrativas antropológicas-teológicas, escritas em clandestinidade, por isso, em liguagem totalmente cifrada, de difícil acesso-compreensão à primeira leitura. Curiosamente, são os 2 dos 4 Evangelhos que o cristianismo e as igrejasx cristãs menos gostam e que para os utilizar têm de manipular a sua interpretação até dizer chega! Ao ponto de conseguir levá-los a dizer como coisa boa o que eles objectivamente denunciam como a pior coisa à face da terra. O que obviamente perfaz um pecado contra a Verdade conhecida por tal, só para assim poderem impor a toda a Humanidade o seu Cristo-messias davídico, o Poder vencedor, como caminho de salvação do mundo, e arrumarem de vez com Jesus Nazaré, o filho de Maria, não de David, que o Evangelho de João põe o próprio Jesus a dizer, Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.
O Livro-estudo que melhor nos diz-revela Jesus e o seu Projecto político maiêutico é JESUS SEGUNDO JOÃO, o quarto Evangelho traduzido e Anotado ccomo nunca o conhecemos, de Pe. Mário de Olveira, Seda Publicações, 2013. Dele, ficam aqui 3 versículos, 28, 29, 30, do Capítulo 19, seguidos das respectivas Anotações, que nos dizem, em linguagem antropológica-teológica, os momentos finais de Jesus na cruz do império. Leiam-nos e reflictam. Nunca as igrejas cristãs poderão rever-se neles nem neste Evangelho. Implodiriam, no dia em que o fizessem. Por isso, todas elas odeiam tanto este Livro e o seu Autor. Mas odeiam muito mais Jesus Nazaré, o filho de Maria. São igrejas exclusivamente do mítico Cristo-messias davídico. Por isso, inimigas dos seres humanos e dos povos das nações, amigas dos poderes e seus agentes históricos que os mantêm dominados, elas próprias poder e privilégio.
Eis, pois, os 3 versículos:
“28 Depois, como sabe que tudo está consumado, e para que se cumpra a Escritura, diz, Tenho sede.
29 Está ali colocado um jarro cheio de vinagre. Eles ensopam no vinagre uma esponja, fixada num ramo de hissopo, e chegam-lha à boca.
30 Após Jesus tomar o vinagre, diz, Tudo está consumado. E, inclinada a cabeça, entrega o espírito.”
E as respectivas Anotações:
“28-30 Sublinha a Narrativa que, depois de ter ficado bem a nu que os seus o não acolhem, apenas não-judeus o acolhem, Jesus está plenamente consciente de que o Poder como sistema – então, o judaísmo e o império irmanados – está definitivamente desmascarado. Só mesmo cegos, que não queiram ver, é que não vêem. E esse é também o nosso pecado: é que não queremos ver, para podermos continuar, uma geração após outra, sob o patrocínio do Poder, também o Poder religioso-cristão. Uns, uma minoria, no luxo, outros, a esmagadora maioria, no lixo. Sem nunca nos assumirmos na história como sujeitos, da mesma estatura de Jesus. O máximo até onde chegamos, é sermos amigos de Jesus. Não outros, Jesus! E isto, para nosso mal. Porque, com semelhante postura política, nunca chegamos a crescer de dentro para fora, nunca chegamos a ser liberdade e autonomia, outros, Jesus. Ainda assim, a Narrativa surpreende-nos com Jesus a protagonizar uma de todo inesperada e derradeira tentativa de sensibilizar os judeus, súbditos dos dirigentes e do judaísmo davídico e da sua ideologia/idolatria e, neles, todos os povos das nações. Diz, Tenho sede! Com a manifestação desta sua súbita sede, Jesus diz aos judeus e seus dirigentes, e, nas pessoas de uns e de outros, a todos os povos e respectivos dirigentes, o mesmo que diz à mulher da Samaria (cf João 4). Concretamente, que o que ele pretende, não é uma bebida, mas mulheres, homens, populações tão plena e integralmente humanos quanto ele. Porém, em vez de água/sopro/liberdade/autonomia(= discípulas, discípulos), dão-lhe a beber vinagre. Pelos vistos, a única bebida que está ali, tal como, no início, em Caná da Galileia, estão ali as seis talhas de pedra secas, sem uma gota de água/ sopro/ vento/ liberdade/ autonomia. Um jarro cheio de vinagre! = a plenitude do ódio. Eis o Poder, em toda a sua crueldade. Em todo o seu cinismo. Ficam, assim, frente a frente, neste Momento-sem-ocaso da história, o ser humano pleno e integral, Jesus, Pão Partido que se dá a comer, Vinho Derramado que se dá a beber (= Vida que se entrega sem reservas a todas, todos), e o pleno do ódio (= Poder) que mata o humano, porque o não suporta! E que acontece? Jesus toma o vinagre = acolhe até quem o odeia!), volta a sublinhar, Tudo está Consumado = desvendado, inclina a cabeça, como quem adormece, e dá ao mundo a sua Ruah//Espírito maiêutico/Vento. Revela, deste modo que, para o ser humano pleno e integral, o acto de morrer é um mistério semelhante ao acto de nascer. Revela, concretamente, que a morte, para os seres humanos Consciência, não é o limite, como é para o Poder e o seu exercício. A morte é a grande porta da Vida-que-se-dá-sem-reservas-e-na-totalidade e que deixa o Poder totalmente a descoberto, como o Mal absoluto, o pecado estrutural do mundo. Deste modo, a Narrativa antropológica-teológica deixa bem claro que a vida-que-se-dá-sem-reservas-e-na-totalidade, é que tem a última palavra. O Poder, o mais que pode fazer, é matar o corpo, não a identidade = o Eu Sou que Jesus é. E que cada ser humano como ele, é. Por outro lado, fica também definitivamente revelado que só o amor político praticado, até à entrega da própria vida, não a caridadezinha, é que faz cair a máscara do Poder, por mais que os seus agentes históricos se façam vestir de padrinhos, de santidade e de generosidade. Na verdade, os do Poder são os grandes pecadores do mundo, ainda que sempre mentirosamente justificados pela ideologia/idolatria do Poder. Por isso, a história, apesar de todas as atrocidades e de todos os massacres cometidos pelo Poder e seus dirigentes – os grandes pecadores do mundo! – anda carregada de sentido e de abertura! Mas só Jesus, com as suas práticas políticas maiêuticas e os seus duelos teológicos desarmados, levados até à entrega da própria vida, da própria Ruah /Espírito maiêutico, no-lo desvenda/ revela. E, porque assim é, temos de concluir: Poder nunca mais! Jesus e seres humanos, outros, Jesus, sempre!”
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