Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho – por Júlio Marques Mota I

Uma segunda carta a uma amiga minha sobre o dinheiro que não posso colocar nos cofres-fortes de um banco porque o não tenho

júlio marques mota

Júlio Marques Mota

Minha querida amiga

Escrevi-lhe há dias uma longa carta sobre a lógica ou da falta dela que decorria do facto de levantar o seu dinheiro que tinha no banco e de o colocar num cofre-forte desse mesmo banco. Falei-lhe da falta de lógica de tudo isto a seu respeito e a respeito também do que aconteceu em Lisboa num grande banco com o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado.

Dias depois. Draghi persiste na lógica das taxas de juro negativas, a União Europeia persiste igualmente na lógica da austeridade e estamos perante um poço sem fundo de aberrações que poderão levar à destruição da Europa. O que eu não sabia era que o fenómeno do levantamento do dinheiro dos bancos para o guardar nos bancos é já muito mais geral e que a minha amiga não está sozinha nesse que pensa em ser um ato solitário de esconder a sua liquidez depositada num banco no cofre de um banco.

Grandes autores vêm agora a lume propondo o desaparecimento das notas grandes ou mesmo o desaparecimento do papel-moeda e a sua substituição por moeda eletrónica. E nesses autores estão nomes como Larry Summers, Roggoff, gente bem conhecida no mundo da economia

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Face a isto poderia ser levado a pensar que me mentiu, isto é, que a minha amiga não apenas foi, mas sim, continua a ser uma alta especialista e alta funcionária dos mercados financeiros e, portanto, mais bem informada que o comum dos mortais sobre a opacidade do sistema. A ser assim, poderia, pois, ser uma infiltrada da UBS, (como por exemplo o foi Bradley Birkenfeld) ou de um outro grande banco para a recolha de fundos a transferir para regiões mais calmas, mais seguras, de mais “qualidade”, os paraísos fiscais. Poderia ser levado a pensar isto mas a franqueza com que me relatou aquilo que eu, como estudante e depois como professor de economia, nunca poderia imaginar:

Alguém a levantar uma pipa de massa, coloca-la num saco, dar meia volta, voltar ao mesmo ponto do balcão e depositar essa massa num cofre à guarda do mesmo banco porque deixou de acreditar nas instituições financeiras,

Leva-me a crer que a minha amiga é mesma muito sincera, profundamente sincera na sua angústia perante a incerteza que o sistema lhe produz. Direi mesmo que a sua sinceridade advém do facto de ser tão vítima do sistema como eu e, afinal, como mais gente conforme se prova abaixo.

Escrevo-lhe pois esta carta, para lhe dizer que está bem acompanhada e não se sinta incomodada pelo absurdo macroeconómico em que entrou. Muita mais gente anda a fazer o mesmo e não apenas o nosso homem bem vestido e ainda melhor calçado a meter uma mala cheia de dinheiro no cofre de um grande banco de Lisboa.

Uma vista de olhos por vários jornais, por vários blogs mostra-nos pois que anda muita a gente a fazer o mesmo que a minha querida amiga fez. Isso é coisa que eu não posso fazer porque pipa de massa é coisa que não tenho, embora o pudesse pensar e fazer se a tivesse. Que isto lhe sirva de conforto, também. Mas esses jornais, esses blogs mostram-nos ainda algo de muito importante: que as Instituições continuam na mesma trajetória, a que nos poderá levar à destruição total e agora estão já a pensar com o é que poderão impedir que a minha amiga e toda a outra gente que tem dinheiro para fazer o que fez o não o possa voltar a fazer ou então a tornar bem mais difícil que o possa fazer.

As notas do Banco Central de grande valor facial estão normalmente associadas ao crime. Mas estas notas também permitem tornar mais fácil o levantamento de grandes somas de dinheiro dos bancos e mantê-lo fora do olhar de estranhos.

As notas de USD 100 sempre tiveram uma relação complicada com o público. Por um lado, é uma atitude “É Tudo sobre os Benjamins” atitude que tem tido uma forte base na cultura popular. A nota de USD 100 representa riqueza e sucesso, sendo a nota de mais valor emitida nos Estados Unidos.

Mas as notas de USD 100 têm sempre sido também a ovelha negra da moeda americana. É a única nota que não tem a imagem de um edifício governamental (Independence Hall na Filadélfia), e uma das duas que não dispõem da imagem de um presidente (a de USD 10 com Hamilton é a outra). A maioria das pessoas sente-se levada a pedir desculpas e a pedir permissão antes de pagar com uma nota de USD 100 seja em lojas seja em restaurantes, e algumas lojas não as querem mesmo aceitar. Mesmo os assaltantes de bancos evitam estas contas ( “não me deem sequencias de notas de USD 20 de USD 100”).

Agora, o ex-secretário do Tesouro Lawrence H. Summers chamou para a atenção para a necessidade de eliminar a nota de USD 100, ao mesmo tempo que o Financial Times informou que o Banco Central Europeu está a pensar eliminar outro grande projeto no exterior, a EUR 500.

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(continua)

 

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