Um dos fenómenos mais interessantes (e muito preocupantes) dos tempos que correm é o desajustamento cada vez mais frequente entre a vontade do povo e as acções dos governantes. Acontece entretanto que não são poucos os casos de personalidades eleitas por grandes maiorias para governarem os respectivos países nos diversos órgãos de poder, e que algum tempo depois de tomarem posse, aparecem comentários, sondagens, inquéritos, manifestações, etc., a indicar pouca confiança na sua acção, ou mesmo que caíram em descrédito. Terão sido casos flagrantes François Hollande, e também Cavaco Silva, ambos presidentes da república, mas com poderes diferentes. Parece ser também o caso de muitos parlamentares em diferentes países. Não se tratam de modo nenhum de casos isolados.
Mas os desajustamentos mais flagrantes notam-se na sequência de medidas e acções concretas. Ficaram para a história os referendos sobre os tratados europeus, cujos resultados foram relegados para o esquecimento, tudo indicando que os resultados respectivos não foram do agrado de quem os promoveu. Agora temos outro caso, o dos refugiados que afluem à Europa. As eleições de ontem em três estados alemães, indiciam uma queda na popularidade da CDU (União Cristã-Democrata), o partido de Angela Merkel, contrariando assim uma tendência que parecia muito firme há um ano atrás. A causa mais forte desta quebra terá sido o afluxo de refugiados, que muitos pensam terem sido encorajados pelas declarações que fez há meses atrás. Uma tendência semelhante estará a afirmar-se em França, conforme se pode concluir vendo a popularidade do Front National, e tendo em conta os resultados de um inquérito do IFOP (Institut Français d’Opinion Publique), referido no primeiro link abaixo. Entretanto, cresce o número de franceses descontentes com a integração na União Europeia, falando-se mesmo na hipótese de um Frexit, à semelhança do Brexit, e do referendo que se vai realizar no Reino Unido.
As reflexões sobre este fenómeno podem estender-se desde as análises às insuficiências do sistema de democracia representativa, aos efeitos dos desequilíbrios gerados pelas questões geopolíticas e por aspirações hegemónicas das nações que a elas se acham com direito. Os problemas da União Europeia, com repercussões que vão muito para além das suas fronteiras, a situação no Próximo e Médio Oriente, o recrudescimento do fanatismo religioso (islâmico e não só), a tensão entre a China e o Japão, entre a Índia e o Paquistão, as crises políticas na América do Sul, a persistência de ditaduras brutais em muitos países, embora nalguns disfarçadas de democracia, dão ampla matéria para análise. As diferenças de comportamento dos que exercem o poder político, entre antes de o assumirem e depois de o terem na mão, relevam tanto da psicologia e da sociologia das organizações, como da incapacidade de abarcar toda a complexidade da vida em comum de um país. O papel cada vez maior (muitas vezes acompanhado de grandes desilusões) de organizações regionais e internacionais e da chamada globalização, tem tornado a situação muito mais complexa.

